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Das redações à economia de impacto: Bárbara Ladeia lidera inovação ambiental na Yunus

Jornalista de formação, Bárbara Ladeia trocou as redações pelo empreendedorismo de impacto após um mestrado transformador em Madri, viabilizado pela bolsa Jornalista de Visão. Hoje, como gerente de Inovação Socioambiental da Yunus na América Latina, lidera projetos que conectam grandes corporações a propósitos socioambientais e apoia startups que colocam sustentabilidade e impacto social no cerne do negócio. Em paralelo, forma a próxima geração de profissionais do setor como professora e doutoranda em gestão estratégica.

Das redações à economia de impacto: Bárbara Ladeia lidera inovação ambiental na Yunus

Para Bárbara Ladeia, desde cedo, carreira é sinônimo da união entre comunicação e economia. O horizonte, desde a adolescência, eram as redações jornalísticas – e ela chegou lá, atuando como repórter desde o primeiro período da graduação em Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo e assinando textos para Exame, Diário do Comércio e Brasil Econômico. Hoje, está do outro lado da pauta: em vez de traduzir o universo da economia para os leitores, trabalha dentro dele, à frente de projetos de impacto socioambiental na Yunus - Negócios Sociais.

“Eu saí da reportagem, mas o jornalismo nunca saiu de mim. Seja no desenho de um novo negócio ou numa reportagem, tudo que faço gira em torno de construir boas relações, levantar conhecimento e convergir isso em algo transformador”, resume Bárbara. Desde 2020 na Yunus, construiu uma trajetória ascendente até assumir, em janeiro de 2025, a gerência de inovação socioambiental da organização na América Latina.

“Não passo 48 horas sem fazer uma entrevista. A economia de impacto é jovem e requer muita pesquisa. Estamos sempre lidando com problemas sistêmicos — educação, saúde, clima. São temas que exigem aprofundamento, e isso já fazia parte do meu dia a dia no jornalismo ‘raiz’. Converso ora com pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica para entender a realidade delas e desenhar soluções; ora com especialistas, produtores de conhecimento e lideranças corporativas”, conta.

O olhar crítico, a habilidade de fazer pesquisas aprofundadas e de cruzar informações, marcas do jornalismo, são agora direcionados para a criação de negócios que resolvam problemas sociais. “A Yunus é uma fomentadora da economia de impacto. Temos um fundo de investimento no modelo de capital paciente, com aportes para negócios sociais. Investimos em iniciativas que trazem a solução de problemas ambientais em seu cerne”, explica. “Em outra frente, prestamos serviços de consultoria para integrar grandes corporações à economia de impacto. De dentro da empresa, ajudo a modelar e criar estratégias para negócios sociais.”

Essa veia empreendedora sempre foi uma característica de Bárbara. Mas a decisão de sair das páginas dos jornais para atuar em projetos socioambientais no mundo corporativo tomou forma durante o mestrado em Madri, na Espanha Contemplada pelo Programa Jornalista de Visão em 2016, Bárbara cursou o Master in Digital and Visual Media na IE University.

Com a distância de dez anos, ela avalia a pós-graduação como um divisor de águas. “A IE me ajudou a construir uma visão de mundo em que sou protagonista da transformação que quero fazer. Me encontrei neste tipo de empreendedorismo em que acredito: que inova, está na fronteira do conhecimento, mas tem como objetivo melhorar as condições de vida das pessoas.”

 

O mestrado que redefiniu os planos de carreira

“A experiência do curso e de viver fora do Brasil foi uma virada de ponto de vista muito clara para mim”, lembra. Essa abertura de horizontes, a partir do contato com novas áreas de atuação e com estudantes de diferentes partes do mundo, é frequente nos relatos de bolsistas do Instituto Ling. Mas Bárbara também encontrou, durante o período em Madri, novas potencialidades dentro de si.

“O mestrado explodiu uma diversidade de caminhos, de possibilidades de atuação que eu poderia ter a partir do conhecimento que já tinha construído.” A descoberta não era exatamente o desejo de deixar o jornalismo, mas a percepção de quantas posições ela poderia ocupar com a bagagem acumulada com os estudos e a atuação profissional.

Dentro e fora das salas de aula, a troca com os professores e alunos da IE foi central para crescer pessoal e profissionalmente. “Aqui no Brasil, a gente sabe como as coisas funcionam. Quando se começa a trabalhar com colegas alemães, russos, você aprende a transitar de forma global – desde a forma de se posicionar até a maneira de se enxergar. Na minha turma, eram 34 nacionalidades diferentes”, relembra.

“Minha segurança como profissional saltou para outro lugar. Minha capacidade de entender minhas habilidades e fragilidades como profissional mudou. Tive um salto de amadurecimento muito grande, que não teria acontecido se eu estivesse no mercado de trabalho tradicional.”

