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Donaldo Schüler, o erudito popular

“Isso de alta literatura e baixa literatura não tem sentido. Cultura é uma formação que se faz em todos os níveis”

 

Professor, tradutor e escritor, nascido em 1932, na cidade de Videira, Santa Catarina, Donaldo Schüler é responsável pela primeira tradução integral no português de uma das obras mais importantes da literatura ocidental, “Finnegans Wake”, de James Joyce, tido como um marco por desconstruir a linguagem tradicional. Também traduziu “Odisseia”, de Homero, para uma versão pocket da L&PM, com linguagem mais coloquial, voltada ao grande público.

Aos 93 anos, o professor aposentado de língua e literatura grega é capaz de encadear temas que se distanciam no tempo cronológico e são aparentemente divergentes em sua forma, como tragédia grega, repentistas nordestinos e ícones de redes sociais. Um erudito que vai do culto ao popular e que merece ser pacientemente ouvido em um tempo em que a interpretação aprofundada tem seu espaço ameaçado.

 

O senhor tem uma origem humilde. Filho de um pai que foi proprietário de uma bodega no interior de Santa Catarina e que lhe apresentou a literatura oral, a contação de histórias. Como se deu a aproximação com os livros? Quem te incentivou?

Meu pai foi um nômade. Saiu de Dois Irmãos, na Serra, casou com minha mãe, foram para Santa Catarina e aí que meu pai abriu uma bodega. Ele teve várias profissões, foi inclusive tropeiro. Ele tinha o terceiro ano do primário. A maioria da população brasileira era assim. Ele tinha uma cultura campeira e do Rio Grande do Sul. A literatura eu aprendi com meu pai, pela literatura oral. Essa navegação entre literatura culta e popular é da cultura latino-americana. Meu pai, como tropeiro, comprava uma tropa de cavalos que iam sendo negociados durante a tropeada. Eu aprendi com o meu pai como se calcula a idade do cavalo. O cavalo, com a idade, começa a arquear a dentada. A gente baixa o beiço do cavalo e calcula a idade dele pelo dente. Não posso dizer que ele era um homem humilde. Ele era um erudito popular.

 

Em que momento o senhor foi apresentado à literatura dos livros?

Fiz minha formação de segundo grau no seminário, onde tive um professor alemão que lecionava grego e latim. Ele tinha uma formação clássica profunda. Eu fui aluno do Guilhermino César (1908-1993), que escreveu “Uma História da Literatura do Rio Grande do Sul” e eu, por iniciativa própria, escrevi “A Poesia no Rio Grande do Sul” (1987). Então veja: foi a convergência do meu pai, do professor Guilhermino César e do professor de Grego. Aqueles cantos populares que resultaram na “Ilíada” e na “Odisseia” se parecem muito com o cordel nordestino. Quando estive no Nordeste, falei com cantadores (repentistas) do sertão e foi uma coisa fantástica. De modo que isso de alta literatura e baixa literatura não tem sentido. Cultura é uma formação que se faz em todos os níveis. E manter o contato entre esses níveis é o que renova a literatura. Guimarães Rosa revoluciona a literatura brasileira nas viagens pelo interior de Minas Gerais, quando entra em contato com o saber popular, e cria o “Grande Sertão: Veredas” (1956), que é a epopéia brasileira.

 

A sua tradução de “Finnegans Wake” foi a primeira na íntegra em português. Como surgiu a ideia?

As sociedades psicanalíticas de Porto Alegre, que é um grande polo psicanalista, começaram a se interessar por cultura e passaram a convidar pessoas para falar de cinema, teatro, entre outros temas. Eu fui convidado a dar uma palestra sobre mito. Então eu absorvi a formação psicanalítica de Lacan e, nesses encontros, discutia com os psicanalistas, de modo que a teoria lacaniana eu conheço bem. Quando apareceu, na década de 1960, a tradução de “Ulisses” de Antonio Houaiss, eu comecei a dar cursos, fazer comparativos entre o Ulisses de Joyce e a Odisseia de Homero. Surgiu uma disciplina chamada Literatura Comparada comparando textos gregos com textos nossos. Uma das sociedades psicanalíticas lacanianas em Porto Alegre estava interessada num curso sobre Joyce. O jogo de palavras que faz Joyce é introduzido na psicanálise, no processo analítico. A psicanálise de Lacan é toda literária, no sentindo da fala, da formação do sujeito na linguagem. O que nós, brasileiros, tínhamos? Os excertos de “Finnegans Wake dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Comecei a traduzir “Finnegans Wake” para esses encontros. Falei com um editor em São Paulo, o Plinio Martins, da Ateliê, e ele aceitou a ideia de publicar. Mas veja, eu não me dirijo espontaneamente à literatura. Nunca imaginei, quando jovem, me tornar escritor ou professor. Não tem emoção pessoal, é contextual. A cultura a gente se faz em grupo. Se eu tivesse nascido em outro lugar, a minha formação seria outra.

