Da literatura infantil ao simbolismo: conheça a trajetória de Cecília Meireles Foto: Divulgação

Da literatura infantil ao simbolismo: conheça a trajetória de Cecília Meireles

BIOGRAFIA

 

Motivo

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

 

Poema do livro Viagem. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

 

Em 7 de novembro de 1901, nasceu, no Rio de Janeiro, aquela que se tornaria uma das vozes líricas mais importantes da literatura brasileira e que, além de poeta, também era ensaísta, jornalista, tradutora, folclorista, professora e até pintora: Cecília Benevides de Carvalho Meireles, um verdadeiro orgulho nacional!

Órfã de pai mesmo antes de nascer, Cecília Meireles perdeu a mãe antes dos três anos de idade. Foi criada pela avó materna, Jacintha Garcia Benevides, natural da Ilha dos Açores, de quem herdou o interesse pela cultura portuguesa, indiana e por todo o Oriente. Segundo a poeta, essas perdas acabaram dando a ela uma certa intimidade com a morte e, por isso, desde muito pequena, aprendeu as relações entre o Efêmero e o Eterno — marca importante da sua escrita.

Frequentou a Escola Normal e se formou professora, em 1917 — parte significativa da vida de Cecília, que sempre acreditou na democratização do ensino. Por este motivo, trabalhou no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, de 1930 a 1933, escrevendo todos os dias sobre educação. Foi a responsável pela criação da primeira biblioteca infantil do país, em 1934, no Centro Cultural Infantil do Pavilhão Mourisco, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro! Um ano depois, foi convidada a lecionar Literatura Luso-brasileira e, logo após, Técnica e Crítica Literária na Universidade do Distrito Federal (Rio de Janeiro), onde trabalhou até 1938. Também lecionou Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Com apenas 18 anos, em 1919, publica Espectros, seu primeiro livro de poemas. Nessa época, esteve ligada à revista Festa, formada pelo grupo de escritores com Andrade Muricy, Adelino Magalhães, Tasso da Silveira e Murillo Araújo, que faziam parte de uma corrente carioca do Modernismo brasileiro, também conhecida como “espiritualista”. Essa corrente caminhava longe dos passos do movimento modernista de São Paulo — que buscava a afirmação de uma identidade nacional e inovações formais — e introduziu, no fazer artístico, um diálogo com o pensamento filosófico, além do desejo por uma arte mais universalista.

 

Foto: Cecília Meireles.

Em 1922, se casou com Fernando Correia Dias — artista plástico luso-brasileiro responsável por introduzir uma nova visão no Modernismo Português. Com ele, teve três filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda, esta última atriz consagrada e que apareceu em novelas como Gabriela, Pai Herói e Dona Beija. Com o falecimento precoce de Correia Dias, em 1935, Cecília acabou casando-se novamente, em 1940, com Heitor Vinicius da Silveira Grilo, que era professor e engenheiro agrônomo.

No início dos anos 1920, publica os livros Nunca mais… e poema dos poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925). Na mesma época, escreve os poemas do livro Cânticos, que só seria publicado em 1981. Em 1938, publica Viagem no Brasil e, um ano depois, em Portugal. Com ele ganha o prêmio de poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (ABL). Logo em seguida, outros livros de poesia consagram, em definitivo, a carreira de Cecília como escritora, sendo os mais destacados: Vaga música (1942), Mar absoluto e outros poemas (1945), Retrato natural (1947), Amor em Leonoreta (1951), Doze noturnos da Holanda e O aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Canções (1956), Metal rosicler (1960), Poemas escritos na Índia (1962) e Solombra (1963).

Em 1964, Cecília Meireles inaugurou uma nova fase na literatura infantil brasileira ao lançar uma coletânea de poemas para crianças, chamada de Ou Isto Ou Aquilo. Rainha dos livros didáticos até hoje, quem não lembra dos seus poemas na voz do Gato Pintado no extinto programa da TVE, Castelo Rá-Tim-Bum? Se não lembra, dá uma olhada aqui.

Além da literatura, Cecília amava viajar! Especialmente para os dois países que a encantaram desde pequenina: Portugal e Índia. O livro Poemas escritos na Índia é fruto de uma viagem que fez ao país em 1953, em que ela fala sobre a simplicidade do povo indiano e sua comunhão com a natureza.

 

“Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.”

 

Trecho da última entrevista da poeta, ao jornalista Pedro Bloch, em 1964.

 

Em 9 de novembro de 1964, aos 63 anos, faleceu em sua cidade natal, vítima de um câncer de estômago. Um ano depois, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto de sua obra.

 

 

 

A OBRA

 

Ou isto ou aquilo

 

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão ,

Quem fica no chão não sobe nos ares.

