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Engenheiro da mente: Daniel Branco entre a Medicina, a Biotecnologia e a Filosofia

Da engenharia elétrica à neurociência, a inquietude de Daniel Branco sempre foi compreender a mente humana. Após consolidar sua veia empreendedora com um MBA na Wharton School há duas décadas — formação realizada com o apoio do Instituto Ling —, ele trilhou uma carreira sólida como executivo hospitalar, consultor estratégico e fundador de startups inovadoras. Hoje, residente em San Diego, na Califórnia, Daniel concilia o mercado de biotecnologia com a liderança da Escola de Consciência (Cocriando), convertendo a filosofia idealista em uma ferramenta prática de saúde mental para o cotidiano.

Engenheiro da mente: Daniel Branco entre a Medicina, a Biotecnologia e a Filosofia

Ser médico não estava entre os sonhos de infância de Daniel Branco. Outros desejos o levaram à Medicina: o de ser cientista e o de ser pesquisador nos Estados Unidos.

Embora tenha iniciado sua trajetória acadêmica na Engenharia Elétrica, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), suas inquietações sobre a mente humana e sua vontade de empreender o fizeram mudar de rumo. “Sempre tive mais cabeça de engenheiro, até hoje. Mas a pesquisa no exterior não era um caminho que se costumava traçar depois da faculdade de engenharia.”

Um interesse que nasceu ainda durante os estudos de Engenharia deu forma para esse caminho: a vontade de estudar o cérebro. “Eu fazia iniciação científica em microeletrônica, projetando chips de computador. Comecei a me interessar pelo cérebro, que, para mim, era o computador mais avançado que existia para entender.”

Assim, chegou à Medicina já voltado para a neurociência. Após a graduação, fez residência e doutorado em Neurologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Depois, engatou em um estágio de pesquisa na Harvard Medical School, sobre novas técnicas de mapeamento cerebral.

Na década de 1990, quando cursou Medicina na UFRGS, trabalhar com venture capital ainda não era uma definição de carreira. Daniel teve de seguir seu espírito empreendedor para trilhar caminhos até então desconhecidos. Para conciliar empreendedorismo e ciência, sua ideia inicial era trabalhar como autônomo para empreender em paralelo.

Hoje, ele trilha exatamente o caminho que projetou: concilia a consultoria Samba Trials — que facilita a vinda de estudos clínicos internacionais para o Brasil — com a BioAlma, plataforma de inteligência de mercado desenvolvida com IA. No futuro, esses projetos de consultoria podem seguir em paralelo, mas sua prioridade é a Cocreating (Cocriando, em português) – Escola de Consciência.

 

Um médico com MBA

Após concluir um pós-doutorado em Harvard, Daniel teve de decidir se voltava ao Brasil ou permanecia nos Estados Unidos. Para atuar como clínico lá, precisaria refazer a residência. Paralelamente, recebeu uma proposta para ser professor de neurorradiologia na Cornell University.

No entanto, o ambiente puramente acadêmico começou a parecer limitado para suas indagações existenciais, e passar pela residência novamente não era uma ideia atrativa. “Eu poderia seguir como acadêmico, mas era inquieto e empreendedor. Fui para a neurociência para entender como o cérebro produz consciência. Era uma questão filosófica e existencial, não puramente pragmática como planejar uma neurocirurgia”, explica.

“Percebi que não ia responder a essa pergunta na academia fazendo mapeamento cerebral. Até hoje não acho que seja uma questão dentro do escopo da ciência”, conclui.

Essa inquietação o direcionou aos negócios: “A ideia do MBA veio da minha vida de engenheiro”, diz. “Normalmente, os médicos daquela época nem sabiam o que era MBA.” Em 2006, com apoio do Instituto Ling, Daniel passou a integrar um grupo pequeno de médicos brasileiros que optavam por esse caminho na pós-graduação. Ainda mais em uma escola de negócios tão tradicional quanto a Wharton School, na University of Pennsylvania.

A experiência abriu novas perspectivas, mas gerou um conflito de valores para o cientista. “Foi uma época de muito conflito intelectual, porque eu vim de um mundo onde o sucesso era definido pelos seus artigos científicos, e no MBA me deparei com um ambiente muito mais pragmático, menos idealista, focado em ganhos financeiros. Foi um período de pensar: ‘quem sou eu nesse novo mundo?’”.

Mas a formação rendeu os objetivos que ele buscava e as credenciais de que precisava. Pouco depois, tornou-se executivo do Albert Einstein, no planejamento estratégico. Chegou a atuar também como superintendente médico do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, mas sua vontade de empreender o fez deixar os ambientes corporativos, partindo para a consultoria autônoma.