 

Imagino que traduzir Joyce tenha confirmado a noção de que a tradução não é simplesmente colocar em outro idioma, mas também criar. Queria que o senhor falasse da tradução enquanto ato de criação literária.

O início de “Finnegans Wake” em inglês é Riverrunn, past Eve and Adam’s. Aí começa a sobreposição. Ele faz camadas lingüísticas, desconstrói a língua e reconstrói poeticamente. River é rio e run é fluir. Isso pode ser entendido como “o rio flui” ou o imperativo em inglês em que ele, escritor, dá ordem ao texto. Quer dizer que o fluir do rio é o fluir do romance. O rio é personagem.  Ele feminiliza esse rio. O pétreo é masculino e o feminino é o fluir, fluir em todos os sentidos, inclusive na geração da vida. Muito bem, aqui você encontra a primeira dificuldade, porque rio, em português, é masculino, enquanto na imaginação de Joyce é feminino. Eu estou interessado em manter a sonoridade que a língua de Joyce tem, esse riverrun. Isso leva tempo. Então eu chego a “rolario”. Um dos nomes deste rio de Joyce é Ana, então eu incorporo o nome e fica “rolario Ana”. Aí eu feminilizei o rio. Não há possibilidade de uma tradução literal. Uma tradução literal seria uma destruição do romance. Essa recriação precisou ser feita em “Finnegans Wake” de linha em linha. Ele faz criações dessa natureza em todas as linhas. É um jogo de imaginação, e no momento em que você vai traduzir, tem que entrar dentro desse jogo. Foi uma reescrita, uma reinvenção do texto joyceano para a língua portuguesa.

 

O senhor traduziu cinco tragédias gregas. O que há em comum no ser humano dessas tragédias antigas e no atual? O que em nós ainda persiste?

A rebelião de 1968 na França foi um abalo universal. Pelas minhas informações, a mulher Francesa, antes de 1968, não emitia cheque. Veja só a situação. Houve uma reviravolta feminista na França que abalou o mundo. Na tragédia antiga, Antígona, de Sófocles, se rebela contra a tirania de Creonte, seu tio que assumiu o poder depois que os irmãos dela tinham morrido. E Creonte, arbitrariamente, decreta que o irmão que defendeu a cidade de Tebas receba todas as homenagens, e que o irmão que atacou Tebas não deva ser sepultado. Antígona faz uma homenagem fúnebre para o seu irmão, uma cerimônia de respeito à pessoa humana. E ela diz: “Ele é meu irmão e irei cumprir com o meu dever”. Ela se rebela contra Creonte. A mulher só aparece como mulher quando se rebela. Esse problema do patriarcado e matriarcado está na raiz da cultura européia, e Antígona está no centro dessa situação. De modo que se você recupera essa figura de Antígona, você pode repensar a situação da mulher na cultura ocidental. A mulher que não se constrói não aparece. O que dar para uma mulher que não quer nada? A mulher na situação patriarcal estava muito bem. Cuidava da casa, dos filhos, não queria outra coisa. Enquanto a mulher não resolve sair de casa para assumir funções públicas que não sejam domésticas, não tem o que se dar. Nós somos o que fazemos. É uma construção. Eu entendo isso a partir de Antígona, do quinto século A.C

 

O senhor fala da importância da palavra, da teorização, para a constituição do ser humano. E que as redes sociais estariam abolindo a palavra, pois são majoritariamente imagéticas. A palavra está ameaçada?

