Entre fases e história, a trajetória poética de Ferreira Gullar Foto: divulgação

Entre fases e história, a trajetória poética de Ferreira Gullar

Poema

“Se morro

universo se apaga como se apagam

as coisas deste quarto

                                   se apago a lâmpada:

os sapatos - da - ásia, as camisas

e guerras na cadeira, o paletó -

dos - andes,

            bilhões de quatrilhões de seres

e de sóis

            morrem comigo.

Ou não:

            o sol voltará a marcar

            este mesmo ponto do assoalho

            onde esteve meu pé;

                                   deste quarto

            ouvirás o barulho dos ônibus na rua;

            uma nova cidade

            surgirá de dentro desta

            como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens

a mesma história que eu leio, comovido.”



BIOGRAFIA

Em 10 de setembro de 1930 nascia, em São Luís do Maranhão, José de Ribamar Ferreira. Com o pseudônimo de Ferreira Gullar, se tornaria um dos nomes mais relevantes da literatura brasileira do século 20, por seu trabalho como escritor, poeta, crítico de arte, tradutor, memorialista, teatrólogo e ensaísta.

Durante a adolescência despertou seu interesse pela poesia, largando as brincadeiras na rua para dedicar-se à leitura. Aos 18 anos, já trabalhava como redator no jornal Diário de São Luís e finalizava seu primeiro livro, Um pouco acima do chão (1949), lançado com apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias. Ainda no final dos anos 1940, trabalhou como radialista na Rádio Timbira e como colaborador do caderno literário do Diário de São Luís. Em 1950, venceu o concurso literário do Jornal de Letras, com o poema O galo. No ano seguinte, se mudou para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como redator da Revista do Instituto de Aposentadoria e Pensão do Comércio, e pouco tempo depois, passaria a fazer parte da equipe da revista O Cruzeiro, como revisor.

Em 1953, se casa com a atriz Thereza de Aragão, com quem teve três filhos e permaneceram juntos até 1994. Além de seu casamento, o ano de 1953 foi marcado pelo lançamento de seu livro A luta corporal e pelo seu começo como redator na revista Manchete. No período que viveu no Rio de Janeiro, também trabalhou para o Diário Carioca e para o Jornal do Brasil.

Nos anos 1960, Ferreira Gullar dirigiu a Fundação Cultural de Brasília e foi responsável pela criação do Museu de Arte Popular. Além disso, trabalhou no jornal O Estado de São Paulo e se tornou presidente do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/ UNE).

Exilado desde 1971, após ser preso pela ditadura militar com outros artistas e músicos, como Caetano e Gil, ele vai retornar ao Brasil em 1977. A partir daí, passa a trabalhar como roteirista de televisão para a Rede Globo, onde trabalhou por 20 anos e viria a escrever, em parceria com Dias Gomes, os roteiros de Araponga (1990) e As Noivas de Copacabana (1992). Entre 1992 e 1995, atuou como diretor da Funarte.

Ferreira Gullar faleceu em 2016, aos 86 anos.

 

 

OBRA

A vida e a obra de Ferreira Gullar, assim como as de muitos artistas, refletem o engajamento político e social do contexto histórico em que viveu. A trajetória literária do poeta se mescla com a do homem que — na busca por melhores condições de vida e de liberdade para o povo brasileiro — foi perseguido, preso, torturado e exilado pela ditadura militar.

Mas antes de chegar no que seria seu período maduro e mais conhecido, Gullar passou por uma fase de inspiração parnasiana, que lhe rendeu seu primeiro livro, Um pouco acima do chão (1949), em que as rimas constantes e a métrica rigorosa eram as principais características. Poucos anos depois, ao ler Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, descobriu a poesia moderna e ficou tão encantado que adotou uma poética completamente radical a de seu primeiro livro. Aderindo a uma poesia experimental, sem qualquer compromisso com o rigor e com a norma, lança A luta corporal (1954). A publicação deste livro chamou a atenção do poeta Augusto de Campos, que o convidou a participar do movimento da poesia concreta.

Seu envolvimento no movimento concreto foi curto, pois logo se juntou a um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto. Com um manifesto escrito pelo poeta e com o texto Teoria do não-objeto, Ferreira Gullar entraria para a história da arte brasileira. A partir da teoria do não-objeto, artistas como Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica revolucionaram a maneira de se pensar e fazer arte no Brasil. Gullar ainda explorou os limites da expressão poética ao criar o livro-poema, o poema espacial e, por fim, o poema enterrado. Este consistia numa instalação poética em que o visitante deveria entrar numa sala no subsolo, depois de descer uma escada, e se deparar com três cubos no centro: vermelho, verde e branco. O visitante “penetra” no poema e vai retirando um cubo de dentro do outro até encontrar, enterrada, a palavra que faz parte do poema: “rejuvenesça”. Hélio Oiticica viu o projeto, publicado à época no Jornal do Brasil, e ofereceu a casa de seu pai, na Gávea. Foi “o primeiro poema com endereço da literatura mundial”, mas acabou destruído por uma chuva forte antes mesmo de ser visto pelo público.

No início dos anos 1960, Gullar se interessa pela ideologia marxista e entra para o Centro Popular de Cultura, o que marca uma nova fase poética, em que ele se envolve mais com romances de cordel do que com poesia. Sua entrada no Partido Comunista inaugura uma poética mais voltada à política e sua participação na luta contra a ditadura militar instaurada depois do Golpe de 1964. O poeta foi processado e preso na Vila Militar, tendo que viver na clandestinidade até conseguir exílio. Viveu em Moscou, Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires.