 

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo em dois lugares!

 

Ou guardo dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e não guardo o dinheiro.

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

 

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Poema do livro Ou isto ou aquilo, 1964. Disponível aqui.

 

A obra de Cecília é situada no que se chama de segunda fase do Modernismo — momento de ouro para a poesia brasileira, que tinha nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes na ativa. Ao contrário dos modernistas de São Paulo da geração de 22, não há mais uma necessidade de chocar o público e a crítica, mas sim de criar uma obra mais madura, que leve adiante a liberdade de expressão, as questões universais da humanidade e os problemas do mundo capitalista. Há reflexões filosóficas e existenciais e também sobre o próprio processo poético.

 

“…Liberdade, essa palavra

que o sonho humano alimenta

que não há ninguém que explique

e ninguém que não entenda…”

 

Trecho de “Romanceiro da Inconfidência”, 1953.

Cecília Meireles é a primeira mulher a ser considerada uma grande escritora da literatura brasileira. Sua obra é marcada pela riqueza da linguagem que explora símbolos e imagens. Ao contrário do coloquialismo celebrado por seus contemporâneos, Cecília prefere usar as palavras como se fazia na tradição lírica do passado — uma linguagem mais requintada. Sua poesia, repleta de sonoridade, faz com que o leitor perceba o mundo de maneira sinestésica.

Essa talvez seja uma prova da influência dos poetas simbolistas que tanto admirava: Cruz e Souza e Alphonsus de Guimaraens. Suas palavras, assim como as de seus mestres, “mais sugerem do que descrevem”. Embora não estivesse filiada a nenhum movimento literário, suas obras iniciais, como Espectros, Nunca mais... e poemas dos poemas e Baladas para El-Rei, evidenciam o gosto pelo Simbolismo.

Sua temática também revela a admiração pelas estéticas tradicionais, especialmente a simbolista. Entre seus temas mais recorrentes estão: a efemeridade do tempo, a transitoriedade da vida, a natureza, o ato da criação poética, a melancolia, a dor existencial, e as noções de perda amorosa, abandono e solidão.

É sua experiência do vazio — a impossibilidade de comunicar-se com o mundo ao redor — que a faz moderna, já que é a modernidade que percebe o absurdo da existência e a falta de sentido da vida.

 

“A poesia de Cecília Meireles, embora pertencendo a nós e ao nosso mundo, é uma poesia de perfeição intemporal.”

Crítico Otto Maria Carpeaux em Curso de Literatura Brasileira de Sergius Gonzaga

 

 

CURIOSIDADES

Você sabia que Cecília é a única escritora a ser homenageada numa cédula nacional? Seu rosto estampou as notas de 100 cruzados novos, que circularam entre 1989 e 1992. É possível ver a nota aqui.

Poliglota! Cecília adorava estudar vários idiomas: ela traduziu do inglês, do francês, mas também conhecia o hindi, o hebraico e até o russo!

Em 1938, ganhou o Prêmio Olavo Bilac de poesia, da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo livro Viagem. Artista premiada e consagrada que só, a parte curiosa fica por conta da premiação ter causado polêmica à época, já que era a primeira vez que o prêmio era concedido a uma mulher e artista de corrente inovadora.

Você sabia que Cecília também era tradutora? Foi através dela que conhecemos obras de escritores consagrados como Charles Dickens, Virginia Woolf e Federico Garcia Lorca!

 

DICAS DO LING

Confira a última entrevista concedida por Cecília Meireles, para o jornalista Pedro Bloch, em 1964. Leia aqui

Ficou com vontade de ler mais? Separamos alguns títulos essenciais na obra de Meireles:

Romanceiro da Inconfidência | Ou Isto ou Aquilo | Solombra

Já ouviu o poema Motivo, de Cecília Meireles, musicado e cantado por Fagner? Confira aqui.

Ficou com vontade de saber mais sobre a Cecília educadora? Confira a conferência ministrada por Laura Sandroni, em 2014, sobre este lado da poeta, na Academia Brasileira de Letras. Disponível aqui.

 

REFERÊNCIAS

Gonzaga, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Leitura XXI, 2004.

Texto de Elfi Kürten Fenske. Disponível aqui.

Texto de André Luiz Alves Caldas Amóra e Tatiana Alves Soares Caldas. Disponível aqui.

Conferência ministrada por Laura Sandroni para a Academia Brasileira de Letras. Disponível aqui.

Aula de Helissa Soares sobre Cecília Meireles para o canal Brasil Escola. Disponível aqui.

Poemas de Cecília Meireles na Revista Prosa, Verso e Arte. Disponível aqui.