O maratonista do impacto público: a jornada de Marcelo Cabral do governo ao terceiro setor
Após coordenar programas do governo federal, o administrador público Marcelo Cabral decidiu consolidar sua base técnica com um mestrado em Public Policy na UC Berkeley, que cursou com apoio do Instituto Ling. A formação expandiu seus horizontes para além do Estado, guiando sua trajetória pela gestão subnacional, consultoria global e terceiro setor. Hoje, como codiretor do Instituto Jataí, ele articula projetos complexos de compras públicas sustentáveis e inovação social diretamente do interior paulista, onde busca equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Marcelo Cabral descobriu cedo que, na carreira de gestão, impacto é a palavra-chave. Graduado em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e com bagagem em consultoria, ingressou aos 24 anos no cargo de especialista em políticas públicas e gestão governamental do governo federal.
Cinco anos depois, já ocupava o posto de diretor de gestão e acompanhamento no Ministério do Desenvolvimento Social – onde fez parte da liderança do Plano Brasil Sem Miséria, um extenso programa de superação da extrema pobreza.
“Cuidava de todas as metas, planos, toda a parte de gestão – que é minha área”, conta. Na época, o jovem gestor começou a vislumbrar as complexidades do setor público: o desafio de equilibrar múltiplos atores com diferentes demandas e desenhar estratégias de implementação que partam do conhecimento técnico, mas sejam adaptáveis a ambientes de incerteza.
Foi esse cenário que inspirou o administrador, que se define como “generalista convicto”, a decidir se especializar. “Comecei a sentir que, embora fizesse bem meu trabalho, tinha necessidade de complementação de skills mais técnicos, como avaliação de políticas públicas e análises quantitativas”, lembra.
A solução foi buscar um mestrado focado na análise de políticas públicas. Com apoio do Instituto Ling e da Fundação Estudar, embarcou em 2014 para San Francisco para cursar o mestrado em Public Policy da UC Berkeley.
O objetivo quando partiu era um só: se aperfeiçoar na carreira e retornar para o Executivo. “Pensava em voltar no dia seguinte mesmo, para voltar ao trabalho”. Mas embora seu norte continuasse sendo o Brasil, ele descobriu novos caminhos: o mestrado ampliou seus horizontes para outras possibilidades de atuação profissional.
Após transitar por diferentes esferas do governo, consultorias globais e pelo mestrado, hoje ele coordena projetos de alta complexidade no Brasil e na América Latina como codiretor executivo do Instituto Jataí, focado em promover sustentabilidade e inovação nas compras públicas.
Nesse caminho, encontrou uma forma não só de equilibrar os interesses em um projeto de gestão, mas também de equilibrar vida pessoal e profissional – hoje coordena o Jataí do interior de São Paulo, onde vive com a família há cinco anos em busca de equilíbrio e conexão com a natureza.
“Acho que todos esses meus movimentos de carreira foram buscas para gerar um alto impacto, sabendo que sempre lidei com questões que não têm soluções fáceis, o que requer um olhar mais de maratona do que de corrida de cem metros.”
Da gestão de programas sociais ao rigor analítico de Berkeley
Dez anos depois da conclusão do mestrado na Califórnia, a principal transformação atribuída àquele período é a ampliação dos caminhos profissionais. “Ficou claro que, dentro do meu objetivo de carreira — que é contribuir para a melhoria da qualidade de vida por meio do aprimoramento da gestão pública e das políticas públicas —, entendi que o mestrado me colocou em um lugar onde eu podia fazer isso também fora do Estado”, resume.
Marcelo escolheu a pós-graduação em Berkeley com foco no aprofundamento da análise de políticas públicas – área ainda em desenvolvimento no Brasil à época. “O campo ainda se dividia muito entre administração pública e ciência política – há 12 anos, quando tomei essa decisão. Tínhamos pouca gente fazendo análise de políticas públicas, que era o que eu queria fazer”, explica. “O programa de Berkeley é bastante analítico, quase acadêmico. Difere um pouco dos mestrados que têm estilo de MBA, com formação ampla e skills gerenciais – eu queria o oposto disso”.
Buscando esse rigor, ele mergulhou em uma rotina que unia teoria avançada ao aprendizado na prática. Nas salas de aula, aprendeu sobre as bases da estrutura institucional americana e, em um estágio na prefeitura de San Francisco, pôde entender de perto a engrenagem de um governo municipal dos EUA. Nesse trajeto, cumpriu seu principal objetivo: fortalecer os conhecimentos na área de métodos quantitativos. “Por mais que o objetivo não fosse me tornar um acadêmico, eu tinha o objetivo de ser capaz de ler qualquer paper, por mais técnico que fosse, com profundidade e gerando discussões bacanas.”
