200 anos de Charles Baudelaire: o maior poeta francês do século 19 Foto: Divulgação

200 anos de Charles Baudelaire: o maior poeta francês do século 19

 

Correspondências

 

A Natureza é um templo onde vivos pilares

Deixam sair às vezes palavras confusas:

Por florestas de símbolos, lá o homem cruza

Observado por olhos ali familiares.

Tal longos ecos longe lá se confundem

Dentro de tenebrosa e profunda unidade

Imensa como a noite e como a claridade,

Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.

Perfumes de frescor tal a carne de infantes,

Doces como o oboé, verdes igual ao prado,

– Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,

Possuindo a expansão de algo inacabado,

Tal como o âmbar, almíscar, benjoim e incenso,

Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.

 

 

BIOGRAFIA

Charles-Pierre Baudelaire nasceu em 09 de abril de 1821, em Paris. O filho rebelde e genial de Joseph-François Baudelaire e Caroline Archimbaut-Dufays, perderia o pai ainda criança, aos seis anos de idade. Pouco mais de um ano depois, sua mãe se casaria com o militar Jacques Aupick, de quem se diz homem de “caráter rígido” e “espírito estreito”, e a família passa a morar em Lyon.

 

O pintor Gustav Courbet (1819 - 1877) retratou Charles Baudelaire.

 

Embora trivial o fato de uma jovem viúva estabelecer novos laços matrimoniais, como no caso de Caroline, mesmo à época, muito se fala do peso que esse episódio teria sobre a biografia de Baudelaire que, com a morte do pai, pretensamente imaginava a atenção da mãe de maneira quase que exclusiva. Entre amigos e estudiosos, diferentes vozes se somam na afirmação de que Baudelaire e o padrasto nunca teriam se acertado, visto o antagonismo de seus espíritos e ideias. O fato é que Baudelaire ingressa no internato do Còllege Royal de Lyon em 1829, completando seus estudos 10 anos depois, no Lycée Louis-le-Grand, então com 18 anos e já de volta a Paris.

Ainda que não fosse afeito à disciplina e ao ambiente escolar, sentimento que mais tarde é expresso por ele em cartas para sua mãe e para seu editor, seu desempenho acadêmico sempre se manteve muito satisfatório e sua formação envolveu o aprendizado de latim e grego, línguas pouco acessíveis a maioria esmagadora dos estudantes por serem ensinadas em instituições muito caras ou de difícil acesso; somado a um sólido conhecimento de literatura clássica. Além disso, é importante registrar que Baudelaire foi desde sempre cercado pela arte em seu ambiente familiar: o pai fora um homem letrado, tutor no ensino de literatura e pintura de crianças abastadas, dono de uma invejável biblioteca, um diletante e um pintor de final de semana. Embora não fosse necessariamente uma família rica, Baudelaire sempre teve acesso à cultura e ao conhecimento.

De volta a Paris, vivendo no Quartier Latin, o famoso bairro que concentra boêmios e intelectuais, a maioridade de Baudelaire permitiria ainda o seu acesso à herança deixada pelo pai, em uma equação com resultado já conhecido por todos nós: ele vai se envolver com drogas e álcool e viver sem privações, gastando em pouco tempo a metade dos 75 mil francos do espólio paterno. É nesse período que Baudelaire vai conhecer poetas, artistas e escritores, além de algumas de suas grandes paixões, como a atriz Jeanne Duval e a cortesã Apollonie Sabatier. A vida de luxúria vai fazer com que sua mãe entre com um pedido à Justiça francesa, alegando que a herança do filho pródigo precisa ser administrada por um tutor. Dessa forma, fica determinado que Baudelaire passaria a ter acesso a uma quantia mensal, gerenciada por Narcisse Ancelle, notário e assessor jurídico de sua família há muitos anos.  

Baudelaire vai ter uma vida marcada pela rebeldia e pelos excessos, características que vão transbordar para a sua poesia, por vezes incompreendida por seus contemporâneos, até mesmo censurada e condenada. Sensível, foi um forte crítico do seu tempo, atento e premonitório das mudanças em curso, carregando um sentimento de revolta e desilusão com o mundo. Morreria ainda muito jovem em consequência da sífilis, aos 46 anos, em um lindo sábado de verão em Paris.

 

Confira abaixo Júlio Castañon e Marília Garcia falando Charles Baudelaire:

 

 

 

CURIOSIDADES

Você sabia que Baudelaire foi expulso do colégio? Ele não quis mostrar aos professores um bilhete que foi passado por um colega.

Baudelaire traduziu as obras do estadunidense Edgar Allan Poe para o francês, entre elas Histórias Extraordinárias e O Princípio Poético.

As amantes de Baudelaire influenciaram suas obras de forma significativa. A sensualidade, a beleza e o erotismo de suas relações renderam diversos poemas.

 

DICAS DO LING

Ficou com vontade de conhecer mais a obra de Charles Baudelaire? Compre pelo site da Livraria Taverna  ou ainda na sua livraria local preferida!

Você também pode conferir o Áudio-livro de As flores do Mal em espanhol, disponível aqui. A versão do livro em PDF e em português você confere aqui.

Ederson Granetto e Álvaro Faleiro, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, conversam sobre o poema As flores do mal, de Charles Baudelaire. Confira aqui.

Haroldo de Campos fala sobre a modernidade de Baudelaire. Disponível aqui.

Você pode conferir aqui um belo resumo sobre a vida e a obra de Baudelaire.

O curta metragem brasileiro A serpente que Dança, de 2013, foi inspirado no poema "Le Serpent Qui Danse", de Charles Baudelaire. Estrelado por Mariana Ximenes e Paulo Leroy, o curta foi dirigido e roteirizado por João de Mendonça Lima. Você pode assistir ao trailer clicando aqui.

O livro Paraísos Artificiais (Les paradis artificiels no original) de Charles Baudelaire publicado em 1860 inspirou o filme de drama brasileiro de mesmo nome, Paraísos Artificiais, do diretor Marcos Prado, lançado em 2012. Assista ao filme aqui.

Charles Baudelaire também inspirou composições. O artista francês Babx lançou em 2015 uma música repleta de referências das obras do poeta. Você pode escutar aqui.

 

Referências

Artigo escrito por Gilles Jean Abes publicado no site acadêmico Scielo. Disponível aqui.

Artigo escrito por Sonia Maria Moreira Becker publicado no repositório digital Lume. Disponível aqui.

Artigo escrito por Toru Hatakeyama para a revista L’Histoire. Disponível aqui.

Jornal Rascunho. Poemas de Charles Baudelaire. Disponível aqui.

Revista Cult. O crítico e o poeta Baudelaire. Disponível aqui.

Revista Lounge. As Flores do Mal: Um livro sujo?. Disponível aqui.

Site da L&PM – Editores. Vida e Obra: Charles Baudelaire. Disponível aqui.