Rafa Mazza: da engenharia agronômica ao MBA em Harvard

Criada entre os bichos e a terra do sítio do avô, Rafaella Mazza escolheu Engenharia Agronômica, na USP. De lá, passou por multinacionais, start-ups e um curso do MIT antes de descobrir o MBA — um destino incomum para quem trabalha com o campo. Com bolsa do Instituto Ling, saiu do Brasil para estudar na Harvard Business School. Hoje, vive em Miami e trabalha na Rumin8, start-up criando soluções para reduzir emissões de metano na pecuária.

Rafa Mazza: da engenharia agronômica ao MBA em Harvard

As experiências da infância vivida no sítio do avô, no interior de São Paulo, apontaram a direção que Rafaella Mazza seguiria na vida profissional. Mas ela teve de construir seu próprio mapa ao longo da trajetória. Formada em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo (USP), Rafa decidiu investir em um caminho pouco comum entre os agrônomos: cursar um MBA nos Estados Unidos.

“Eu nunca tinha pensado em MBA, nem sabia o que era, porque é zero comum na agronomia”, explica. A dica para apostar na pós-graduação no exterior veio de uma colega de Rafaella na Rizoma, start-up de agricultura regenerativa onde ela trabalhava na época. “Eu fui a primeira pessoa a fazer faculdade na minha família, então ninguém sabia exatamente o caminho que eu estava trilhando, eu fui descobrindo.

” Em 2021, com apoio do Instituto Ling, da Fundação Estudar e da Brazilian-American Chamber of Commerce, ela deixou o Brasil para estudar na tradicional Harvard Business School. “Meus colegas da agronomia foram trabalhar como vendedores de insumos, pesquisadores. Ficaram mais próximos do campo. Poucos foram para o mundo dos negócios”, conta Rafaella.

Com a bagagem do MBA, Rafa pensava que o futuro era trabalhar com consultoria financeira. Mas os estudos a levaram a outro ponto. Hoje ela vive em Miami e trabalha na Rumin8, uma start-up desenvolvendo soluções para reduzir a pegada de carbono na cadeia de produção de ruminantes.

“O MBA teve um impacto binário e expansivo na minha vida”, resume. “O binário é no sentido de que, hoje, consigo ver que determinadas portas existem e tenho pessoas para me ajudar a passar por elas. Eu jamais chegaria perto dessas oportunidades se não fosse pelo MBA. Minha vida seria outra”, explica.

A expansão das ambições foi outro impacto central do MBA para Rafa. “Eu achava que poderia ter um emprego legal e sempre fui muito esforçada, mas não tinha visão para criar uma ambição mais tangível. Meu interesse continua sendo o agronegócio, a sustentabilidade e o Brasil, mas se expandiu para uma escala de impacto global e com foco em mudanças climáticas. Hoje posso ser e fazer muito mais do que achava que poderia”, conclui.

 

Entre os números e o campo

Na hora de decidir por um curso de graduação, as vivências no sítio do avô foram o principal norte de Rafaella. Mas a decisão veio só depois de conversar com profissionais de diferentes áreas. O que ela sabia, desde cedo, era o endereço dos estudos: a USP. “Desde pequena, sabia que queria estudar na USP. Eu tinha interesse por números, por análises. Pensava que seria veterinária, por lidar com os bichos do sítio, mas depois de visitar alguns campi percebi que queria ser engenheira. Então, fiquei entre engenharia agronômica na ESALQ e engenharia ambiental na POLI”, relembra.

A conversa com especialistas direcionou os interesses: a engenharia agronômica reunia as análises e o trabalho com indicadores à experiência prática no campo. Então, Rafa deixou a casa dos pais em São Paulo para estudar no campus de Piracicaba da USP. “Apesar de não ser longe, foi um desses passos da vida em que uma intuição fala que ‘você tem que ir’. Só senti isso de novo quando me mudei para os Estados Unidos.”

Durante a faculdade, Rafa se permitiu explorar as diferentes rotas oferecidas pelo curso. Considerou seguir na pesquisa de ciências do solo e mineralogia (rochagem), na jardinagem e paisagismo, com trabalhos voluntários e até na docência. “Eu tinha todas essas hipóteses, e a melhor parte da faculdade é poder experimentar. Vivi dez vidas em uma”, conta.

 

De diploma em diploma, traçando um caminho próprio

Ainda na graduação, Rafa teve sua primeira experiência internacional: um Summer School sobre bioeconomia na Universidade de Hohenheim, na Alemanha.

O direcionamento para o mundo dos negócios vinha sendo construído pouco a pouco: começou com um estágio de fim de curso na Monsanto, o próprio intercâmbio e o primeiro emprego em tempo integral, com consultoria financeira na EY.

