A história de Portugal presente em "Um dia chegarei a Sagres", de Nélida Piñon Foto: Reprodução/Flickr/Casa de América

A história de Portugal presente em "Um dia chegarei a Sagres", de Nélida Piñon

Lançado há poucos meses pela editora Record, Um dia chegarei a Sagres é o primeiro romance inédito de Nélida Piñon desde o celebrado Vozes do deserto, de 2004. A premiada autora, que também foi a primeira mulher a presidir nossa Academia Brasileira de Letras, nos presenteia com um épico potente, ambientado no século 19, numa Portugal marcada pela “fé na tradição oral e na cultura da memória”.

 

O LIVRO

 

“Nasci no século XIX, no norte de Portugal, e não sei o que significa ser parte desta nação. Que benefícios os reis, assentados no trono, de diversas linhagens, nos concederam além de agrilhoar o povo aos seus caprichos. Esta turba de sangue real ainda não decretou a verdadeira abolição da escravatura, aquela ocorrida em 1869. Eu, porém, decidi contar a minha história, a falar para o ar, no dia primeiro de novembro, mês que coincide com o terremoto de Lisboa.

Era madrugada, fazia frio, e eu cobria o corpo com um cobertor gasto, o único que havia na casa. À luz da vela, enxergava os objetos sobre o aparador como fantasmas que ia afugentando com gestos esparsos. Eles, mais persistentes que a minha vontade, me dão combate, formam na parede silhuetas que não identifico com nitidez. A vida, que é precária, pulsa no meu peito, oferta-me certo frescor que a minha memória, afundada no inferno, recusa. Graças a essas lembranças visito a aldeia em que nasci e revivo à força.”

                                                           Trecho das páginas 7 e 8, abertura do capítulo 1.

 

Há quem diga que navegar é preciso e viajar parece ser o destino do povo português. Em seu novo romance, Nélida Piñon nos lança ao mar. Não só ao Português, mas ao mar de memórias de Mateus, o camponês narrador, que é o corpo/nau desta história. Como bússola, Mateus tem Camões e o Infante D. Henrique, que o guiam nesta jornada até Sagres. O primeiro, aquele que foi o maior escritor da língua portuguesa e que cantou em verso as grandes façanhas do povo português. O segundo, aquele que foi responsável pelos avanços técnicos e tecnológicos que permitiram que Portugal viajasse além-mar.

Filho de uma prostituta e de pai desconhecido, Mateus foi criado pelo avô Vicente. E é a partir da morte do avô que o pobre moço decide abandonar sua pequena aldeia e seguir os passos de seu ídolo, Infante D. Henrique. Sai rumo a Sagres e, ao longo do caminho, acaba se deparando com sua paixão por histórias e com seus fortes desejos sexuais. O presente pouco heroico do protagonista contrasta com as glórias do passado, em uma narrativa que revisita episódios importantes da história portuguesa. Através do texto, é possível perceber o amadurecimento de Mateus, assim como a perda das suas ilusões.

A história é narrada em primeira pessoa, como uma espécie de relato oral das memórias do protagonista, e oferece ao leitor uma abundância de reflexões metalinguísticas. Mateus é apaixonado por contar histórias e está sempre sonhando com aventuras esplêndidas e pensando na natureza da linguagem e da literatura. Sua trajetória se mistura com os eventos históricos de Portugal, que são ensinados tanto pelo professor Vasco da Gama (!), quanto pela leitura de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões. E como o texto busca evidenciar a memória, ele apresenta eventos ora de um passado recente, ora de um passado distante, com vários saltos temporais e até reformulações, mostrando as digressões da oralidade e das recordações.

 

Para escrever o livro, Nélida Piñon passou um tempo em Portugal:

 

“Desde 2005, tenho esse projeto, mas era necessário estar lá. (...)  O livro pedia um tipo específico de pesquisa, pois eu precisava sentir o cheiro exalado pelas colinas, pelas aldeias, especialmente da região de Sagres. Bastava olhar para uma árvore. Como a história se passa no século 19, eu necessitava recuperar isso com precisão”.

(trecho de entrevista a Istoé, disponível aqui)

 

Mas engana-se quem pensa que o livro é uma apologia à expansão colonial e aos herois portugueses. A autora não deixa de tocar nas nossas feridas (nunca tratadas): a escravidão e a desigualdade social. Analisa atentamente o esplendor e a decadência lusitanas, sabendo que o peso das conquistas passadas recaiu também sobre os cidadãos comuns. Seu protagonista, mesmo apaixonado pela história de Portugal, não sente que pertence a sua nação, porque acredita que um homem simples não pode fazer parte de todo aquele passado homérico.

