Pedro Rivero, o cineasta amigo de Porto Alegre
“O importante do filme são as perguntas que ele semeia”.
Roteirista do filme “O Poço”, um sufocante suspense distópico em que pessoas são mantidas em diferentes camadas de um profundo poço e tentam sobreviver com a escassa comida que deve ser dividida entre todos, o cineasta espanhol Pedro Rivero tornou-se um amigo de Porto Alegre. Isso graças ao Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre – Fantaspoa, que desde 2005 traz inúmeros realizadores audiovisuais de diferentes países e do qual costuma participar exibindo seus trabalhos e ministrando masterclasses.
Nesta entrevista ao Instituto Ling, Rivero falou sobre o sucesso atingido com “O Poço”, um dos filmes em língua não-inglesa mais assistidos da Netflix, inclusive a sequência do longa, lançada em 2024, a expectativa para que as animações, outra vertente de seu cinema, obtenham reconhecimento entre o público adulto, e a busca pela valorização de todo cinema que foge dos estereótipos de Hollywood, como o brasileiro.
Você participa de muitos festivais de cinema. Qual é a importância do Fantaspoa no circuito dos festivais?
Os festivais dependem do quanto levam a sério a si mesmos. Há festivais muito importantes, como o Festival de Sitges, na Espanha, um festival de cinema fantástico que tem como foco o cinema industrial. No caso do Fantaspoa, é um festival que não coloca foco na indústria, e sim nos realizadores audiovisuais e nos próprios fãs de cinema.
O Fantaspoa é uma festa para fãs do cinema fantástico e para os trabalhadores que fazem esse tipo de filme. Isso cria um ambiente muito amigável, em que todos os realizadores que têm sido convidados seguem compartilhando e, de fato, alguns de nós seguimos tendo contato em grupos de WhatsApp, onde falamos bobagens, enviamos vídeos selvagens e essas coisas, mesmo depois de passados anos.
O Fantaspoa realmente permite que a gente crie um vínculo com outros realizadores que moram em outros países. É o festival de gênero fantástico mais importante da Iberoamérica. Então, sobretudo para todos os realizadores ibero-americanos, ele é importantíssimo.
E, talvez, desde a Europa, em que muitas vezes as produções não são tão independentes, são mais industriais, acaba-se dando foco a outros festivais, mais relacionados com o próprio continente, ou pensando em conquistar a América, como sempre. Mas, sem dúvida, para os realizadores ibero-americanos, o Fantaspoa é um festival de referência.
As duas animações que você dirigiu, o curta “Birdboy” e o longa “Psiconautas”, são animações muito densas, que fogem do estereótipo de animação infantil. Quais são os desafios para que os filmes de animação conquistem mais público e ganhem prestígio como cinema para adultos?
Desde o momento em que se decide fazer um filme de animação que não é voltado ao público infantil ou ao público familiar, você já está aceitando ou assumindo que vai ter uma acolhida menor. Há exemplos, sobretudo na televisão, como séries como “South Park” ou “BoJack Horseman”, que são animações dirigidas para um público adulto; inclusive, em seu momento, “Os Simpsons” puderam romper um pouco esse tabu. Embora, com os anos, “Os Simpsons” tenham ficado rotulados como uma simples comédia — quanto antes a cancelem, melhor, não? ou vão se repetindo cada vez mais. Mesmo que você possa ter expectativas do que gostaria, de que o que você faz seja visto de forma massiva, isso é muito difícil em quase todos os países do mundo.
O público não está preparado, não está educado para ver animação para adultos, salvo em praticamente três países, que são os que deram maior importância aos quadrinhos: Japão, onde evidentemente temos muitas animações dirigidas para o público adulto; a França, onde também há uma cultura muito ampla de quadrinhos e também uma indústria de animação que faz cinema, e não só trabalha para o público infantil; e os Estados Unidos, onde também há, evidentemente, uma indústria de quadrinhos muito potente e onde há casos de animação para adultos.
Mas, tirando esses três países, há muito pouca aceitação desse gênero para adultos, que é fruto de uma ausência na educação, no costume de consumo de produtos desenhados que não sejam voltados para crianças.
“O Poço” (2019) faz uma crítica contundente do capitalismo e da sociedade dividida em classes. Você escreveu o roteiro em parceria com o David Desola. Quais foram as inspirações de vocês para esta história, houve algum acontecimento específico ou alguma experiência pessoal que ajudou a moldar essa abordagem?
