A busca por identidade em A cidade sitiada Foto: Unsplash

A busca por identidade em A cidade sitiada

 

“Mas enquanto mantinha o rosto sufocado, e toda a sala que ela não via girava tonta, a moça parecia descobrir que não era de tristeza que gritara. É que não podia suportar aquela muda existência que estava sempre acima dela, a sala, a cidade, o alto grau a que chegavam as coisas sobre a prateleira, o passarinho seco prestes a voar empalhado pela casa, a altura da torre da usina, tanto intolerável equilíbrio – que só um cavalo sabia exprimir em cólera sobre as patas.”

(trecho da página 57)

 

O livro A cidade sitiada é ambientado no subúrbio de São Geraldo, durante a década de 1920, e é neste lugar pouco atraente que vive Lucrécia Neves, uma jovem simplória que apenas vê a vida passar. Em 1971, Clarice Lispector revelou ao jornal Correio da Manhã que este foi seu livro mais difícil de escrever. Há quem acredite que isso se deva ao fato de Lucrécia ter levado ao ápice o talento de Lispector de desumanizar seus personagens, tornando-os, assim, visceralmente humanos.

 

O LIVRO

O livro é narrado em terceira pessoa e segue uma cronologia linear em seus doze capítulos. Ele acompanha as andanças de Lucrécia Neves pelas ruas das cidades, onde ela se exibe e confirma que as coisas são o que aparentam ser. A moça está dividida entre seu subúrbio de origem e a cidade grande romantizada. Mas esse confronto entre campo e cidade não chega a gerar grande inquietação, porque Lucrécia tem uma capacidade limitada de refletir sobre a vida. Ela percebe a realidade através do olhar, mas não chega a se expressar em palavras.

 

“Ah, se eu pudesse ir hoje mesmo a um baile, pensava a moça na noite de domingo, tocando a mesinha da sala de visitas com delicadeza. Gostava muito de se divertir. Contente, em pé junto da mesinha, rindo à ideia de um baile, os dentes amarelos aparecendo com inocência. Mas pelo menos ela passeava quanto podia, entre as coisas do Mercado, de chapéu, de bolsa, algum fio corrido nas meias. Saía e entrava em casa, ou ocupava-se durante horas com roupas, a transformar, a emendar; tinha alguns namorados e cansava-se muito; de chapéu e luvas velhas atravessava o Mercado de Peixe.”

(trecho da página 18)

 

As figuras masculinas são peças de um jogo. O tenente Felipe, apesar do fascínio que sua farda exerce, despreza o subúrbio e, portanto, despreza a própria Lucrécia; Perceu Maria é belo, porém fraco e “vazio como ela”; e Mateus Correia, com quem ela se casa, realiza seu sonho de cidade grande, que não a satisfaz. A tentativa de fugir do tédio do subúrbio a arremessa diretamente na estranheza da metrópole e nas incômodas funções de mulher e esposa.

Existe uma profunda busca por identidade em várias personagens de Clarice Lispector e Lucrécia Neves é uma delas: ora dividida pelo desejo da cidade grande, com seus teatros e grandes jardins; ora a necessidade de estar em São Geraldo, cercada pela igreja, pela praça e pelo Morro do Pasto. Lucrécia se assemelha a Macabéa, de A Hora da Estrela, porque as duas apenas passam pela vida, com suas existências mudas. Segundo Lívia Paiva Ribeiro, esse não pertencer-se ou não encontrar-se compõe um cenário simbólico, feito das atitudes das personagens e do desenvolvimento da narrativa.

Outra característica importante da obra é o espaço, que se associa diretamente com a personagem principal e, por vezes, parece ele mesmo ser um personagem. As descrições de São Geraldo ou da metrópole se relacionam com a personalidade de Lucrécia, “tão instável quanto as mudanças sofridas pelo subúrbio onde viveu” (RIBEIRO, 2014,  p.12). Os lugares por onde passa revelam sua busca incessante por pertencimento, assim como sua angústia por não se identificar com São Geraldo.

Cercada por seu contexto e cheia de angústias que não sabe como expressar, Lucrécia está sitiada dentro de si, sem perspectiva alguma de mudança. A comparação com Macabéa é, mais uma vez, inevitável: ambas encontram um fio de esperança para suas vidas monótonas – a revelação da cartomante à Macabéa e o casamento com Mateus –, mas, assim como Macabéa encontra seu fim trágico, Lucrécia vê seu sonho frustrado e entende que sua vida continuará sem sentido.

 

A AUTORA

Em 10 de dezembro de 1920, na pequena aldeia de Tchetchelnik (Ucrânia), nascia Haia Pinkhasovna Lispector que viria a ser Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira do século 20. Na época, a Ucrânia pertencia à Rússia e sua família partiu rumo à América três anos após a Revolução Russa, em 1917, devido aos conflitos, à miséria e à perseguição antissemita sofrida no país.

Clarice Lispector, 1946. Paris, França. Studio Harcourt / Coleção Paulo Gurgel Valente / Acervo IMS.