 

“Descobri com o tempo que me faltou ao menos uma certa modernidade. Vivia em um mundo que eu não reconhecia. Desde o nascimento fui um homem antigo, integrado a séculos passados e que, com raras exceções, só estimei os mortos. […]

Afincado nas raízes de um Portugal que já não existe, não sou protagonista de nenhuma fração da história. Nem precisaria indagar ao alfarrabista em que tempo da pátria ele me situaria e me sentiria confortável.”

(trecho da página 315)

 

Reza a lenda que Sagres é o lugar onde o Infante criou uma escola náutica. Movido por utopias e com um ar quixotesco, Mateus avança na esperança de alcançar seu destino. E nós, navegantes por herança que somos, seguimos junto com ele.

 

 

A  AUTORA

Nélida Piñon é uma das mais premiadas e admiradas escritoras brasileiras contemporâneas em atividade. Ela, que ocupa uma cadeira entre os Imortais da Academia Brasileira de Letras, já conquistou os prêmios de maior prestígio na literatura nacional e internacional, marcando na história a primeira entrega do Prêmio Internacional Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana e do Caribe para uma mulher e para um autor de língua portuguesa. Traduzida em mais de 30 países, sua vasta obra de mais de 25 livros, composta por contos, romances, ensaios, crônicas e discursos, atravessou os oceanos conquistando amantes ao redor do mundo.

 

Foto: Wilton Junior/Estadão.

 

Nascida no Rio de Janeiro, em 3 de maio de 1937, no bairro Vila Isabel, filha de espanhóis originários da Galícia, Nélida cresceu em meio a cultura brasileira e galega. Desde criança demonstrava paixão pelas palavras e, por apoio e estímulo dos pais, ainda pequena teve acesso aos mais diversos livros.  Aos 10 anos, viajou para a Galícia, onde viveu, até os 12 anos, com a avó Isolina. Segundo a escritora:

 

 “Esses dois anos vividos em Borela, Cotobade, na casa da avó Isolina, propiciou uma comunhão com a natureza galega, com o mundo arcaico. Sentia-me Atlas a reter a esfera da Terra nas mãos, enquanto, destemida, absorvia a geografia, o galego, o castelhano, a comida, os costumes locais, vencia o prado e a montanha, o substrato da grei de que me originara.”

(trecho de entrevista para a Revista Cult, disponível aqui)

 

Quando retornou ao Rio de Janeiro, comprou sua primeira máquina de escrever — uma Hermes que encontrou em uma loja enquanto passeava sozinha pelo centro da cidade — e desde então nunca parou de escrever. Formou-se em jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e colaborou com diversos jornais e revistas literárias. Foi editora assistente da Revista Cadernos Brasileiros e correspondente da Revista Mundo Nuevo de Estudos Latinoamericanos.

Fez sua estreia literária em 1961, com o romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, em que tratou da temática do pecado, do perdão e da relação dos humanos com Deus, desenvolvendo a história a partir do diálogo entre a protagonista e seu anjo da guarda. No decorrer dos anos 1960, lançou outros romances e se destacou pela obra Fundador, de 1969, que lhe rendeu o Prêmio Especial Walmap, em 1970. Neste romance, Nélida mistura personagens históricos e ficcionais, recriando a chegada dos colonizadores europeus na América a partir de outro ponto de vista. Nélida Piñon publicou grandes sucessos literários ao longo de sua carreira, como o romance autobiográfico A república dos sonhos, de 1984, que narra a saga de uma família galega que migra para o Brasil, os romances A Doce Canção de Caetana (1987) e Vozes do deserto (2004), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Romance e Melhor Livro do Ano. Como contista, escreveu as obras Tempo das frutas (1966), O calor das coisas (1980) e  A camisa do marido (2014). Suas obras mais recentes são o livro de memórias Uma furtiva lágrima (2019) e o romance Um dia chegarei a Sagres (2020).

Além de fazer parte da ABL, a escritora participa de outras instituições importantes dentro e fora do país, como a Academia de Filosofia do Brasil, PEN Clube Brasil, Real Academia de España, Real Academia Galega, Honor Society for International Scholar, da Universidade de Miami, onde atua como catedrática desde 1990, entre outras.

 

CURIOSIDADES

Você sabia que Nélida Piñon foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras? Desde 1989, ela ocupa a Cadeira 30 na Academia e em 1996-1997 se tornou a primeira mulher a presidir uma Academia de Letras no mundo!

Amizades literárias: Nélida Piñon foi grande amiga de Clarice Lispector! No ano em que se completaria o centenário de Clarice, Nélida publicou uma carta destinada a ela! Leia aqui. Além de Lispector, a escritora também foi amiga de Philip Roth, John Updike e William Styron.

Clima para escrever: desde adolescente, Nélida costuma escutar música erudita para criar suas histórias! Seu preferido é Tchaikovsky! Segundo ela, quando deseja escrever uma cena mais picante, ouve Wagner, Schubert ou Verdi e, para criação de muitas personagens femininas, inspira-se ao som da música flamenca.

