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Izabel Campos Ferreira: gestão pública como ferramenta para construir cidades melhores

Como tornar as cidades brasileiras lugares melhores para viver? Foi essa inquietação que levou Izabel Campos Ferreira a trocar o Direito contencioso pela gestão pública e a se especializar em políticas públicas na Universidade de Columbia, com apoio do Instituto Ling. De projetos inovadores nos governos do Maranhão e Minas Gerais à atuação como consultora, ela constrói soluções que conectam desenvolvimento territorial, qualidade de vida e cultura.

Izabel Campos Ferreira: gestão pública como ferramenta para construir cidades melhores

Formada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2015, Izabel Campos trilhou um caminho que a levou das disputas judiciais sobre obras públicas ao coração do planejamento urbano e da gestão pública brasileira.

A inquietação com a atuação no Direito contencioso, que enxerga os problemas urbanos como disputas a serem vencidas, impulsionou sua transição para o setor público, onde trabalhou com gestão de projetos estratégicos de infraestrutura no governo do Maranhão e no governo de Minas Gerais. O desejo de criar impacto na interface entre a infraestrutura e a realidade dos habitantes das cidades a levou ao mestrado em Administração Pública (MPA) na Universidade de Columbia, em Nova York, com apoio do Instituto Ling.

Hoje, morando em Brasília, Izabel é consultora de organizações internacionais como a Vital Strategies , o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Unesco. Seu foco é criar metodologias e políticas públicas para transformar as cidades brasileiras em lugares mais humanos, inclusivos e sustentáveis.

 

Das audiências à descoberta do interesse pelas políticas públicas

O interesse pelo urbanismo surgiu primeiro através do Direito: após a graduação, Izabel trabalhava em um escritório de advocacia focado em obras públicas. “Eu gostava muito do tema, mas ficava frustrada com aquele processo de ‘entrar para brigar’, não de entrar de uma forma construtiva, para ajudar a construir algo melhor”, lembra.

Com a experiência, ela percebeu que o direito contencioso não era o espaço em que desejava aplicar sua curiosidade e conhecimento. “Queria estar do outro lado do balcão. Queria ajudar a construir uma política pública que fosse mais eficiente, fizesse mais sentido, desse menos problemas”, conclui.

A advogada encontrou um novo caminho a partir do trainee de Gestão Pública da Vetor Brasil (hoje Motriz). O programa se mostrou a porta de entrada para esse novo universo. “Não sabia muito bem como entrar na gestão pública, mas queria muito passar porque percebi que realmente era isso que eu queria fazer: trabalhar com políticas públicas.”

A nova etapa exigiu a mudança de Minas Gerais, sua terra natal, para o Maranhão. Embora o cargo oficial fosse de trainee em Inovação e Gestão Pública, na prática, Izabel atuava como gerente de projetos, coordenando iniciativas estratégicas de infraestrutura com modelagem complexa e viés inovador na Secretaria de Governo.

Durante a temporada no Maranhão, foi uma das responsáveis pelo desenho de um dos projetos de que mais se orgulha: o programa “Adote um Casarão”. “O Centro Histórico de São Luís tem muitos imóveis abandonados e bastante degradados, que precisam ser restaurados. O governo queria achar uma solução, mas ao mesmo tempo não tinha nem dinheiro nem equipe técnica suficiente para contratar engenheiros e arquitetos”, explica.

No modelo criado, imóveis públicos desocupados foram cedidos gratuitamente à sociedade civil  com a obrigação de reparar, manter e ocupar o espaço com atividades de interesse público. Antigos casarões abandonados passaram a abrigar desde coletivos de capoeira, grupos de arquitetura com assessoria técnica comunitária e até hubs de inovação. A modelagem também estabeleceu parcerias com o setor privado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Em 2022, a iniciativa foi uma das dez premiadas na etapa regional do 35º Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do IPHAN.

A passagem pelo Maranhão consolidou sua transição para o setor público. Ao retornar a Minas Gerais, foi convidada a chefiar o Núcleo de Governança e Gestão, à época vinculado à Secretaria de Infraestrutura estadual, gerenciando parcerias público-privadas e concessões de obras de grande porte. “Era um trabalho de impacto muito alto. Minha função ali era principalmente renegociar contratos, torná-los mais eficientes e limpar os problemas contratuais.”