Ao chegarem no Brasil, em 1922, os Lispector adotaram novos nomes e viveram por algum tempo em Maceió, no Alagoas, e depois, em 1925, fixaram residência em Pernambuco, no Recife. É no bairro da Boa Vista que Clarice viveu a infância, estudou e escreveu seus primeiros contos, que já tinham a característica de tratar das sensações humanas. Sua relação com Pernambuco era tão forte que, mais tarde, Clarice naturalizou-se brasileira e considerava-se pernambucana. A próxima parada da escritora foi o Rio de Janeiro, onde cursou a graduação em Direito e, no começo da juventude, trabalhou como professora particular e tradutora até assumir uma vaga de redatora e repórter na Agência Nacional, que marca o começo da carreira de Clarice no jornalismo. 

Em 1943, Lispector se casa com o diplomata Maury Gurgel Valente e, no ano seguinte, lança seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que logo chama atenção da crítica literária e conquista o prêmio de melhor romance da Fundação Graça Aranha. Junto a Maury, Clarice leva uma vida itinerante, morando em diferentes países, refletindo seus sentimentos e experiências na sua escrita, que é marcada pela presença do inconsciente.

Quando retorna ao Brasil, em 1959, após o término de seu casamento, a escritora passa a trabalhar como colunista do Correio Feminino no jornal carioca Correio da Manhã. Destaca-se, em 1967, pela publicação de suas crônicas no Jornal do Brasil. A obra literária de Clarice Lispector é formada por contos, crônicas, romances, cartas, literatura infantil e traduções de grandes clássicos, como obras de Agatha Christie, Anne Rice, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Algumas de suas obras mais aclamadas são os romances A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977), e os livros de contos Laços de Família (1960) e A Legião Estrangeira (1964).

Clarice Lispector faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário. Pouco tempo depois, foi ao ar pela TV Cultura a famosa e última entrevista concedida pela escritora ao programa Panorama. A pedido de Lispector, só deveria ser transmitida após sua morte. No ano seguinte, A Hora da Estrela recebeu o Prêmio Jabuti na categoria melhor romance; e foi publicado – com a ajuda de Olga Borelli, secretária de Clarice – o último romance em que a escritora estava trabalhando, Um Sopro de Vida – Pulsações, escrito entre 1974 e 1977.

 

CURIOSIDADES

Em comemoração ao centenário da autora, a editora Rocco preparou o Podcast da Clarice! Com episódios mensais, o programa convida especialistas para discutirem as obras da escritora. Você pode ouvir pelo SpotifyiTunes, Castbox e Anchor FM.

Você sabia que Clarice Lispector participou da Primeira Conferência Mundial de Bruxas como convidada? A conferência aconteceu na Colômbia e ela apresentou o conto O ovo e a galinha, mas pediu que outra pessoa fizesse a leitura. Confira a leitura do conto produzida pelo Instituto Moreira Salles no filme O ovo, Clarice e a galinha (2015).

Sabe qual artista moderno famoso já fez a capa de um livro da Clarice? Henri Matisse! A capa da primeira edição francesa de Perto do Coração Selvagem, lançado em 1954, pela editora Plon, sob o título de Près du coeur sauvage, foi criada pelo grande artista francês. Saiba mais aqui!

 

PREMIAÇÕES

Prêmio Graça Aranha pela obra Perto do Coração Selvagem (1944)

Prêmio Carmem Dolores Barbosa por A maça no escuro (1961)

Prêmio Jabuti por Laços de Família (1961) e A Hora da Estrela (1978)

Prêmio Calunga (Campanha Nacional da Criança) pelo livro infantil O Mistério do Coelhinho Pensante (1967)

Ordem do Mérito Cultural (2011)

 

DICAS DO LING

Confira o programa especial realizado pela TV Cultura em comemoração ao centenário de Clarice Lispector. O programa conta com uma entrevista exclusiva com o biógrafo da autora, Benjamin Moser. Disponível aqui.

Ficou com vontade de ler A cidade sitiada? Compre o livro na Editora Rocco ou na Livraria Bamboletras, de Porto Alegre. Conheça outras obras da autora aqui.

A edição de 2020 do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIMCINE) faz um tributo a Clarice Lispector, com os filmes A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral, e O Livro dos Prazeres (2020), de Marcela Lordy. O festival acontece on-line de 10 a 17 de novembro. Confira aqui.

 

REFERÊNCIAS

Dissertação de Lívia Paiva Ribeiro sobre A cidade sitiada. Disponível aqui.

Análise do livro feita pelo Instituto Moreira Salles. Disponível aqui.

Cronologia de Clarice Lispector, escrita por Nádia Battella Gotlib. Disponível aqui.

Biblioteca Nacional Digital, biografia Clarice Lispector. Disponível aqui.

Decifre Clarice Lispector: vida e obra da escritora, escrito por Letícia Albuquerque. Disponível aqui.