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Engenheiro das rotas sustentáveis: Rafael Moulin e a revolução do diesel verde

O engenheiro Rafael Moulin Pinheiro dedicou sua trajetória profissional a compreender as complexidades das infraestruturas e transformá-las em oportunidades de negócios. Desde 2019, atua como CEO da Efen, responsável pela introdução pioneira do HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), o chamado diesel verde, no mercado marítimo brasileiro. Formado em Engenharia Civil Industrial pela PUC-Rio e com MBA na IE Business School, com apoio do Instituto Ling, Rafael construiu uma sólida carreira de executivo na indústria de infraestrutura e de O&G com passagens em consultoria estratégica e fundo de private equity.

Engenheiro das rotas sustentáveis: Rafael Moulin e a revolução do diesel verde

Formado em Engenharia Civil Industrial pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1999, Rafael começou a carreira com uma bolsa de iniciação científica ainda durante a universidade. A partir daí, entrou no programa de trainee da Esso Brasileira de Petróleo.

Há 20 anos, ele embarcou para um MBA na IE Business School, em Madri, com o apoio do Instituto Ling — formação complementada por uma imersão na Tuck School of Business em Dartmouth (EUA). A experiência internacional foi um divisor de águas na expansão de suas fronteiras de liderança e na consolidação de sua carreira executiva. Com a bagagem, transitou por vários setores corporativos até alcançar o C-level na Efen, onde hoje é CEO e conduz o projeto pioneiro de introdução do HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), o diesel verde, no país.

 

Da iniciação científica ao sonho do MBA no exterior

Ainda durante a faculdade, Rafael se engajou em projetos de iniciação científica e, a dois anos da formatura, foi selecionado para o programa de trainee da Esso Brasileira de Petróleo – hoje, ExxonMobil. A rotação por áreas como Recursos Humanos, Tesouraria e Tributário deu a ele a primeira visão ampla de uma multinacional.

Efetivado antes mesmo de se graduar, trabalhou na companhia por três anos. Após uma breve passagem pelo setor de telecomunicações, durante a fase de transformação da Telefônica Celular em Vivo, retornou na sequência, à indústria de óleo e gás. Atuou como consultor para a KPMG Consulting (BearingPoint) em projetos da Petrobras e, em seguida, integrou os quadros da Accenture prestando serviço para a antiga BR Distribuidora (hoje Vibra).

Naquela etapa da carreira, ele decidiu que era hora de novos desafios. “Eu estava justamente no período de querer mais coisas, assumir mais responsabilidades. Comecei, nessa época, a mirar para fora”, lembra. Começou a estudar para provas como GMAT e TOEFL, focando em uma pós-graduação no exterior. A IE Business School, em Madri, foi a primeira instituição a enviar o aceite a Rafael.

Antes de concretizar a ida ao exterior, Rafael retornou temporariamente à Esso. “No primeiro ano em que tentei, em 2005, não consegui bolsa de estudos. No ano seguinte, voltei para a Esso de jogo aberto, dizendo que meu objetivo era a IE e que, se passasse em uma bolsa, eu iria”, conta. O plano se concretizou com a aprovação do apoio do Instituto Ling. “Foi muito legal porque acho que fui o primeiro aluno do Ling a passar para a IE”, lembra.

 

O legado de soft skills e a rede global construída em Madri

Do MBA na Espanha, Rafael destaca que o principal legado foi o aprimoramento das soft skills. “Foi uma mudança e uma experiência de vida.” A rede de relacionamentos construída naquelas salas de aula mantém-se viva 20 anos depois. “O que mais mexeu comigo foi o fato de que, no meu casamento no Rio, em 2009 — voltei ao Brasil em 2007 —, vieram 20 amigos da minha sala, de 12 países diferentes. É algo que levo até hoje.”

A rica diversidade cultural do ambiente acadêmico foi outro marco. “No meu intake eram quatro salas com cerca de 60 alunos cada, e +70 nacionalidades diferentes. Era uma diversidade cultural muito grande. Achei muito legal. Criei fortes laços de amizade.”