 

“(...)

O ônibus sacoleja.

Adeus, Rimbaud,

relógio de lilases,

concretismo,

neoconcretismo,

ficções da juventude,

adeus, que a vida

eu compro à vista

aos donos do mundo.

Ao peso dos impostos,

o verso sufoca,

a poesia agora

responde a inquérito

policial-militar.

 

Digo adeus à ilusão

mas não ao mundo.

Mas não à vida,

meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação,

da tortura, do horror,

retiramos algo e com ele

construímos um artefato

um poema

uma bandeira”

 

trecho do poema Agosto 1964.

 

É neste período conturbado que escreve sua obra-prima: Poema Sujo, um longo poema de quase cem páginas, em que faz uma síntese de suas crenças e de toda sua poética, numa espécie de depoimento final. É importante salientar que o governo brasileiro tinha autorização para capturar presos políticos na Argentina e o poeta temia pela própria vida. Vinícius de Moraes grava o poema em voz alta e seus versos chegam ao Brasil também pela editora Civilização Brasileira. O impacto causado pela publicação do poema faz com que ele volte ao Brasil, em 1977, quando é preso e torturado. Graças à pressão internacional, é solto e volta a trabalhar na imprensa do Rio de Janeiro e, mais tarde, vira roteirista de televisão.

Em 1980, publica Na vertigem do dia eToda poesia, livro que reuniu toda a sua produção poética até aquele momento. Volta a escrever sobre arte na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro e chega a publicar dois livros sobre o assunto: Etapas da arte contemporânea (1985) e Argumentação contra a morte da arte (1993).

Foto: Divulgação.

Gullar também se aventurou no teatro! Ele e um grupo de jovens atores e dramaturgos fundaram o teatro Opinião, que teve papel significativo na resistência ao regime autoritário. Escreveu as peças Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e A Saída? Onde fica a saída?, em parceria com Oduvaldo Viana Filho, e Um rubi no umbigo, no período em que viveu exilado.

Apesar de ser celebrado em diversos formatos e artes diferentes, Ferreira Gullar sempre disse que a poesia era sua atividade primordial. Publica ainda Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999), livro que recebeu os principais prêmios de literatura no ano de seu lançamento. Em 2002, foi indicado ao prêmio literário mais importante do mundo: o Nobel de Literatura. Ganhou diversos prêmios ao longo da carreira, incluindo, 2 Jabutis, o Prêmio Machado de Assis — o principal prêmio literário do país, concedido pela Academia Brasileira de Letras — e o Prêmio Camões — concedido pelos governos do Brasil e de Portugal, considerado o prêmio mais prestigioso em língua portuguesa.

 

A poesia é a companheira da vida toda, mas uma companheira que só aparece quando quer e não quando você deseja. Não obstante, é quando a encontro que me encontro, que me descubro e me desconheço. Na verdade, ao fazê-la me invento e reinvento o mundo, a vida.

Ferreira Gullar

 

PREMIAÇÕES

1950 - Vence o concurso literário do Jornal de Letras com o poema O Galo

1966 - Prêmio Molière e Prêmio Saci, pela peça de teatro Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

2005 - Prêmio Machado de Assis (ABL), pelo conjunto de sua obra

2007 - Prêmio Jabuti na categoria Livro do Ano Ficção, por Resmungos

2010 - Prêmio Camões, pelo conjunto da obra

2011 - Prêmio Jabuti na categoria Livro do Ano Ficção, por Em alguma parte; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil, por Zoologia Bizarra

 

CURIOSIDADES

Você sabia que Ferreira Gullar é um Imortal da Academia Brasileira de Letras? A partir de 2014, dois anos antes de sua morte, ele ocupou a cadeira número 37, que tem como patrono o poeta e inconfidente mineiro Tomás Antônio Gonzaga.

Ficou com vontade de saber um pouco mais sobre a Teoria do não-objeto e o movimento neoconcreto? Escrevemos sobre ele aqui e você pode assistir o Conversas sobre Arte especial sobre o Neoconcretismo no YouTube.

Você sabia que a letra de Trenzinho Caipira foi escrita por Ferreira Gullar? O poema foi musicado pelo maestro Heitor Villa-Lobos e integra a peça Bachianas Brasileiras nº2. Ouça aqui!

 

DICAS DO LING

Ficou com vontade de ler mais? Separamos alguns títulos essenciais na obra de Gullar:

Poema Sujo | Muitas Vozes | Na vertigem do dia | Dentro da noite veloz | A luta corporal

Escute o episódio do podcast Efemérides Acadêmicas dedicado a Ferreira Gullar! Uma realização da Academia Brasileira de Letras em homenagem aos 90 anos do escritor! Disponível aqui.

Quer conhecer mais sobre a vida e obra de Gullar? Assista ao documentário Ferreira Gullar – Arqueologia do Poeta (2019), de Silvio Tendler. O filme traz depoimentos de pessoas próximas ao trabalho do escritor e leituras de seus poemas mais aclamados. Disponível aqui.

Já ouviu o poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, cantado por Adriana Calcanhotto? Confira aqui!

 

REFERÊNCIAS

Tese de doutorado de Rosane Pires Batista com o título Ferreira Gullar: memórias do exílio. Disponível aqui.

Biografia na página da Academia Brasileira de Letras. Disponível aqui.

Artigo escrito por Rebeca Fuks. Disponível aqui.

Artigo escrito por Claudia Albuquerque Verardi. Disponível aqui.