Os milagres do cotidiano no Manual da Faxineira Foto: Jeff Berlin

Os milagres do cotidiano no Manual da Faxineira

 

“Com a sra. Armitage tinha sido diferente, embora ela também fosse velha. Isso foi em Nova York, na lavanderia San Juan, na rua 15. Os donos eram porto-riquenhos. As máquinas transbordavam espuma pelo chão. Eu era uma jovem mãe na época e lavava fraldas nas manhãs de quinta-feira. Ela morava no apartamento em cima do meu, o 4-C. Uma manhã, na lavanderia, ela me entregou uma chave. Disse que se eu não a visse às quintas-feiras isso queria dizer que ela tinha morrido e perguntou se eu poderia por favor ir lá encontrar o corpo dela. Era uma coisa terrível de pedir a alguém; além disso, desse dia em diante eu me vi obrigada a lavar roupa às quintas-feiras. (trecho do conto Lavanderia Angel´s)

 

Eleito um dos 10 melhores livros do ano de 2015 pelo New York Times, Manual da Faxineira fez de sua escritora uma sensação internacional dez anos após sua morte. Lucia Berlin usou sua própria vida como inspiração para os contos que falam sobre temas pesados, como alcoolismo e fracasso, sem perder a elegância e o bom humor. O livro foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2016, com tradução de Sonia Moreira.

 

O LIVRO

Em 2014, dez anos após a morte de Lucia Berlin, os escritores Michael Wolfe, Stephen Emerson e Barry Gifford se juntaram para apresentar às grandes editoras estadunidenses a coletânea de contos deixada pela escritora. Acreditavam que o conjunto de textos da amiga não merecia cair no esquecimento e conseguiram chamar a atenção da editora Farrar, Straus e Giroux e, em 2015, eles publicaram Manual da Faxineira.

A tentação de escorregar para falar da biografia de Lucia é grande, afinal, é incontestável o caráter autoficcional de seus contos, mas sua obra é bem mais que autobiografia — ela conta boas histórias de maneira original, que prendem e encantam o leitor no primeiro parágrafo. Sua escrita é direta e podia muito bem ser uma conversa entre amigos. Seus personagens, atrapalhados, esbarram nas suas próprias fraquezas, mas eles não são ridicularizados, canonizados ou explorados em suas desgraças. Ao contrário, ao não precisar condená-los ou absolvê-los, Lucia Berlin torna-os humanos. Seja o índio bêbado de Albuquerque, a grávida que conta o que viu numa clínica de aborto, a mãe que se apaixona pelo amigo do filho, a mãe alcoolista que vai comprar uísque de madrugada antes que os filhos acordem e até a beldade que sonha com Hollywood: é como se ela dissesse que todo mundo é igual no fundo.

Existe uma transparência radical na sua escrita. Lucia Berlin consegue como poucos descrever a vida íntima de seus personagens, muitos deles são mães solo, divorciadas e atormentadas, que foram ou são alcoolistas ou viciadas em outras drogas. Uma dessas mulheres, ao se deparar com marcas da idade, pensa:

“Pelo espelho, eu olhei para os meus próprios olhos e de novo para as minhas mãos. Manchas de velhice horrendas, duas cicatrizes. Mãos não indígenas, nervosas, solitárias. Eu via filhos, homens, jardins nas minhas mãos.” (trecho do conto Lavanderia Angel´s)

No livro, as emoções são exacerbadas, mas a linguagem não tem enfeites, é meio perdida e, ao mesmo tempo, muito precisa. As frases, às vezes, são fragmentos; às vezes, apenas palavras isoladas. A escritora fala da experiência e da rotina daqueles que têm trabalhos difíceis, pesados. Lucia Berlin trabalhou como enfermeira em um pronto-socorro e deu aulas para menores infratores. Ainda que tivesse um diploma universitário, trabalhou como faxineira e seu diploma fazia com que ela encontrasse resistência por parte das outras faxineiras. É ela própria quem fala através do personagem do conto que dá título ao livro:

“O ônibus está atrasado. Carros passam. Gente rica dentro de carro nunca olha para as pessoas na rua. Gente pobre sempre olha... na verdade, às vezes parece que elas estão só passeando de carro, olhando para as pessoas na rua. Eu já fiz isso. Gente pobre espera muito. Em postos de previdência social, filas de desempregados, lavanderias, cabines telefônicas, prontos-socorros, prisões, etc.” (trecho do conto Manual da Faxineira)

É muito provável que a experiência de seus empregos e a sua vida fatigante tenham feito com que ela conhecesse boa parte dos personagens incríveis que aparecem em sua obra. Lucia Berlin retira da realidade as histórias que tratam, por vezes, de vidas miseráveis e atitudes questionáveis, mas ainda assim não as julgamos. Sua maestria consiste justamente em apresentá-las de tal modo que não podemos sentir nada que não seja compaixão.