A vivência internacional destravou barreiras fundamentais em sua caminhada executiva, eliminando o receio de negociar com multinacionais e preparando-o para cargos de alta gestão. “Conviver com colegas de dezenas de nacionalidades diferentes desbloqueia travas mentais e nos sensibiliza para gerir pessoas.”

Durante a pós-graduação, Rafael realizou também um intercâmbio de duas semanas na Tuck School of Business em Dartmouth (EUA). “Foi uma experiência muito rica para vivenciar a dinâmica do ensino norte-americano.” Ele acrescenta que a formação internacional abriu as portas para sua ascensão ao C-level. “Não tenho dúvida de que o MBA é um excelente cartão de visitas e abre portas especialmente no Brasil. E em termos de hard skills, as aulas de finanças, análise de investimentos e elaboração de business plan foram fundamentais para a minha carreira.”

 

Da análise de investimentos às grandes reestruturações

No IE, entre os colegas, costumava-se dizer que um MBA permite escolher no máximo duas transições simultâneas: mudar de país, de setor ou de função; mas nunca as três juntas. “Eu queria muito mudar de função”, relata. Atuando na área funcional de finanças e implementação de sistemas SAP, Rafael buscava migrar para a análise de investimentos em fundos de private equity, segmento que começava a ganhar força no país.

“Quando voltei para o Brasil, ainda não tinha um emprego fixo. Tinha recebido uma proposta da Shell para trabalhar na Holanda, mas minha atual esposa não poderia ir na época. Então decidi voltar.” Retornou ao Brasil em dezembro e, em fevereiro, estava trabalhando na Promon, “uma empresa de engenharia tradicional do Rio e de São Paulo que estava crescendo bastante.” Lá, atuou em avaliação de investimentos, estudos de viabilidade técnica e econômica (EVTE) e análise tributária. “Nos primeiros dois anos em que estive lá, eles montaram um fundo de private equity junto com o Pátria e eu fui a segunda pessoa da Promon alocada ao fundo, que passou a se chamar P2 Brasil. Voltei a atuar na minha área de início de carreira, que era óleo e gás, só que agora, avaliando possíveis investimentos no setor.”

Assumiu posteriormente a liderança financeira de uma start-up criada pelo grupo Promon – a Promon Subsea. Em paralelo, criou com dois amigos uma empresa de catering inovadora chamada Frugale, que fornecia alimentação saudável no ambiente de trabalho através de pontos de venda dentro das empresas. Mas antes do nascimento do seu primeiro filho, após a Frugale conseguir alcançar mais de 40 pontos de venda em pouco mais de 2 anos, decidiu vende-la. A Frugale continua no mercado até hoje e está presente em diversas empresas do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Em 2014, após uma rápida passagem pela LEK Consulting, consultoria estratégica britânica oriunda da BCG, migrou para a Alvarez & Marsal, referência em reestruturação corporativa. “Fui para uma das áreas mais interessantes da Alvarez & Marsal – a área de reestruturação. Durante o período em que estive lá, a empresa cresceu de 40 para 600+ funcionários – hoje, tem mais de 1.800. Fiquei mais de quatro anos lá e fiz mais de dez projetos, a maioria relacionados à indústria de óleo e gás e infraestrutura.”

Foi nessa etapa que assumiu pela primeira vez posições de C-level, atuando como CEO e CFO interino em processos de recuperação judicial. Rafael considera esse período o de maior aprendizado da carreira. “Em quatro anos, digo que aprendi o equivalente a mais de dez anos de carreira. Tive muita sorte nos primeiros três anos porque ficava em projetos no Rio, continuando perto da minha esposa e dos meus filhos. A minha segunda filha nasceu nessa época. Foi um período de enorme crescimento, assumindo a gestão do estresse e da tensão de empresas em recuperação judicial, me habilitando para posições de C-level.”

Com o aumento constante das viagens, Rafael decidiu buscar um ritmo mais equilibrado. Recebeu então o convite para ser CFO de uma startup em joint venture entre a Prumo e a BP para trading de gás. Como o negócio não se concretizou, atuou na área de M&A da Prumo até ser convidado a assumir efetivamente o comando da subsidiária operacional NFX (também uma JV entre BP e Prumo), depois renomeada para Efen. “Aceitei o convite e sou CEO desde janeiro de 2020”, relata.

