Isabel Barbosa: fortalecendo a governança da saúde pública em diversos pontos do mundo
A advogada Isabel Barbosa sonhava em encontrar, no mundo do direito, uma maneira de unir o interesse no setor público ao dinamismo do setor privado, sem deixar de lado sua vontade de pesquisar. Ao se distanciar dos caminhos profissionais tradicionais, ela enxergou no mestrado em direito no exterior uma porta para as oportunidades que desejava alcançar. Com apoio do Instituto Ling, completou em 2018 o LLM em Global Health Law na Universidade de Georgetown. Lá, conheceu o O'Neill Institute, onde hoje atua como diretora associada, ajudando a fortalecer a governança da saúde pública em diversos pontos do mundo.
Isabel sabia, desde o início da graduação em direito, que não trilharia um dos caminhos tradicionais da profissão. Embora elementos de diferentes áreas de atuação a interessassem, seu verdadeiro desejo era ter uma atuação integrada, em que pudesse aliar o trabalho com foco no interesse público ao dinamismo do setor privado, mantendo conexões com as áreas da pesquisa e do ensino. “Estudando direito no Brasil, muitas vezes há a sensação de que existem apenas três caminhos profissionais, muito rígidos: concursos públicos, escritórios de advocacia e academia", explica.
A solução surgiu a partir no mestrado em direito (LLM), realizado na Universidade de Georgetown. Em 2017, Isabel foi uma das bolsistas selecionadas pelo Instituto Ling para realizar o mestrado em Global Health Law e partiu para estudar em Washington. "Nos Estados Unidos, esses caminhos profissionais são menos rígidos: há muitas carreiras em torno de políticas públicas, o que me chamava a atenção. O LLM focava bem na interseção entre políticas públicas e direitos humanos, e isso foi um fator definidor para mim”, conta.
Nove anos depois, é na capital estadunidense que ela encontrou um lar e um propósito de trabalho. Atualmente diretora associada do O'Neill Institute, Isabel pôde realizar o sonho de aplicar o direito como propulsor de mudança – e é neste caminho, longe das rotas convencionais, que a advogada sonha seguir nos próximos anos.
Em busca do impacto aliado à teoria no mundo do direito
Quando se formou em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em 2015, Isabel já trazia na bagagem experiências que influenciariam sua escolha por cursar um mestrado na área do direito e saúde: "Durante a faculdade, fiz um estágio de um ano no Ministério Público Federal, onde apoiava uma equipe na área da tutela coletiva da saúde", conta a advogada. “Gostei muito da experiência, porque me mostrou como o direito poderia ter um impacto estrutural, assegurando que as políticas públicas contribuíssem para a materialização dos direitos humanos e alinhando gestores públicos, pesquisadores, a iniciativa privada, etc. Isso fez com que eu me interessasse cada vez mais pela área da saúde, e o LLM casava bem com esse desejo", lembra Isabel.
Depois de se formar, Isabel atuou na Corte Interamericana de Direitos Humanos, na Costa Rica. Um período posterior na Colômbia agregou conhecimentos da área de litígio estratégico na América Latina. Para ela, as experiências foram passos cruciais para construir a carreira com a qual ela sonhava.
“Conheci muitas maneiras de exercer o direito, com colegas que trabalhavam com temas incríveis das mais diferentes formas – organizações internacionais, sociedade civil, governo, academia", relata. A vivência no exterior também colocou em perspectiva os problemas que enfrentamos no Brasil: embora partilhemos semelhanças com os vizinhos latinos, o que proporciona uma possibilidade de aprender com eles, há uma especificidade nas questões propriamente brasileiras.
“Existe uma singularidade na nossa história, política e cultura que nos faz não uma fonte de problemas, mas um celeiro de soluções criativas, que podem ensinar muito ao mundo. Daí pra frente, sempre busquei esse componente internacional no meu trabalho", conclui.
