As rupturas de tradição e as inovações do Modernismo Imagem: Domínio público

As rupturas de tradição e as inovações do Modernismo

No próximo dia 06.10, a partir das 18h30, te esperamos para a terceira edição do Conversas sobre Arte, com a professora e pesquisadora Camila Schenkel, para conhecer mais sobre o Modernismo e seus desprendimentos das convenções impostas para a arte até então. Este é um material de apoio para que você possa dar os primeiros mergulhos no Modernismo. Se você ainda não se inscreveu, clique aqui!

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Em um mundo que, no curto espaço de tempo, viu monarquias, repúblicas e democracias ruírem, que viveu a ascensão do horror nazista na Europa e que assistiu a transferência do poder econômico e cultural da Europa para os Estados Unidos, não é de se surpreender que os artistas tenham perdido a fé no progresso e se desprendido da tradição.

 

CONTEXTO HISTÓRICO

O que chamamos de Modernismo ainda causa certa confusão quanto a seus marcos e limites e, por isso, recorremos a filósofa e crítica de arte Anne Cauquelin para favorecer algumas definições. Em linhas gerais, a arte moderna pode ser entendida como aquela praticada de 1860 até a intervenção da arte contemporânea, mas para entender um pouco mais traremos as ideias de moderno, modernidade e modernismo.

Moderno é geralmente sinônimo de atual, novo, aquilo que é do tempo presente. Modernismo pode ser entendido como um comportamento diante das inovações socioculturais. Modernista é, pois, aquele que é a favor da novidade. Modernidade é um conjunto de traços da sociedade e da cultura que pode ser detectado em determinado momento e local. Ou seja, existe a “modernidade de 2020”, na mesma medida que existiu a “modernidade de 1920”. Mas, a partir de Charles Baudelaire — que publicou, em 1863, o artigo O Pintor da Vida Moderna —, a noção de modernidade passa a ser aquilo que está na moda, aquilo que é “transitório, fugidio, o contingente” e é essa modernidade que deve guiar a estética. Então, quando o conceito de modernidade se funde à prática estética é o que chamamos de arte moderna.

 

Imagem: Nascer do Sol, obra de Claude Monet.

 

E como já falamos em Baudelaire, você deve imaginar que o local em que a arte moderna surge é Paris — que da virada do século 19 e até o início da Segunda Guerra (1939) se torna a capital do mundo ocidental. É lá que a cidade urbana se desenvolve em seu esplendor: o relógio, a luz elétrica, a Torre Eiffel e as Feiras Mundiais, os estúdios de fotografia, as salas de cinema. É nesse cenário que, em 1874, acontece a exposição de certos “artistas independentes” no estúdio do fotógrafo Nadar. O que eles queriam? Com a invenção de um instrumento de apreensão mecânica da realidade, a máquina fotográfica, esses artistas desejavam reformular a essência da pintura, colocando em xeque a arte até então valorizada pelos salons (salões). Os impressionistas, como ficaram conhecidos, queriam a “ruptura com o antigo sistema de academicismo” (CAUQUELIN, 2005, p.52), que oferecia apenas uma escola — a de Belas-Artes —, um único salão — o de Paris — e um único júri que determinava quem era comissionado pelo Estado.

O rebuliço causado por eles fez com que o mercado da arte se expandisse e, de certo modo, se popularizasse, afinal, alguém precisava reconhecer e remunerar estes artistas. É nesta mesma Paris, pouco tempo depois, que outra ruptura é feita. Desta vez pelo pincel de Pablo Picasso (1881-1973). Sua ruptura tem a ver com a representação: ele contesta a quase-incontestável perspectiva renascentista. Essa onda de rejeição ao passado vai se espalhar por toda a Europa e nas Américas até encontrar seu expoente mais radical em Zurique e nos Estados Unidos — o dadaísmo. O “movimento Dadá é uma contestação absoluta de todos os valores, a começar pela arte” (ARGAN, 1992, p.353). É desta vanguarda que surge o objeto de arte mais contestador (e por que não irônico?) da arte moderna: A Fonte, de Marcel Duchamp (1887-1968). Ao deslocar um mictório de seu lugar original e apresentá-lo como obra de arte, com assinatura e tudo, Duchamp rasga as regras do jogo e muda a história da arte.

 

PRINCIPAIS EXPOENTES

Escolhemos alguns artistas e obras fundamentais do Modernismo para que você fique com gostinho de quero mais! Para visualizar as obras, basta clicar nos nomes sublinhados.

 

Impressionismo

Claude Monet (1840-1926): Nascer do sol, 1872, Museu Marmottan Monet, Paris, França

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919): Dance at Le Moulin de la Galette, 1976, Musée d'Orsay, Paris, França

Édouard Manet (1832-1883): Almoço na Relva, 1863,  Musée d'Orsay, Paris, França

Edgar Degas (1834-1917): A aula de dança, 1871-1874,  Musée d'Orsay, Paris, França

Berthe Morisot (1841-1895): Child in the Rose Garden, 1881, Wallraf-Richartz Museum, Colonia, Alemanha  

Mary Cassatt (1844-1926): Mother Combing Her Child's Hair, 1879, Brooklyn Museum, Nova Iorque, EUA

 

Pós-impressionismo

Paul Cézanne (1839-1906): As banhistas, 1898-1905, Philadelphia Museum of Art, Filadelfia, EUA

Van Gogh (1853-1890): A noite estrelada, 1889, MoMA, Nova Iorque, EUA

Paul Gauguin (1848-1903): As Mulheres do Taiti, 1891, Musée d'Orsay, Paris, França