As amizades nascidas na Espanha também renderam projetos inesperados. Bárbara e três colegas de curso – estudantes dos Estados Unidos, da Nigéria e da Alemanha – resolveram apostar em um projeto que, à primeira vista, parecia inusitado: uma série de ficção científica. “Como a ideia de série tinha muito a ver com o que estávamos aprendendo no campo da comunicação transmídia, resolvemos levar adiante.” Colocando os conhecimentos adquiridos no mestrado no IE em prática, o grupo fundou uma produtora audiovisual e gravou o episódio piloto da série, que foi premiado na Espanha e nos Estados Unidos.

Apesar de não ser o “plano A” para a carreira de Bárbara e dos colegas – a produtora foi encerrada em 2023 –, a experiência contribuiu para a ampliação de modos de pensar inaugurados no mestrado.

 

O retorno ao Brasil e a virada na carreira

Antes de embarcar para a Espanha, Bárbara atuava como repórter no Diário do Comércio. Com o diploma em mãos, decidiu passar cinco meses extras em Madri enquanto o marido concluía o próprio mestrado. “Aproveitei esse tempo para reorganizar as ideias.”

A veia empreendedora que já existia desde antes do mestrado começou a definir o rumo profissional. “Minha ideia quando parti era voltar e empreender na área do jornalismo. Mas voltei decidida a ir por outras ondas.”

Assim que retornou ao Brasil, em 2019, fundou a DoisPontoCinco, agência de comunicação voltada para sustentabilidade, ESG e negócios de impacto. Com o fim da parceria com a sócia um ano depois, seguiu à frente do negócio – aberto até hoje – na posição de sócia-fundadora. “A DoisPontoCinco cresceu muito na pandemia, começamos a trabalhar com clientes que abriram várias portas. Mas, com o tempo, fui sentindo necessidade de atuar mais diretamente com economia de impacto. Só a comunicação não estava me satisfazendo.”

Foi neste período que Bárbara começou a colaborar com a Yunus, como mentora de programas de aceleração. “Era algo pontual: eu era facilitadora, ensinava, dava aulas. Aos poucos, fui me aprofundando no setor e nunca mais saí dele”.

Em 2021, a Prefeitura de São Paulo a convidou para assumir a gerência do programa de inovação verde Green Sampa. Foi um mergulho profundo nos temas de sustentabilidade e inovação: do pensamento global desenvolvido durante o mestrado, partiu para um programa com foco local. “Sempre tive uma orientação voltada a negócios e, com esta oportunidade, aprendi também a fazer a parte da política relacionada ao poder público. Tive muito contato com a coordenação de projetos em nível paradiplomático, junto a embaixadas, consulados de diferentes países”, conta Bárbara.

Depois do Green Sampa, assumiu dois projetos de inovação na Yunus como Coordenadora de Estratégia. “Hoje estou como gerente de toda a parte de inovação, liderando uma equipe de sete pessoas. Conduzimos projetos de inovação na área de impacto socioambiental em parceria com corporações, governos e organismos supranacionais”, explica. “Atuamos de dentro para fora e de fora para dentro. Vamos tanto nas startups que estão na base e apoiamos elas financeiramente para poderem escalar, quanto nas grandes corporações, para integrá-las às necessidades socioambientais.”

 

De volta à academia

A mudança de olhar para a própria trajetória foi o que a levou a reencontrar o interesse pela atuação no meio acadêmico. Durante o mestrado, Bárbara percebeu que não precisava atuar em uma só função – na verdade, aprendeu que só tinha a crescer diversificando as frentes profissionais. Hoje, além do trabalho na Yunus, ela é professora de ESG e Sustentabilidade nas graduações da FIA Business School e cursa doutorado em Gestão Estratégica Socioambiental na mesma instituição.

“Estou caminhando para o terceiro ano dando aula na FIA. Está tudo conectado: ter estudado no IE certamente foi um elemento que me fez ser convidada para dar aula. Hoje, sou professora de sustentabilidade, ESG e impacto para as formações de Economia, Administração e Relações Internacionais”, explica. “Sempre gostei de fazer mais de uma coisa, mas foi no mestrado que percebi essa veia acadêmica que ainda não tinha notado. Demorei um tempo para recuperar a função de estudante, então comecei dando aulas e retornando para a academia com esse novo olhar.”

No futuro próximo, Bárbara se enxerga mantendo a atuação híbrida e diversa que fez parte de sua trajetória até agora – com um pé na academia e outro no empreendedorismo. “Não me vejo saindo da Yunus: entramos numa curva ascendente, ainda temos muito espaço de crescimento, e me enxergo como parte disso", conclui. Na academia, as curiosidades e inovações a desbravar são inúmeras, mas Bárbara destaca. “Dois temas em específico me atraem: as finanças de impacto e as cadeias de valor das grandes corporações. São áreas em que me vejo contribuindo por mais tempo.”

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