 

A AUTORA

A história de Lucia Berlin começa em 12 de novembro de 1936, em Juneau, no Alasca. Devido ao trabalho de seu pai como engenheiro de minas, sua família se mudou muitas vezes durante sua infância. Em 1941, ele é convocado para a Segunda Guerra Mundial e Lucia vai morar com sua mãe e a irmã na casa do avô, em El Paso, no Texas. Sua mãe e seu avô sofriam com o alcoolismo, doença que a escritora também enfrentou na vida adulta. Quando seu pai retorna da guerra, mudam-se para Santiago, no Chile, onde ela vive sua adolescência e juventude — esse é considerado um dos períodos mais prósperos na vida de Lucia e, como em toda a sua trajetória, é possível encontrarmos semelhanças dessa época em alguns de seus contos.

No ano de 1954, matricula-se na Universidade do Novo México, onde se forma e depois realiza o mestrado. Teve um conto publicado pela primeira vez na revista literária The Noble Savage, quando ela tinha 24 anos. Apesar da formação acadêmica, Lucia só conseguiu dedicar-se exclusivamente à carreira literária quando estava na meia-idade e seus filhos já haviam crescido.  

Aos 32 anos, já havia passado por três casamentos e sustentava seus quatro filhos sozinha. Em meio às dificuldades financeiras, trabalhou como faxineira, telefonista, enfermeira, assistente de médico e tradutora. Enfrentou o alcoolismo e acabou encontrando alguma redenção como professora universitária, já mais próximo do fim de sua existência.

 

Foto: Arquivo pessoal

 

Nos anos 90, ela publica pela editora Black Sparrow Press uma coletânea de livros composta por grande parte de seus contos: Homesick (1991), So long (1993) e Where I live now (1999). Em 1994, ela é convidada pelo poeta Edward Dorn para assumir o cargo de professora visitante na Universidade do Colorado. Berlin, aos 58 anos, passa a morar em um trailer em uma comunidade próxima à universidade; se tornando uma professora querida e popular entre os alunos.

Aos 64 anos, já com a saúde debilitada, decide se aposentar e passa a morar na Califórnia, para ficar perto dos filhos. Lucia Berlin faleceu em 12 de novembro de 2004, mesmo dia de seu aniversário. Parte da obra da contista foi recuperada em 2014 por escritores próximos a ela, com a publicação do livro Manual da Faxineira (2015). O restante da sua obra foi organizada e publicada pelo filho, Jeff Berlin, com os livros Anoitecer no paraíso (2018) e Bem-Vinda a Casa (2019). O último é composto por memórias, contos e cartas escritas por Lucia Berlin.

 

CURIOSIDADES

Você sabia que o livro Manual da Faxineira já foi publicado em mais de 21 idiomas?! E as publicações para mais 10 idiomas estão em andamento!

Durante o período em que morou em Santiago, Lucia aprendeu espanhol e tornou-se fluente no idioma. A paixão pela língua fez com que ela estudasse Literatura Espanhola na Universidade do Novo México e escrevesse sua dissertação sobre Cervantes. Chegou, inclusive, a trabalhar fazendo traduções de poemas medievais espanhóis.

Nos anos 70, foi professora em uma escola secundária de Oakland (Califórnia), onde dava aulas de Literatura Inglesa, Escrita Criativa, Teatro e Espanhol.

 

DICAS DO LING

 

REFERÊNCIAS

Críticas do livro Manual da Faxineira para o jornal The New York Times, escritas por Ruth Franklin e Dwight Garner.

Ensaio Fracasso e glória escrito por Marleth Silva para a Biblioteca Pública do Paraná.

Dez coisas que talvez não saiba sobre a escritora Lucia Berlin escrito por Jeff Berlin para o Jornal Observador.

Texto Lucia Berlin — Quando a história precisa ser ela mesma escrito por João Lourenço para o Blog da Companhia das Letras.