Existem jovens que não sabem conversar. Conheço jovens de 16, 17 anos que eu digo “bom dia” e eles não respondem. A palavra é um elemento que distingue a espécie humana das outras espécies. Quer dizer que perder a palavra é um processo de modificação. Há uma tendência contra textos longos. Ninguém mais tem tempo para ler romance e se ocupar com textos longos. Somos dominados pela imagem. Não seria justo contestar a civilização da imagem que nós somos. Veja o seguinte: você está alegre e coloca um ícone com os lábios para cima, indicando alegria. Se você está muito alegre, você manda três ícones. Se é uma alegria muito grande, você coloca cinco, seis ícones. Eu sei dos seus sentimentos? Só sei da sua alegria intensa. Enquanto você não falar comigo, não aprendo a sua alegria. Então não gera algo. O indivíduo foi esmagado. A criação se dá no indivíduo. A existência humana começa em cada um de nós. Trata-se de inventar o homem. Em vez de me colocar negativamente frente aquilo que está acontecendo, mexer com aquilo que é oferecido para produzir algo que possa contribuir para que o ser humano reflita diferentemente sobre si e sobre a sociedade. É um efeito de descoberta. Isso é a poetização da vida. O ícone favorece a comunicação rápida. Mas chega um momento em que a comunicação rápida não satisfaz mais. Você quer ser considerado como pessoa, você tem sentimentos que quer transmitir. Se eu entrar num restaurante e for atendido por um computador em vez de um garçom, vou me sentir mais solitário. Temos que refletir sobre nossa condição positivamente agora e agir sobre ela.

 

O que significa ser um erudito numa sociedade em que o conhecimento é produzido de forma instantânea pela inteligência artificial?

Até a agricultura está sendo dirigida pela inteligência artificial. Na cultura da uva aqui na serra gaúcha, os agricultores colocam roseiras para proteger a uva contra insetos. A mecanização da agricultura perde a possibilidade de você entrar em contato com a planta. O agricultor pode estar sentado no seu escritório observando de longe todo o território que cultiva. Agora, coloque-se diante de uma rosa sem interesse econômico nenhum. Você quer perder isso? Entregar para a inteligência artificial? A inteligência artificial não nos destruirá se nós não permitirmos. Essa conversa que estamos tendo aqui não se resolve por ícones.

 

O senhor nasceu em 1932, logo após a Primeira Guerra Mundial, foi criança durante a Segunda Guerra, via a ascensão do capitalismo, Guerra Fria, feminismo, tecnologia, entre outras transformações sociais. Como é olhar a vida aos 93 anos?

Nós tínhamos, a partir de Darwin, uma concepção da evolução do homem. Quando você vê uma grande democracia se tornar uma ditadura, ter diante de si a imagem de um mandante que não pensa, que dá ordens completamente irracionais, conduzido ao posto por voto popular democrático... Uma democracia pode se transformar numa tirania. Devemos mudar essa noção de que o negócio está evoluindo. Mas temos que usar esse termo “evolução” com critério. Nosso universo hoje não se sabe onde termina, nem se sabe quantos universos existem, e há fotografias. Há bem pouco tempo, se eu precisasse de um livro, tinha que ir à biblioteca porque não tinha em outra parte. Hoje os meios de comunicação te fornecem toda a bibliografia que existe no mundo, à sua disposição.

 

Sua grande paixão literária é Guimarães Rosa. Gostaria que falasse o porquê.

Gosto muito de Guimarães Rosa e utilizei dele para traduzir Joyce. “O Grande Sertão: Veredas” começa assim: “Nonada”. Uma palavra só. É o Ribaldo que está falando. Aí você já tem um problema. Nonada significa uma ninharia, um nada. Você está no nada, diante do nada. O que significa isso? “Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não”. E aí você tem uma expressão que foge de toda coloquialidade. Há Diadorim, que é uma mulher que se veste de homem, por quem Riobaldo sente fascínio, mas não entende. Em alguma parte do romance, ele diz “O sertão é o mundo”. O mundo em que o homem se coloca diante do nada. É um romance atualíssimo. Ele nos faz lidar com Goethe, com a literatura antiga e com um universo que se abre. Em “Grande Sertão”, eu lido com o feminino para me definir. É uma epopéia encantadora. Leio o romance e isso me projeta para todos os lugares possíveis. É o contrário de um ícone. Não há como fugir de “Grande Sertão”.


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