Entretanto, ao gerenciar os contratos de logística pesada, como os de estradas e aeroportos, Izabel percebeu que faltava àquele trabalho um elemento essencial para sua realização: a dimensão humana. O desejo de estar no ponto de encontro entre a infraestrutura e a vida das pessoas a motivou a candidatar-se ao Master in Public Administration (MPA) na Universidade de Columbia.

“Senti que era o momento de me especializar na formulação de políticas públicas e entrar na área de desenvolvimento urbano.” Aprovada pela universidade e com apoio do Instituto Ling, mudou-se para Nova York em setembro de 2022.

 

O MPA em Columbia: visão global e especialização em políticas urbanas locais

Ao longo do MPA em Columbia, Izabel se especializou em Desenvolvimento Político e Políticas Urbanas. Desde o início da pós-graduação, seu horizonte era retornar para o Brasil para construir projetos sob um olhar inovador para o urbanismo local.

Sua visão sobre a gestão pública foi profundamente enriquecida pela experiência internacional. “Entendi melhor o lugar do Brasil no mundo das políticas públicas, tanto por entender que temos iniciativas únicas, que são referência para vários países, quanto por notar que não estamos sozinhos em muitos desafios e soluções.”

Seu trabalho de conclusão foi um exemplo dessa lógica de pensar globalmente e agir localmente: desenvolveu, em Colômbia, um projeto de consultoria focado em aumentar a confiança dos moradores em seus municípios.

 

Cidades para pessoas: metodologias para transformar o espaço urbano

Desde que concluiu o mestrado, em 2024, a trajetória profissional de Izabel é guiada por uma pergunta central: como as cidades podem ser lugares melhores para vivermos? “Sempre quis voltar para o Brasil e ajudar a construir realidades melhores aqui. Lógico que é possível fazer isso de fora, mas eu gosto de vivenciar o território. Isso está muito ligado ao meu propósito de ajudar as cidades brasileiras a serem lugares melhores”, conta.

Como consultora, desenvolveu um projeto – recém-concluído – com a Vital Strategies, em parceria com o Unicef, no qual coordenou o desenvolvimento de um painel de dados para municípios brasileiros, o Painel Criança e Meio Ambiente. A ferramenta fornece dados e evidências para fundamentar a adoção de políticas nos municípios brasileiros para melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes. O projeto também abordou a adaptação climática urbana em um contexto de crise climática, identificando ações imediatas contra ondas de calor e contaminação do ar.

Hoje, em Brasília, ela coordena um projeto em parceria entre a Unesco e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), para desenhar uma política pública de desenvolvimento territorial para centros históricos, a Estratégia Centro Vivo. Lançada oficialmente em abril, a iniciativa busca criar uma metodologia para que municípios ocupem seus centros, preservem o patrimônio e preparem os territórios para eventos climáticos extremos.

Um projeto piloto está sendo aplicado em Congonhas, Minas Gerais. Em vez de planos complexos que muitas vezes não são executados, a proposta partiu de um diagnóstico local para criar um plano de ativação imediata (ações de curto prazo) e outro estruturante (ações de médio/longo prazo). A metodologia é focada em construir junto aos moradores propostas de intervenções urbanas que de fato façam sentido para o cidadão. Ao garantir isso, o investimento público é mais eficaz e menos sujeito a gastos monumentais com elefantes brancos. Além disso, a apresentação de planos de curto prazo permitem intervenções imediatas que aumentam a confiança no processo ao trazer respostas concretas em pouco tempo, enquanto se aguarda a estruturação de intervenções mais longas.

Liderando uma equipe multidisciplinar, Izabel integra diversas áreas da vivência urbana. Esse foi outro aprendizado do MPA: enquanto nos Estados Unidos as políticas urbanas são percebidas como uma área única, no Brasil elas são tratadas de forma fragmentada. “É preciso integrar essas políticas. Não adianta cuidar dos prédios sem ter gente morando neles, ou ter pessoas morando sem conseguir gerar renda.” Por isso, a estratégia é guiada por seis premissas: presença contínua de pessoas, infraestrutura de qualidade, patrimônio preservado e apropriado, sentimento de pertencimento e governança territorial.

Carregando os conhecimentos do mestrado e da bagagem profissional, ela defende que as comunidades, o setor público e o privado se unam cada vez mais em projetos para tornar as cidades melhores. “O território é de todo mundo e não pode ser responsabilidade apenas do Estado. O espaço público pertence a todos nós.”

 

2.10.2026

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