 

DICAS DO LING

Ficou com vontade de ler o livro? Compre pelo site da editora Record ou na Bamboletras ou ainda na sua livraria local preferida!

A escritora bateu um papo delicioso com o também escritor Raphael Montes no programa Trilha de Letras, da TV Brasil! Eles conversam sobre literatura, Deus, feminismo e otras cositas más. Para assistir, clique aqui.

Assista a entrevista de Nélida Piñon para o programa Roda Vida, que foi ao ar em novembro de 2020! Em conversa com a jornalista Vera Magalhães, a escritora falou sobre o processo criativo do livro Um dia chegarei a Sagres (2020) e suas preocupações com a situação política e social do Brasil. Confira aqui.

Escute o capítulo do podcast Ilustríssima Conversa com Nélida Piñon, realizado pela Folha de S. Paulo. Na conversa, a autora falou sobre seu livro de memórias e autoficção, Uma Furtiva Lágrima (2019), escrito a partir de seu diário de morte (em 2015 a escritora recebeu um diagnóstico médico incorreto, em que lhe foi dito que teria pouco tempo de vida, então começou o diário que deu origem ao livro). Disponível no Spotify.

 

PREMIAÇÕES

1970 - Prêmio Walmap, pelo romance Fundador (Rio de Janeiro)

1973 - Prêmio Mário de Andrade, da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), São Paulo, pelo romance A Casa da Paixão, Melhor Livro do Ano

1985 -  Prêmio da APCA, São Paulo, pelo romance A República dos Sonhos, Melhor Livro do Ano; Prêmio Ficção PEN Clube, pelo romance A República dos Sonhos, Melhor Livro do Ano (Rio de Janeiro)

1987-  Prêmio José Geraldo Vieira (União Brasileira de Escritores de São Paulo), pelo romance A Doce Canção de Caetana, Melhor Romance do Ano

1990 - Prêmio Golfinho de Ouro, pelo Conjunto da Obra, oferecido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e pelo Conselho Estadual de Cultura

1991 - Prêmio Bienal Nestlé, Categoria Romance, pelo Conjunto da Obra (São Paulo);

1992 - Uma das dez mulheres homenageadas com o Prêmio Simón Bolívar (Miami, Flórida)

1995 - Prêmio Internacional Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana e do Caribe, pelo Conjunto da Obra (México)

1996 - Prêmio Adolpho Bloch, concedido pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro

1997 - Prêmio Alejandro José Cabassa, da União Brasileira de Escritores, pelo seu livro O Pão de Cada Dia

2001 - Prêmio Ibero-Americano de Narrativa Jorge Isaacs (Colômbia), pelo Conjunto de sua Obra

2002 - Prêmio Rosalía de Castro (concedido pelo PEN Clube da Galícia, Espanha), pelo conjunto da sua obra em língua portuguesa

2003 - Prêmio Internacional Menéndez Pelayo (entregue pelo Ministério da Educação e Cultura da Espanha)

2004 - Prêmio Puterbaugh Fellow, oferecido pela Universidade de Oklahoma e a revista The World Literature Today

2005 - Vencedora do Prêmio Jabuti em duas categorias: romance e melhor livro do ano, pela obra Vozes do Deserto; Prêmio Príncipe de Astúrias (Espanha), sendo o primeiro nome na literatura em língua portuguesa a receber essa láurea

2006 - Prêmio Woman Together (ONU, Nova York), por sua “implicação na consecução dos Objetivos do Milênio Através do Desenvolvimento da Mulher, a luta contra a pobreza, a educação, a arte e a cultura”; Prêmio Cervantes da Fundação Cervantina de Guanajuato (México)

2010 - Prêmio Casa de las Americas (Cuba), pela obra Aprendiz de Homero; VI Prêmio Internacional Terenci Moix de Literatura, (Espanha), na categoria de melhor livro do ano, por Corazón Andariego

2013 - Prêmio Cátedra Enrique Iglesias, outorgado pelo Banco interamericano de Desenvolvimento – BID

2015 - Prêmio El Ojo Crítico Iberoamericano, outorgado pela Rádio Nacional de Espanha

 

REFERÊNCIAS

Artigo escrito por Daniel Augusto para o site Cenáculo. Disponível aqui.

Artigo da Istoé sobre o livro. Disponível aqui.

Site da Academia Brasileira de Letras. Biografia Nélida Piñon. Disponível aqui.

Site da LPM - Editores. Vida e Obra: Nélida Piñon. Disponível aqui.

Site Revista Cult.  Artigo sobre Nélida Pinon, escrito por  Ana Maria Leopoldo e Silva. Disponível aqui.