O David conta que teve a ideia depois de uma refeição farta, em uma reunião familiar. Ele estava satisfeito, com a barriga cheia, e começou a imaginar que havia uma plataforma cheia de comida e que todo mundo pegava essa comida. Mas, como ele gosta de contar mentiras, não sei se é verdade ou não, ou se o que ele tinha em mente era fazer algo parecido com o filme “Cubo” (1997), em que os personagens estão todos encerrados em um espaço, divididos em ambientes, e precisam sair dali. Então, eu não sei muito bem o que motivou a ideia original.
No meu caso, quando ele me enviou essa primeira ideia — porque ele começou a escrever como uma obra de teatro, toda a primeira parte, o encontro dos dois protagonistas —, não tinha muito claro como iria continuar a escrever esse roteiro... ele focava mais como uma comédia... mas, quando chegou às minhas mãos, eu disse: “Aqui temos que fazer um drama, temos que fazer algo obscuro”. E, a partir daí, criei o monólogo selvagem do personagem Trimagasi, que é um veterano do poço, justificando por que ele tinha que comer o protagonista.
Dizia Orson Welles que tens sempre que dar ao antagonista a maior justificativa possível, a melhor justificativa possível. Que não se trata de retratá-lo como alguém que faz as coisas por pura maldade, senão que todo mundo tem sua própria lógica interna. Então, me concentrei nisso. E falamos bastante de algumas referências, como experiências em campos de concentração, os prisioneiros do Gulag, algumas leituras... Fomos nos sensibilizando para dar corpo a essa ideia.
Mas sempre houve um embate entre nós, porque o David pensava que isso tinha que ser uma comédia e eu sempre pensava que isso tinha que ser um drama. E, no final, veio o diretor (Galder Gaztelu-Urrutia) e fez um thriller, escolheu um caminho entre uma coisa e outra, e terminamos todos satisfeitos.
O “O Poço” foi um sucesso e ainda é um sucesso na Netflix. Vocês esperavam essa repercussão?
Como foi um filme de produção muito pequena, estávamos muito contentes com a ideia e com o roteiro. Quando terminamos de rodar, não tínhamos muita expectativa. Foi difícil de filmar, com muitas limitações e pouco orçamento. Mas eu sabia que o diretor — somos muito bons amigos — tinha muita capacidade de tirar vantagem de um orçamento baixo, porque ele trabalhou com publicidade e eu o vi fazer milagres.
Quando vi a primeira montagem do filme, pensei: “Sim, isso pode ir bem”. E esperamos que as coisas saíssem bem. E foram bem na estreia, como no Festival de Sitges... ainda que não tenha ido muita gente ver o filme nas salas de cinema da Espanha, onde ele estreou primeiro.
E, bom, fomos reconhecidos com alguns prêmios e indicações aos Prêmios Goya (principal premiação cinematográfica da Espanha, em que venceram na categoria Melhores Efeitos Especiais). E, sim, tínhamos alguma expectativa de que a estreia internacional fosse bem, que seria um filme que poderia ser bem-visto em todo o mundo. Mas logo superou totalmente nossas expectativas.
De repente, era um dos filmes mais vistos em todo o mundo. Ademais, estavam todos em casa — foi na época da pandemia —, então as pessoas não tinham muito mais o que fazer além de comer, conversar e ver filmes. E estávamos vendo o que estava acontecendo...
É difícil assumir que consegui realizar um sonho: escrevi um filme que foi o mais visto no mundo. Isso é algo que um roteirista, quando começa a fazer cinema, é o que mais deseja, que seu trabalho seja visto pelo maior número de pessoas possível. Além disso, com uma recepção relativamente boa, com críticas mais positivas do que negativas, e que também suscitou muito debate.
Sim, esperávamos que tivesse uma boa recepção, mas não tanta! E a verdade é que eu acho que ainda não temos plena consciência disso. Tivemos um pouco mais dessa consciência na hora de fazer a segunda parte, já que a primeira foi tão exitosa e nos deu tanto dinheiro — porque somos muito bons —, mas, tirando isso, creio que ainda é difícil de assumir; a gente não pode esperar que algo assim vá acontecer.
Partes de “O Poço” foram escritas em Porto Alegre. Você lembra quais cenas foram escritas aqui?