Mas a experiência em terras americanas foi além das equações e da econometria. A convivência com colegas de outras partes do mundo despertou o interesse pela cooperação internacional, especialmente dentro da América Latina. “Essa troca abriu muito o meu interesse pela América Latina, região com a qual depois eu fui trabalhar um pouco mais.”
De Berkeley, o administrador saiu com ferramentas analíticas robustas e uma nova perspectiva sobre onde aplicar seu talento. Mantendo firme o propósito de gerar impacto, ele trouxe do mestrado a convicção de que poderia atuar em várias frentes.
“Posso estar em uma consultoria, no terceiro setor, ou envolvido em governos de diferentes esferas. Foi um pouco essa a minha trajetória nos últimos dez anos: contribuir para as políticas públicas e para a melhoria dos serviços, em diferentes lugares onde eu possa atuar de maneira mais ecossistêmica. Foi essa a visão com que eu voltei do mestrado.”
Da merenda ao telhado das escolas: orquestrando um ecossistema local
De volta ao Brasil, ele quis aplicar os conhecimentos na ponta: migrou do governo federal para a coordenação de dados da educação na Prefeitura de São Paulo e, na sequência, no governo estadual.
“Queria passar pelas esferas federativas para entender um pouco da complexidade”, explica. A mudança foi um choque para quem estava acostumado a enxergar a realidade numa visão macro – na prefeitura, urgências diárias afetam todo o trabalho da gestão.
“Fui trabalhar na educação: se cai o telhado de uma escola, isso muda completamente a semana da prefeitura; ou se a comida servida apresentar algum problema, isso orienta muito a ação no território”, ilustra.
A vivência prática e transversal pavimentou sua transição para o terceiro setor, que ocorreu com o convite para ser gestor executivo do Programa de Cidades do Instituto Arapyaú de Educação e Desenvolvimento Sustentável. Ali, passou a exercer o que chama de “orquestração do ecossistema”: coordenar atores diversos em busca de metas comuns. Sua primeira iniciativa foi montar uma rede de secretários de inovação, conectando 40 cidades brasileiras. “Representa um papel muito importante da filantropia e do terceiro setor: apoiar os diversos governos e agências públicas a caminhar para um lugar de efetividade e maior impacto.”
Como financiador de projetos, o Arapyaú deu-lhe a oportunidade de acelerar empresas e fomentar organizações de impacto social – cobrindo pontos cegos que, muitas vezes, não são vistos de dentro do estado. “No Programa Cidades, trabalhamos muito com os desafios de contratação pública de inovação – hoje falaríamos em Inteligência Artificial, mas na época, era uma série de inovações em uso de dados e tecnologia. O desafio era como fazer com que a inovação de fato resolvesse problemas na ponta.”
Inovação na prática: o novo capítulo no Instituto Jataí
A imersão no terceiro setor posicionou Marcelo para integrar novas frentes. Depois do Arapyaú, topou atuar temporariamente como secretário executivo do Consórcio Conectar, que, durante a pandemia, reuniu mais de duas mil prefeituras nos esforços para viabilizar a compra da vacina contra a covid-19.
De lá, acumulou passagens como Board Member do Instituto Four, voltado para o desenvolvimento de lideranças, da Associação Serenas, que atua na construção de políticas para frear a violência de gênero e da ImpulsoGov, que une tecnologia e saúde pública. Na sequência, passou três anos na consultoria inglesa Delivery Associates, na equipe de América Latina. “Foi um momento de síntese muito bacana que uniu minha origem em consultoria com o universo das políticas públicas.”
Essa bagagem consolidou seu passo profissional mais recente: assumir a codireção executiva do Instituto Jataí ao lado do fundador Eduardo Spanó. No Jataí, o foco é transformar compras públicas, consideradas entraves burocráticos, em alavancas de inovação e sustentabilidade – aumentando o valor percebido desses investimentos. A primeira missão na sua chegada era a estruturação de um marketplace de compra pública de alimentos com o governo federal, apoiado pela Google.Org. Nos dois anos de gestão, o Instituto passou de três para 15 colaboradores, expandindo o portfólio para 11 projetos ativos.
Para o futuro, ele pretende seguir firme em seu papel na consolidação do Jataí, com expansão para América Latina e Sul Global. “O que me anima muito nos próximos passos é conseguirmos ter um impacto regional e internacional mais amplo, algo raro para organizações no Brasil. Fazer esse salto é algo que me interessa muito”, projeta Marcelo, já com mais uma maratona de impacto à vista.
3.9.2026