O Neoconcretismo e a ruptura com a arte tradicional Foto: Unsplash

O Neoconcretismo e a ruptura com a arte tradicional


Imagem: Poema Mar Azul, de Ferreira Gullar.

 

CONTEXTO

O ano de 1951 é um dos grandes marcos na história da arte brasileira e também um dos responsáveis por consolidar São Paulo como capital moderna do país e centro artístico mundial. Inspirada pelos moldes europeus da Bienal de Veneza, nasceu a 1ª Bienal de São Paulo. Entre Pablos Picassos, Anitas Malfattis, Renés Magrittes, estava ele: Max Bill e sua Unidade Tripartida. Também estava o jovem Ivan Serpa que iniciava sua “busca construtiva pela abstração geométrica e pela organização matemática de suas telas” (Museu AfroBrasil). O primeiro Aparelho Cinecromático, de Abraham Palatnik, também fez sua estreia na Bienal.

É a partir de Max Bill, fundador da Escola Superior da Forma de Ulm, que o que entendemos como arte concreta surge: uma arte que é ligada a questões matemáticas, que foge da representação da natureza e que é uma “concreção de uma ideia”. Uma arte que pode ser observada, controlada e verificada; uma busca pela excelência da forma para definir o que é belo. E isso inspira artistas paulistas a criar o Grupo Ruptura cujas obras dispensam significados líricos ou simbólicos, ou seja, o quadro não tem significado além dele próprio e seus elementos plásticos (planos e cores). O grupo rompe com o naturalismo da arte do século 20.

Mas esse excesso de racionalidade gera uma inquietação em um outro grupo de artistas, estes do Rio de Janeiro: o Grupo Frente.

 

“Esse negócio de Neoconcreto surgiu por causa de Max Bill, que fez uma conferência e os paulistas aceitaram sem discutir o problema concreto. No Rio de Janeiro nós protestamos, pois acreditamos que arte é fundamentalmente emoção. A arte sem emoção é precária. Max Bill queria uma coisa tão fabulosamente pura, sem emoção. A Unidade Tripartida, aquela escultura de Max Bill, tem esse propósito. Tudo bem, tudo certo, mas a arte para nós do Rio era mais do que isso. A arte não tem essa coisa definida, noções definidas e absolutas, mas varia em cada momento e pode ser mil coisas”

Depoimento de Amílcar de Castro

 

É importante ressaltar o convívio dos artistas cariocas com a Dr. Nise da Silveira, médica psiquiatra que revolucionou o tratamento de pacientes com distúrbios mentais graves. Os ateliês de pintura e escultura do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira) corroboraram com as ideias do crítico de arte Mário Pedrosa, que acreditava que a criação artística não se dava apenas racionalmente, mas estava relacionada à intuição, à imaginação e à sensibilidade.

Segundo Ferreira Gullar, poeta e um dos grandes nomes do movimento neoconcreto, a principal diferença entre os grupos é que no grupo carioca predominava uma busca intuitiva, “sem romper com o rigor construtivo” da arte concreta. A constante troca de ideias e experiências entre os neoconcretos fez com que estes artistas continuassem “uma linha de experiência estética que começou no cubismo”: a desintegração da linguagem artística. Com seus Bichos, Lygia Clark chegou a um trabalho que não tinha como classificar: não era pintura, não era escultura ou relevo. Era um objeto que não tinha função, apenas significação, e que exigia que o público o manuseasse. E é inspirado nesta obra que Gullar chega à teoria do não-objeto.

A partir daí, as investigações dos neoconcretos se desprenderam cada vez mais dos suportes tradicionais e suas obras começaram a explorar o espaço expositivo de novas maneiras, por vezes saindo do museu e/ou convidando o espectador a participar ativamente do trabalho, não mais como um mero observador e sim como co-autor/ativador da obra de arte.

 

 

PRINCIPAIS ARTISTAS

Escolhemos alguns artistas e obras fundamentais do neoconcretismo para que você fique com gostinho de quero mais! Para visualizar as obras, basta clicar nos nomes sublinhados.