Criando o próprio caminho profissional
Hoje, a rotina de trabalho de Isabel gira em torno da busca dessas soluções criativas e de impacto para questões multidisciplinares. Durante o mestrado, ela conheceu o O'Neill Institute, um think tank criado na Universidade de Georgetown para aplicar as ciências jurídicas a problemas complexos de saúde pública a nível global.
A partir da análise de leis e políticas públicas de saúde, bem como de processos judiciais, o O'Neill Institute busca colaborar com governos, organizações internacionais, experts e outros agentes. A instituição contribui para a elaboração e revisão de medidas regulatórias para garantir direitos humanos em saúde, em áreas que vão do controle do álcool, do tabaco e de alimentos ultraprocessados até ao manejo de epidemias.
Para Isabel, o LLM foi mais do que uma etapa acadêmica, mas um passo crucial para conhecer e adentrar o mundo profissional que ela habita hoje. “O LLM me abriu portas que eu nem sabia que existiam. Por causa dele, conheci o pessoal do O’Neill Institute e, através do O’Neill Institute, uma rede de organizações e pessoas incríveis que trabalham com políticas públicas em todo o mundo", resume.
Ainda durante o mestrado, a advogada entrou no O'Neill Institute como assistente de pesquisa. Com o diploma em mãos, seguiu atuando na instituição e galgou cargos de associada, associada sênior e, hoje, diretora associada.
O diferencial do trabalho, para Isabel, é justamente o dinamismo que ela tanto buscava em uma carreira jurídica. “Em um dia, eu faço um monte de coisas diferentes: faço reuniões com parceiros de vários países para discutir problemas de saúde a nível populacional de saúde, bem como soluções baseadas em evidências e estratégias para adotá-las e implementá-las; reuniões com os nossos financiadores para alinhar expectativas, e também com a nossa equipe para assegurar a execução dos projetos; trabalho em artigos ou outros materiais para publicar; dou aulas", conta.
A partir da atuação no O'Neill, Isabel teve inclusive a chance de voltar às salas de aula da Universidade de Georgetown – desta vez, como professora na faculdade de direito. Ela ministra dois cursos, um em cada semestre do ano.
“Ambos exploram doenças crônicas como câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e doenças pulmonares, grandes problemas de saúde pública de países como o Brasil; e analisam suas causas estruturais e potenciais soluções a partir do uso do direito”, explica. “Tem sido incrível interagir com alunos tanto dos EUA quanto de outras partes do mundo e aprofundar essas discussões”, conclui Isabel.
Mesmo baseada nos Estados Unidos, Isabel segue conectada com o Brasil a partir do trabalho. “Viajo com muita frequência para diferentes regiões, como América Latina e Caribe, África e Ásia, seja para me reunir com os nossos parceiros, seja para ministrar workshops e conferências.”
Portas abertas para o futuro
Para Isabel, os próximos passos do caminho profissional que ela construiu devem mantê-la em Washington – mas com a mente nos problemas globais de saúde, tendo em vista o diálogo com centros de pesquisa, organizações da sociedade civil e governos dos mais diversos pontos do globo.
“Planejo continuar apoiando o crescimento da minha equipe no O’Neill Institute, sempre pensando em como contribuir para que as grandes questões das políticas públicas de saúde sejam promotoras dos direitos humanos e baseadas em evidências”, conta.
Os capítulos mais recentes dessa jornada incluíram também novidades pessoais: em 2025, Isabel se tornou mãe de Emilio. “Voltarei da licença maternidade no mês que vem, então essas são cenas do próximo capítulo”, relata. Mas nesse caminho, os âmbitos pessoal e profissional se cruzam – de maneiras positivas.
“Tenho a sorte de ter chefes, e de ser parte de uma equipe, que abraça muito essa ideia da vida profissional conciliada com a maternidade e paternidade”, diz. Agora, a inauguração de uma nova fase da vida será acompanhada da inquietação com os problemas sociais que sempre moveu Isabel. “Imagino que esse equilíbrio sempre será desafiador, mas também permitirá ao meu filho crescer em um ambiente enriquecedor, em contato com muitos lugares, culturas e línguas, e com uma preocupação social que sempre considerei importante”, conclui.
27.02.26