Edvard Munch (1863-1944), O Grito, 1893, Galeria Nacional, Oslo, Noruega

Georges Seurat (1859-1891): Banhistas em Asnières, 1884, National Gallery, Londres, Inglaterra

Henri Matisse (1889-1954), La Danse II, 1910, Hermitage Museum, em São Petersburgo, Rússia

 

Expressionismo

Grupo Die Brücke (A Ponte):

Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938): Pintura de rua em Berlim, 1913, Neue Galerie New York, Nova Iorque, EUA

Grupo Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul):

Franz Marc (1880-1916): Cavalo azul, 1911, Lenbachhaus, Munique, Alemanha

Wassily Kandinsky (1866-1944): Fuga, 1914, Beyeler Fondation, Riehen, Suíça

 

Cubismo

Pablo Picasso (1881-1973): Les demoiselles d’Avignon, 1907, MoMA, Nova Iorque, EUA |

Violino e uvas, 1912, MoMa, Nova Iorque, EUA | Guitarra, 1913, MoMA, Nova Iorque, EUA

Guernica, 1937, Museo Reina Sofia, Madri, Espanha

Georges Braque (1882-1963): Garrafas e peixes, 1910-1912, Tate Modern, Londres, Inglaterra

 

Futurismo

Filippo Tommaso Marinetti (1876 - 1944): Manifesto Futurista, 1909

Umberto Boccioni (1882 - 1916): Formas únicas de continuidade no espaço, 1913, MoMA, Nova Iorque, EUA

Curiosidade: um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos foi fortemente influenciado pelos futuristas. Exemplo disto são os poemas Ode Triunfal e Ode Marítima.

 

Dadaísmo

Cabaret Voltaire - Apresentação em 1916, disponível no YouTube

Tristan Tzara (1896-1863) e Hugo Ball (1886-1927): Manifesto dadaísta, 1916

Marcel Duchamp (1887-1968): A Fonte, 1917, Tate Modern, Londres, Inglaterra

Hannah Hoch (1889-1978): Pequeno Sol, 1969, Whitechapel Gallery, Londres, Inglaterra

Elsa von Freytag-Loringhoven, a Baronesa (1874-1927): foto da Baronesa, entre 1920-1925, Biblioteca do Congresso, Washington DC, EUA

 

Surrealismo

André Breton (1896-1966): Manifesto Surrealista, 1924

Joan Miró (1893-1983): O sorriso das asas flamejantes, 1953, Museu Reina Sofia, Madri, Espanha

Salvador Dalí (1904-1989): A persistência da memória, 1931, MoMa, Nova Iorque, EUA

René Magritte (1898-1967): A traição das imagens, 1928-1929, Los Angeles County Museum of Art (LACMA), Los Angeles, EUA

Maria Martins (1894-1973): O Impossível, 1945, MAM-Rio, Rio de Janeiro, Brasil

 

PARA ENTRAR NO CLIMA

Viaje para dentro das pinturas de Van Gogh através da exposição imersiva A noite Estrelada, realizada pelo Atelier des Lumières! Assista também ao longa metragem de animação Com amor, Van Gogh (2017), de Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Disponível no NetflixGoogle Play e YouTube.

 

Imagem: A noite Estrelada, obra de Vincent Van Gogh.

 

Em um dos filmes mais populares dos anos 1989 — Curtindo a Vida Adoidado — os personagens principais passam o dia no Art Institute of Chicago. Nesta visita, eles se divertem entre icônicas obras do Modernismo e o personagem Cameron até para na frente d‘Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Georges Seurat. Confira essa cena inesquecível aqui!

A Bauhaus foi uma das mais influentes escolas vanguardistas de arte, design e arquitetura na Alemanha entre 1919-1939. Tinha como propósito a criação de obras funcionais e até hoje é tida como inspiração para arquitetos e designers. Em comemoração ao centenário da Bauhaus, em 2019, tivemos o lançamento da série da HBO Bauhaus: A New Era, de Lars Kraume e o filme Bauhaus, de Gregor Schnitzler,  que aborda a importância das mulheres na escola. Você pode se aprofundar mais no tema com o documentário Bauhaus: The Face of the 20th Century (1994), de Frank Whitford, disponível legendado no Youtube.

Já tentou imaginar como eram as aulas da Bauhaus? A youtuber Vivi Villanova fez um vídeo curtinho propondo alguns exercícios de criação que a famosa escola fazia e você pode conferir aqui. Você também pode conferir o vídeo em que ela fala sobre as vanguardas artísticas. Disponível no YouTube.

Conheça as mulheres incríveis que fizeram parte das vanguardas modernistas na série de vídeos também do canal de Vivi Villanova (Vivieuvi) no Youtube, que traz 5 nomes importantes de mulheres para cada movimento artístico: Impressionistas, Surrealistas, Bauhaus e Dadas.

Assista ao filme Um Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel. Considerado uma das obras mais emblemáticas do cinema surrealista, o roteiro do filme foi escrito por Buñuel e Salvador Dalí. Disponível no YouTube!

A Fonte de Marcel Duchamp é um dos objetos de arte mais importantes do último século. Mudou todas as regras do jogo e continua a inspirar artistas por todo o planeta! Em 2009, a Tate colocou a obra num banheiro público de Liverpool e você pode ver a conversa interessante que rolou sobre essa ação neste vídeo aqui.

 

REFERÊNCIAS

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos.

Tradução: Federico Carotti e Denise Bottmann. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.

CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea: uma introdução. Tradutora Rejane Janowitzer. São Paulo: Martins, 2005.

Aula sobre Vanguardas Históricas e Arte Contemporânea. Disponível aqui.

 

 


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