 

A liderança na Efen e a revolução do diesel verde

Na Efen, após três meses iniciais com recordes de resultados, Rafael enfrentou o desafio da pandemia de COVID-19, com retração na demanda de óleo e gás e queda drástica nos preços do petróleo. Aplicando a bagagem adquirida na recuperação judicial, liderou uma reestruturação profunda que garantiu a sustentabilidade da operação.

O grande marco de sua gestão na Efen foi o pioneirismo no projeto de HVO, o diesel verde. A empresa atua em duas frentes: no fornecimento de combustível no Porto do Açu e na operação logística de frota com balsas e embarcações PSV (Platform Supply Vessel — o equivalente ao “caminhão do mar”). “Funcionamos como a logística marítima do cliente para levar combustível às plataformas”

Rafael ressalta o rigor com a segurança na indústria offshore: “Toda reunião trimestral com meus sócios começa com índices de HSSE (Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade) para garantir zero acidentes e mitigar os impactos ambientais. Isso é fundamental para entender o projeto do HVO.”Muitos dos nossos clientes precisam cumprir suas métricas ambientais e o HVO tem um excelente potencial para reduzir as emissões de Escopo 1 e 3”.

Há mais de três anos, a Efen passou a acompanhar os desenvolvimentos da BP na produção e importação de HVO. “Eles têm uma mesa de trading específica para o feedstock (matéria-prima) do HVO, como sebo animal (tallow), óleo de cozinha usado (UCO - Used Cooking Oil, importado da China) e óleo de palma. O HVO já é uma realidade no exterior há tempos.” Segundo estudos mais recentes, a opção produzida com óleo de cozinha reciclado proporciona redução superior a 90% nas emissões líquidas de carbono ao longo do ciclo de vida do produto.

Identificando a tendência de um futuro marítimo multicombustível – envolvendo metanol, metano, LNG, HVO e combustíveis tradicionais – e o potencial atrativo da redução de emissões, a Efen trouxe a novidade ao Brasil. Em um projeto pioneiro com a Wilson Sons, testou o HVO por oito meses nos rebocadores no Porto do Açu, importando 800 mil litros de HVO de Houston (produzidos a partir de UCO).

Rafael relata uma diferença entre o uso do combustível tradicional e o do diesel verde com uma descrição: “No dia do primeiro abastecimento, no Porto do Açu, tínhamos do lado um rebocador comum e o rebocador abastecido com HVO. Você via a chaminé do navio comum emitindo fumaça negra e a do HVO emitindo fumaça branca, mostrando uma queima mais limpa.” Comentou ainda que: “O comandante do rebocador relatou que ao invés do cheiro de diesel queimado, sentia cheiro da batata do McDonald’s.”

Por sua estrutura química, o HVO emite menores quantidades de monóxido de carbono, material particulado e óxidos de enxofre. “Quando tiramos o filtro de combustível do rebocador após oito meses de teste, ele estava praticamente branco, enquanto com o diesel comum ficaria preto em três meses”, descreve.

Outra vantagem é a estabilidade química, que permite armazenamento por até dez anos em geradores de backup — ante três a seis meses do diesel fóssil. Mais um fator decisivo é o fato de ser um combustível “drop-in”, dispensando qualquer adaptação nos motores ou na infraestrutura operacional. “Você simplesmente abastece e ele funciona perfeitamente, sem perda de eficiência energética”, enfatiza.

A principal barreira para o combustível verde, hoje, ainda é o preço. Olhando para o futuro, Rafael vislumbra expandir a aplicação do diesel verde para setores como data centers e geradores de energia.

Devido ao cenário internacional de custos e conflitos, a empresa conversa com alguns produtores nacionais de biodiesel para desenvolver misturas com menor pegada de carbono para o mercado offshore, além de estar transformando a empresa em uma distribuidora de combustíveis e expandindo sua atuação geográfica para além do Açu, estabelecendo presença na Baía de Guanabara e ampliando o portfólio de produtos. “A gente vai virar uma distribuidora e começar a operar com outros combustíveis, pois entendemos que isso é fundamental para ampliar a nossa atuação com menores emissões de carbono para os nossos clientes”, conclui.

 

30.10.2026

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