Como Maria Vitória Ramos e a Fiquem Sabendo revolucionaram a transparência pública no Brasil
Da reportagem voluntária à liderança da Fiquem Sabendo, Maria Vitória Ramos dedicou sua trajetória a fomentar o uso da Lei de Acesso à Informação como ferramenta para fortalecer a democracia. A imersão na Universidade de Columbia como visiting scholar, com apoio do Instituto Ling, ampliou a visão e impulsionou projetos pioneiros de inteligência artificial e transparência. Premiada pela Fundação Schwab na categoria Mobilização e fellow da Ashoka, ela agora prepara a instituição para dar novos saltos em escala e formar fiscais cívicos por todo o país.
A curiosidade por múltiplos assuntos levou Maria Vitória Ramos a escolher o jornalismo como profissão. Já a descoberta da importância da Lei de Acesso à Informação não apenas para a imprensa, mas para a democracia, a fez participar da criação da Fiquem Sabendo, organização premiada por seu trabalho de promoção da transparência governamental.
“Queria poder explorar diferentes assuntos e via a importância de um jornalismo bem feito para a sociedade, além de a imprensa ser o quarto poder, o verificador do funcionamento do governo”, conta. Formada pela Cásper Líbero em 2018, ela começou a trabalhar como repórter voluntária da Ponte Jornalismo, cobrindo segurança pública. Hoje, além de liderar a Fiquem Sabendo, assina uma coluna na Folha de S.Paulo sobre transparência, acesso à informação e democracia.
Antes mesmo de se formar, Maria Vitória foi convidada para um evento comemorativo do aniversário da Lei de Acesso à Informação (a Lei nº 12.527 de 2011, conhecida como LAI). “Eu não conhecia a lei. Fui sem querer ao evento porque um amigo me chamou. Fiquei encantada e revoltada porque eu estava no terceiro ano de jornalismo e ninguém tinha falado sobre ela”, lembra.
O interesse se transformou primeiro em uma reportagem especial para uma disciplina da faculdade. Logo, ela se uniu a outros jornalistas e a um advogado com uma missão: divulgar a existência da LAI, “essa ferramenta democrática superpoderosa que poderia revolucionar a forma como a sociedade e o governo interagiam entre si”, define. Nascia, ali, a Fiquem Sabendo.
Em 2023, Maria Vitória teve a oportunidade de fazer uma pausa na intensa rotina operacional da organização para se dedicar a uma imersão acadêmica no exterior. Com apoio do Instituto Ling, ela participou do programa de visiting scholars na School of International and Public Affairs da Universidade de Columbia, em Nova York, onde pôde expandir repertórios e oxigenar a visão de futuro da Fiquem Sabendo. Reconhecida com o Prêmio Empreendedor Social da Fundação Schwab na categoria Mobilização (2024) e nomeada fellow da Ashoka (2025), Maria Vitória vê a passagem por Columbia como o alicerce para os próximos passos. “Foi uma exploração curta que me ajudou a entender o que me interessa para agora buscar um mestrado”, pontua.
A maturidade do projeto e a experiência em Columbia
Quando mais nova, Maria Vitória já tinha participado de programas de estudo nos Estados Unidos. Mas estar na tradicional Universidade de Columbia, referência em jornalismo e políticas públicas, era um grande sonho. “Foi muito importante porque, ali em 2023, eu já estava com a Fiquem Sabendo há quatro anos e meio. Só trabalhando no dia a dia, sem conseguir ampliar as perspectivas”, conta.
O período de seis meses como visiting scholar consolidou uma nova fase na Fiquem Sabendo. Pela primeira vez, Maria Vitória se afastou da diretoria executiva e a jornalista Taís Seibt assumiu como interina. “Foi o começo de um processo muito importante porque toda organização, que tem seus fundadores ali trabalhando, fica muito atrelada à pessoa física. E ela tem que se sustentar e prosperar independentemente de uma ou outra pessoa.”
Em Columbia, os aprendizados extrapolaram as salas de aula. “Uma das minhas professoras recebia os alunos em casa para conversas que frequentemente reuniam algumas das mentes mais brilhantes da universidade, incluindo vencedores do Prêmio Nobel. Essas conversas eram fantásticas”, exemplifica. A ponte com a comunidade do Instituto Ling e de brasileiros na universidade também abriu portas valiosas.
“Meu mentor no programa Jornalista de Visão, Felipe Seligman, cofundador e co-CEO do JOTA, foi uma voz muito importante para entender como uma organização muito maior lidava com desafios parecidos com os nossos.” Com a atuação de advocacy pela transparência da Fiquem Sabendo, o contato com lideranças políticas no exterior foi outra conexão valiosa.
A rotina em Nova York incluiu desde eventos do Brasil na ONU até a realização de um sonho antigo: fazer um curso de stand-up comedy no tradicional Comedy Cellar. Para Maria Vitória, o principal ganho da experiência foi a renovação do repertório profissional e as conexões construídas ao longo do programa. “Sair do dia a dia e ler muito gerou ideias de projetos, de pedidos de acesso à informação, de formas de analisar políticas públicas diferentes do que eu já tinha em mente. Também foi muito especial criar uma conexão com professoras como Esther Fuchs, que alia uma sólida trajetória acadêmica à experiência prática na gestão pública. Ela atuou como assessora especial de Governança e Planejamento Estratégico do então prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, o que tornou nossas conversas ainda mais inspiradoras. Essas trocas ampliaram muito minha visão sobre políticas públicas e liderança”, conta.