 

A renascença da saúde e o pioneirismo digital

Como consultor independente em saúde, Daniel desenvolveu projetos para fundos de private equity e grandes consultorias no período que chama de “renascença brasileira”, entre 2008 e 2012, impulsionada pelos BRICS. “Eu era provavelmente o único médico com MBA no exterior atuando de forma independente no país”, conta. Colaborou com grandes consultorias globais e fundos de private equity, auxiliando a estruturar novos negócios e levantar capital. Durante seu período como consultor independente, também idealizou outros projetos de telessaúde, como as startups DrChat e Ponto Care.

Em 2012, fundou a Medicinia, startup à qual se dedicou por dez anos. “Foi um projeto que começou muito antes do seu tempo: era telemedicina oito anos antes da COVID. A COVID foi o que de fato abriu as portas, mas nós já tínhamos perdido a onda naquela época”, avalia. A empresa nasceu no modelo B2C, mas a tese mostrou-se inviável, e passou para B2B, atendendo hospitais com a ferramenta. Daniel e Cris, sua esposa à época, mantiveram a operação até decidirem se mudar para os EUA e deixar a gestão com a equipe brasileira.

Mas a Medicinia não foi sua estreia no mundo das startups: ainda durante a graduação, cofundou a Medicinal, portal médico de resposta a dúvidas de usuários, vendido para a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) em 2002.

 

Da tecnologia em saúde à biotecnologia

Instalado em San Diego, Daniel iniciou um novo capítulo focado no ecossistema de biotecnologia. A mudança também refletiu um aprendizado estratégico: a percepção de que startups puramente tecnológicas em saúde possuem pouco diferencial competitivo para um profissional com seu perfil acadêmico.

De 2023 até junho deste ano, Daniel liderou a estratégia e o desenvolvimento corporativo da Artiva Biotherapeutics, focada em imunoterapia e oncologia. Da experiência na empresa, Daniel trouxe a BioAlma, plataforma de inteligência na qual continua trabalhando de forma independente.

Já a Samba Trials nasceu focada em levar testes clínicos ao Brasil – que Daniel avalia ser um destaque nacional. “É muito difícil uma biotecnologia florescer no Brasil. Sempre sugiro que criem um escritório no exterior e tentem se posicionar como uma empresa internacional, porque o Brasil ainda não é visto globalmente como um polo produtor de biotecnologia”, comenta. “Mas o Brasil se destaca e é muito valorizado na pesquisa clínica para o desenvolvimento de novos medicamentos. Essa oportunidade foi o que nos motivou a criar a Samba Trials, para facilitar a vinda de estudos clínicos para o país.”

 

O idealismo prático da Escola de Consciência

Apesar da intensa atuação no mercado de biotecnologia, o projeto que unifica toda a bagagem científica, empreendedora e humana de Daniel é a Escola de Consciência Co-Creating (no exterior) ou Cocriando (no Brasil).  “É uma junção de educação com terapia e saúde mental.”

A iniciativa nasceu de suas antigas inquietações — debatidas em seu livro Espiritualidade, no qual questiona se é o cérebro que produz a consciência ou o contrário — e ganhou força após ele enfrentar um período pessoal extremamente difícil. Em um intervalo de quatro anos, Daniel enfrentou um infarto, o fechamento da Medicinia no Brasil e um divórcio.

Foi um período de redescoberta. Tentou as terapias cognitivo-comportamentais e outras abordagens, mas o que mais lhe ajudou foram as filosofias idealistas – que assumem que a consciência cria a fisicalidade e o cérebro, e não o contrário. “Quando inverti essa lógica, foi o que mais me ajudou a me recuperar de todos esses baques. Pensei que as pessoas deveriam ter acesso a esse tipo de informação de forma prática. Muitas vezes, a filosofia é vista como algo abstrato que não serve para nada, mas ela tem um valor prático imenso quando você adota e aplica esse entendimento”, revela.

Na Cocriando, o envolvimento dos alunos começa com cursos estruturados. Um dos próximos lançamentos é um curso sobre relacionamentos, ministrado por ele e por uma terapeuta comportamental para confrontar perspectivas. “Eu apresento o tema sob a ótica da filosofia da autoconsciência, e ela aborda a visão da terapia comportamental, mostrando aos alunos que há diferentes formas de enxergar o mesmo problema. Na sequência, os alunos têm a possibilidade de fazer acompanhamento de como aplicar a filosofia na vida. Isso pode ser visto como terapia, coaching ou educação continuada, mas é bem prático: é sobre como aplicar a filosofia na tua vida. Fazemos isso em formato individual, um para um.”

“Tudo o que eu passei e vivi culminou na escola de filosofia e consciência que tenho hoje. Meu maior aprendizado foi uma escola de vida, mais do que de negócios. É o que carrego comigo”, conclui.

3.9.2026

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