 

Abraham Palatnik (1928-2020)

 

Amílcar de Castro (1920-2002)

 

Franz Weissmann (1911-2005) 

 

Hélio Oiticica (1937-1980)

 | B 04 Bólide caixa 04, “Romeu e Julieta”, 1963, Coleção César e Claudio Oiticica, Rio de Janeiro

P03 Parangolé tenda 01, 1964

 

Lygia Clark (1920-1988)

 

Lygia Pape (1927-2004)

 

Willys de Castro (1926-1988)

 

 

PARA ENTRAR NO CLIMA

Você sabia que a identidade visual da marca de biscoitos (ou bolachas, pra não dar briga!) Piraquê foi desenvolvido pela artista Lygia Pape? Ela também inventou um novo jeito de empacotar os biscoitos, que é usado até hoje! Antes, os biscoitos eram guardados em caixas ou latas e, porque a Lygia desenvolveu um método de cortar e colar o papel de embalo, os biscoitos Maria, Maisena e Cream Crackers passaram a ser empilhados verticalmente, criando o formato de sólidos espaciais (cilindro, paralelepípedo e ovóide). Para saber mais: clique aqui e aqui.

O primeiro Aparelho Cinecromático de Abraham Palatnik quase ficou de fora da Primeira Bienal de São Paulo, mas acabou ganhando menção honrosa do júri internacional. A obra, um dos marcos da arte cinética no mundo, não podia ser encaixada nem como pintura, nem como escultura, porque, de fato, não era nem um, nem outro justamente por expandir o termo “escultura” e o aproximar da pintura. O crítico de arte Mário Pedrosa chamava a obra de “pintura com luz”. Para saber mais: aqui e aqui.

Conheça mais sobre as incríveis Lygias da arte brasileira na série 50 Fatos, realizada pela youtuber Vivi Villanova em seu canal no YouTube (vivieuvi) dedicado à história da arte! Confira aqui mais sobre a vida e obra de  Clark e Pape.

Hélio Oiticica é um dos artistas brasileiros mais aclamados dentro e fora do Brasil e não é a toa, né? Inúmeras exposições, livros e catálogos, obras espalhadas nos museus mais importantes do mundo mostram que sua obra permanece atualíssima. É o caso da Hélio Oiticica: a dança na minha experiência, em cartaz no MASP (por enquanto, a exposição está acontecendo apenas virtualmente). Para saber mais, veja aqui!

Assista ao vídeo do poeta Ferreira Gullar, um dos principais nomes do Neoconcretismo, explicando o que foi o movimento. Veja no YouTube!

Que tal ouvir Amilcar de Castro contando um pouco sobre seu processo criativo? Assista ao curta documental realizado, em 2003, por João Vargas Penna. Disponível no Porta Curtas.

Ficou com vontade de saber mais sobre o Manifesto Neoconcreto? Leia o texto na íntegra aqui.

Quer aprofundar um pouco mais seus conhecimentos sobre o período? Recomendamos o livro Escritos de Artistas: anos 60/70, organizado pela crítica de arte Glória Ferreira. Para comprar, clique aqui.

 

REFERÊNCIAS

1ª Bienal de São Paulo. Disponível aqui.

Artigo do Museu Afro Brasil. Disponível aqui.

Artigo de Ferreira Gullar para a Folha de São Paulo. Disponível aqui.

Artigo de Mauro Bellesa sobre o Neoconcretismo e Mário Pedrosa. Disponível aqui.

Dissertação de Ronaldo Calixto sobre Max Bill e a Unidade Tripartida. Disponível aqui.

Sobre Dr. Nise da Silveira e Mário Pedrosa: artigo de Yasmin Abdalla, disponível aqui; artigo de Glaucia Villas Bôas, disponível aqui.

Dissertação de Márcia Elisa de Paiva Gregato sobre Franz Weissmann e Amilcar de Castro. Disponível aqui.