Sim, foi na primeira vez em que vim ao Fantaspoa, acho que em 2017, e estava escrevendo a cena que é um dos momentos mais difíceis do filme, quando a personagem de Antonia San Juan (Imoguiri) quer repartir a comida. Nesse momento, tínhamos que decidir como esse personagem evoluía e como íamos matá-lo, decidir como matar esse personagem. Quando voltei do Fantaspoa, contatei o diretor e encontramos a solução. Mas foi aqui em Porto Alegre que fiquei pensando em como matar esse personagem.
Você já declarou que costuma trazer crítica social aos seus filmes. Qual é o desafio de um roteirista e de um diretor para fazer com que um filme reflexivo, com uma crítica social, impacte o público emocionalmente sem ser didático e sem perder complexidade?
Eu acho que há um pouco de sorte em tudo isso que aconteceu com “O Poço”. Porque a ideia era suficientemente brilhante para que fosse alvo de diferentes leituras. E muitas coisas já vêm dadas pela premissa do filme. O fato de que algumas pessoas estão em cima e outras embaixo é um reflexo muito fácil e imediato de como a nossa sociedade funciona.
A tentação de querer ser discursivo e introduzir ideologia sempre está presente, porque estamos refletindo sobre esses temas sociais. Quando você lê sobre situações de opressão, você se torna consciente e, pouco a pouco, coloca isso na temática, mas não pode se descuidar de que se trata, sobretudo, de gerar uma ficção e não de dar um discurso. Porque o importante do filme são as perguntas que ele semeia.
Sempre que você faz um filme, especialmente um filme com uma temática social de fundo, você tem que evitar dar respostas, porque o importante é a pergunta. Vivemos sempre em uma tensão, em função de perguntas que não podemos responder. Conciliar igualdade com liberdade é a mãe de todas as batalhas desde o começo da civilização humana, e seguimos sem resolver esse problema. Não há um modelo social que dê conta disso. Estamos dentro de um mundo capitalista em que o preço da liberdade deixa de lado a igualdade. É difícil.
No filme, o que queríamos era incentivar o espectador a vestir os sapatos do protagonista e fazer a pergunta: “O que eu faria em uma situação assim? Sou capaz de conviver com a barbárie? De depender de condenar outros para me salvar? Ou posso ter algum tipo de ação solidária?”
É uma pergunta muito incômoda, porque todos vivemos em algum nível em que sabemos que há outros que estão abaixo. Desde o momento em que consumimos alegremente uma garrafa plástica de água, estamos contribuindo com um sistema que é injusto. Podemos ter atitudes que tornem as coisas um pouco melhores, mas é muito difícil resolver todo o desastre que esse sistema produz. Quem sou eu para dar uma solução?
Talvez um personagem possa, por si próprio, pensar que tem a solução. Desenvolvemos um pouco disso, sobretudo na segunda parte de “O Poço 2”.
Você está trabalhando em algum projeto agora?
Sempre estou com várias coisas ao mesmo tempo, mas agora estou bastante empolgado querendo adaptar um relato de um escritor húngaro que se chama Attila Beres, um dos escritores mais interessantes que li nos últimos anos. Ele faz um tipo de literatura que é ficção especulativa, joga com o fantástico, com elementos de terror, mas que são metáforas sobre a sociedade.
Especialmente ele, vindo da Hungria, um país que, até as últimas eleições, teve um personagem ditatorial, supremacista, machista. Vindo desse lugar de tanta repressão social, a literatura que esse autor faz é uma resposta fantástica, chave, a essa situação. Comecei a ler seus textos e fiquei maravilhado. Já o conhecia por um trabalho anterior que, no fim, nunca se realizou, mas mantivemos o contato em torno da literatura, e ele me contou, já faz um ano e meio, que ia publicar um livro com relatos seus no idioma espanhol.
Um dia fui a uma livraria e comprei. Mas foi como comprar o livro de um amigo, pensando que pode ser bom, mas sem uma grande expectativa. Então, fiquei dois meses com o livro sem tocar, e, quando comecei a ler... li um relato e era bom, li o segundo e era melhor ainda. Escrevi imediatamente para ele dizendo o quanto era bom, e perguntei sobre os direitos autorais... E disse: “Temos que fazer algo com isso!”. Logo começamos a desenvolver essa ideia e falamos durante um ano, até que finalmente nos encontramos no Festival de Sitges, pois ele apresentou um filme como roteirista. Eu fui até o festival só para conhecê-lo e porque estou convencido de que ele é um dos grandes escritores contemporâneos.