A bagagem adquirida em Columbia permitiu refinar a própria missão da organização. “Passamos a enxergar a lei como uma ferramenta de um objetivo maior, que é a redução do desequilíbrio de poder entre sociedade e Estado”, conta.
A experiência em Nova York se desdobrou em projetos e grants internacionais. Após o curso, Maria Vitória participou de um programa no Brown Institute em Columbia, onde impulsionou a Agenda Transparente, ferramenta da Fiquem Sabendo que permite monitorar os compromissos de mais de 10 mil autoridades governamentais e ampliar a transparência sobre processos de influência e tomada de decisão no poder público. Além disso, a organização conquistou um grant de Columbia e Stanford para desenvolver uma inteligência artificial que auxilia cidadãos na elaboração de recursos contra negativas de acesso a dados públicos. “A oportunidade de cinco meses colocou para girar uma roda que rende frutos de forma espontânea, muito além do fim do programa”, reflete.
“A lei só se transforma em realidade quando você tem pessoas usando, pressionando e cobrando”
A Lei de Acesso à Informação regulamenta o direito de qualquer cidadão obter dados, documentos e informações dos órgãos públicos. Mas Maria Vitória e seus colegas enxergavam um potencial ainda não atingido.
“O início do problema é que os cidadãos não participam das decisões que mais impactam suas vidas. Isso gera uma ausência de accountability no poder público, o que resulta numa ineficiência das políticas públicas e dos recursos, e em autoritarismo, corrupção, abuso de poder, conflito de interesse. Tudo isso acentua a desconfiança nas instituições, que hoje é a maior ameaça às democracias no Brasil e no mundo”, resume.
Alinhada à visão da Unesco — que coloca o acesso à informação como pré-requisito para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) —, a organização atua hoje em quatro frentes integradas: Jornalismo, Educação, Tecnologia Cívica e Advocacy.
“A lei só se transforma em realidade quando você tem pessoas usando, pressionando e cobrando. A gente entende que a transparência é o caminho”, pontua. “A Fiquem Sabendo é uma organização sem fins lucrativos, independente, apartidária, trabalhando por uma sociedade informada e capaz de cobrar políticas públicas eficientes e justas.”
O braço jornalístico não produz reportagens, mas atua como infraestrutura. “Entregamos matéria-prima — dados, documentos inéditos e ferramentas — para todo o jornalismo independente, local e tradicional”, explica. Essa atuação já fundamentou mais de 10 mil reportagens no Brasil e no mundo e acumula cases de repercussão internacional, como a abertura dos dados sobre pensões militares do Governo Federal; os gastos no cartão corporativo, que ganharam transparência a partir de 2024 com o trabalho da Fiquem Sabendo; e o monitoramento de agendas – que permitiu à imprensa cobrir, por exemplo, o lobby das bets.
Além da newsletter Don’t LAI to me – com mais de 20 mil inscritos – e do portal educativo WikiLAI, a organização mantém o Queremos Saber, que faz pedidos de informação em nome de cidadãos para protegê-los de retaliações locais.
Outro dos braços da Fiquem Sabendo é a educação, por meio de programas como o Fiscais do Clima. “Ano passado, a gente desenvolveu um projeto muito legal para formar lideranças no Norte e Nordeste para fiscalizarem o investimento governamental em questões climáticas e de prevenção a desastres, o programa Fiscais do Clima”, adiciona. O projeto teve apoio da plataforma Green Accountability.
Para escalar o impacto, a Fiquem Sabendo mantém um núcleo próprio de Tecnologia Cívica. Entre os projetos mais recentes está o LAIA, uma inteligência artificial desenvolvida para auxiliar cidadãos na elaboração de recursos contra negativas de pedidos de acesso à informação. Financiado pelo Brown Institute, uma colaboração entre Columbia e Stanford, o projeto também resultou em uma metodologia replicável para avaliação de sistemas de IA em contextos cívicos e tem lançamento previsto para o início do próximo ano. Já na frente de advocacy, a organização atua para impedir retrocessos e propor melhorias no arcabouço legal.
“Nossa equipe faz centenas de pedidos de acesso à informação por ano. Com isso, a gente consegue identificar onde a transparência ainda não chegou, e aí nós fazemos denúncias em órgãos de controle e, quando necessário, litigância estratégica para obter essas informações”, explica Maria Vitória. “Em termos de impacto, a gente já tem quatro novas leis sancionadas no Brasil que foram escritas por nós, dez leis em estados e municípios — várias no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre, porque a gente tem uma parte grande da equipe gaúcha.”
Impacto mensurável e novos horizontes
Para os próximos anos, a perspectiva é escalar o impacto do trabalho – e torná-lo ainda mais local. Maria Vitória brinca que, para fazer a lei funcionar, é preciso ter pelo menos “um chato da LAI” em cada um dos municípios – um “auditor cívico”, alguém que persiste para ter acesso a informações que deveriam ser públicas e que propaga o potencial da lei.
“Trabalhamos muito para que a lei não fosse apenas uma lei escrita, mas que ela funcionasse, que ela tivesse os mecanismos adequados, os espaços para recurso, as instâncias superiores. Criamos dezenas, centenas de precedentes que abriram portas para que os outros cidadãos pudessem questionar, cobrar até que os prazos funcionassem”, conta. “A gente quer fazer isso agora também nos estados e municípios que ainda não têm esse ecossistema bem desenhado.”
Uma consultoria realizada no último ano mostrou que cada 1 real investido na Fiquem Sabendo gera uma economia de 688 reais para os cofres públicos. “A gente se tornou a principal referência em desaprisionamento de dados e informações públicas no Brasil”, celebra Maria Vitória.
30.10.2026