“Na EY, fui treinada para trabalhar com modelos financeiros, lidar com o cliente. Foi uma outra escola. Mas ali percebi que ainda me faltava a formação em negócios e uma vontade de trabalhar com inovação”, lembra. Um curso de uma semana do MIT em Liderança de Novos Negócios chamou a atenção. “Foi o que abriu minha cabeça para o mundo das start-ups.”

Ali começou a ideia de investir na aliança entre agricultura sustentável e business. “Quando recebi o certificado do curso, com papel de diploma e a capa do MIT, eu chorava tanto. Era uma sensação de orgulho e agradecimento porque paguei pelo curso com minha parte da herança da venda do sítio do meu avô, que já havia falecido”, lembra Rafa.

A inserção em uma start-up veio logo em seguida e de um acaso: no LinkedIn, ela se conectou com o líder da Rizoma – e logo foi chamada para trabalhar com eles. “Foi a minha primeira experiência num lugar mais empreendedor, onde fazíamos coisas inovadoras para agricultura regenerativa com gente apaixonada pela missão.”

A curiosidade em cursar um MBA no exterior apareceu com o conselho de uma amiga da Rizoma. Com a chegada da pandemia de covid-19, em 2020, Rafaella começou a refletir sobre os próximos passos na sua trajetória profissional. A resposta veio no retorno às salas de aula. Ela teve apenas dois meses para se preparar para as provas e elaborar as redações para as universidades americanas em tempo para o deadline das próximas turmas. O resultado: a aprovação para o MBA em Harvard.

“Na época, eu não contei para ninguém da minha família que estava aplicando. Concordo muito com algo que a Tamara Klink, a velejadora, diz em um dos livros dela: os sonhos têm raízes, é difícil matar um sonho; mas os planos podem morrer em um segundo. E a opinião de quem a gente ama importa muito. Eu sabia que meus pais teriam medo, por ser algo desconhecido”, explica Rafaella.

A perspectiva de ir estudar em Harvard se tornou mais concreta conforme Rafa se tornou bolsista do Instituto Ling, da Fundação Estudar e da Brazilian-American Chamber of Commerce. “Eu pensava: ‘eu preciso fazer isso acontecer e existem pessoas com a capacidade de me ajudar, então vou entender como funciona e fazer o meu melhor’. Naquele momento, eu ainda não entendia que o maior valor ia ser participar dessas redes”.

Aquela mesma emoção de ler o nome gravado no diploma do curso do MIT retornou quando ela recebeu em mãos o cartão de estudante de Harvard e, anos depois, o convite para as reuniões dos bolsistas do Instituto Ling.

“A combinação, para brasileiros, de uma faculdade muito legal e participar de programas como o do Instituto Ling nos proporciona um acesso ao quadrado: eu sei que posso ligar para alguém da rede e ter uma ajuda, um conselho.”

 

Um novo começo na Rumin8

A oportunidade para ingressar na Rumin8, onde hoje Rafaella desempenha o cargo de Senior Manager, Carbon Market Strategy, surgiu a partir da rede de contatos tecida ao longo da jornada universitária e profissional. “Depois do MBA, comecei a mandar mensagens para pessoas com quem eu já tinha trabalhado. O board member de uma empresa onde trabalhei nos Estados Unidos me indicou outra pessoa, a Mara, que conhecia a Rumin8”, conta. “Eles não tinham uma vaga naquele momento, mas continuamos conversando e me fizeram uma oferta de trabalho remoto na semana que me formei em HBS”.

O trabalho reúne as faces de pesquisa, inovação, sustentabilidade, modelagem financeira e estratégia de negócios na agricultura que tanto interessam Rafaella em seus estudos. A empresa recentemente fez um projeto no Brasil, justamente na ESALQ, onde Rafa estudou.

 

Uma ponte entre campo e negócios, entre o Brasil e o exterior

No tempo livre, Rafa tem explorado como ferramentas de Inteligência Artificial (IA) podem ajudar na agricultura, nos desafios do dia a dia do produtor rural.

A otimização da produção agrícola, com vistas à sustentabilidade e à mitigação das mudanças climáticas, a partir do trabalho na Rumin8, é a forma que ela encontrou para contribuir. “Sinto que hoje sou uma ponte entre os Estados Unidos e o Brasil, e Austrália.", conta.

Para ela, o MBA abriu um caminho sem precedentes. Agora, o destino é explorar uma trajetória autêntica. “Eu tenho uma oportunidade que ninguém da minha família teve antes. Sou muito grata, mas não é fácil passar por um caminho que não tem mapa, porque ninguém próximo de você passou por aquilo”, conta Rafa.

 

29.05.2026

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