O cinema espanhol já tem bastante tradição e conquistas internacionais, principalmente por causa de nomes como Pedro Almodóvar, Penélope Cruz e Javier Bardem. E o cinema brasileiro ganhou bastante reconhecimento internacional por causa do Oscar a “Ainda Estou Aqui” e das indicações a “O Agente Secreto”. Você acha que o caminho do cinema brasileiro agora tende a ser de conquistas constantes?
Acho que o cinema brasileiro tem tido, nos últimos 20 anos, uma série de marcos muito importantes. Filmes que foram vistos internacionalmente, como “Cidade de Deus” (2002), “Tropa de Elite” (2007) e, agora, “O Agente Secreto” (2025), como títulos principais. São filmes muito bem realizados, o que demonstra uma coisa: que, quando realmente se colocam os meios para fazer um filme desse nível de excelência, tanto faz que seja brasileiro, argentino, espanhol ou norte-americano, é possível fazer.
Talvez o desafio que têm todas as cinematografias que não são norte-americanas ou francesas — porque, na França, o cinema é muito bem protegido, consolidado — é que, durante muito tempo, nos consideramos cineastas de segunda categoria. Porque, como não tínhamos os meios industriais para fazer esse cinema que se destaca, não tínhamos as estrelas do cinema, parece que tudo que fazem os norte-americanos em Hollywood é muito melhor. Como se fossem muito melhor preparados e nós, uns bobos.
Se fazemos filmes com baixo orçamento é porque não merecemos fazer o melhor. Mas as plataformas de streaming e filmes como “O Poço” demonstram que, se há a possibilidade de exibir seu filme, talvez não sejamos tão ruins. E acho que nos libertamos de um grande complexo de inferioridade.
Nós tivemos essa oportunidade com “O Poço”, mas há outras cinematografias que também estão tendo essa oportunidade, como uma série da Coreia (“Round 6”), que se converteu na mais vista do mundo. E, assim, vai seguir acontecendo. Há essa produção argentina, “O Eternauta”, que também foi a mais vista no seu momento (série de língua não inglesa mais assistida na plataforma Netflix). Isso pode acontecer com qualquer produção brasileira.
Toda indústria precisa de apoio. Vivemos com o mínimo quase sempre, né? É necessário que haja políticas governamentais de apoio ao cinema, porque é uma indústria que gera emprego, além de projetar uma imagem positiva do país.
A sensação que se tem ao assistir a um filme como “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” ou “O Agente Secreto” é que o Brasil é um país maravilhoso. Um país com um potencial enorme de fazer bom cinema: bem interpretado, bem escrito, bem fotografado. A cinematografia brasileira não tem que ter nenhum complexo de inferioridade.
Quem é seu diretor preferido e como o trabalho dele influencia o teu cinema?
Difícil escolher um diretor, mas o que mais me influenciou foi David Lynch. Aos 10 ou 11 anos assisti a “O Homem Elefante” depois de convencer minha mãe a me levar ao cinema, porque era proibido para menores de 14 anos. Foi um “match” imediato.
A carreira dele sempre me fascinou, porque ele assumiu riscos e fez coisas que estavam na contramão do que se faz geralmente, como a capacidade de desdobrar personagens numa narrativa não linear, mas com coerência emocional, como em “Cidade dos Sonhos” (2001) e “A Estrada Perdida” (1997).
E também Akira Kurosawa. Sua obra tem um impacto muito forte. O cinema do Ingmar Bergman também me influenciou, um cinema inteligente, que trata de coisas mais profundas. Esse é o tipo de cinema que me formou como cineasta. No caso do Akira Kurosawa, inclusive, escolhi o nome Akira para meu filho, como uma homenagem!
Do Lynch, talvez o que mais se reflita na minha forma de produzir, o que mais me inspira, é o seu atrevimento e também a atenção especial aos detalhes, a capacidade de criar uma atmosfera. Apesar de eu ser roteirista — porque parece que os roteiristas privilegiam a história ou o argumento acima de tudo, mas isso é um equívoco —, o cinema não é só a história, e sim a maneira como se transmite essa história.
E, para perceber essa história, é preciso criar um vínculo emocional com o espectador. É dessa maneira que o Lynch consegue — mas não faço como ele faria; busco ter essa sensibilidade, me colocar nesse lugar, estar atento aos detalhes.