A migração como temática social em A hora da Estrela Imagem: Divulgação

A migração como temática social em A hora da Estrela

 

 

(Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes o outro. Se é pobre, não estará me lendo porque ler-me é superfulo para quem tem uma leve fome permanente. Faço aqui o papel de vossa válvula de escape e da vida massacrante da média burguesia. Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta. Embora a moça anônima da história seja tão antiga que podia ser uma figura bíblica. Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim).

(Trecho do livro A hora da Estrela, de Clarice Lispector).

 

Último livro lançado em vida por Clarice Lispector e ganhador do Jabuti de melhor romance, A Hora da Estrela conta a história de uma alagoana órfã que vai morar no Rio de Janeiro e trabalha como datilógrafa. Virgem, ingênua e solitária, Macabéa apenas vê a vida passar sem compreender muito bem o que lhe acontece. Ciente que a morte estava próxima, Clarice coloca um pouco de si em Macabéa e em Rodrigo, narrador-personagem da história, e nos revela seu processo de criação, assim como suas angústias sobre a morte.

 

OBRA

Macabéa, protagonista de A Hora da Estrela, é uma jovem que, tendo ficado órfã de mãe e pai, foi criada por uma tia que a maltratava. De corpo magro e sem beleza, ela é virgem, ingênua e solitária. Nada parecida com as “mocinhas” dos filmes que vemos por aí. Nordestina, se muda para o Rio de Janeiro, assim como muitos brasileiros, em busca de um emprego. Lá ela mora em uma pensão e precisa dividir o quarto com outras três moças. Uma delas lhe empresta um Rádio Relógio e seu único prazer é passar horas e horas ouvindo a programação. Acaba sendo contratada por Raimundo como datilógrafa. Ela não é atraente (como a colega Glória) ou inteligente e só não é despedida pela compaixão de Raimundo. Arruma um namorado, o simplório e ambicioso metalúrgico Olímpico, mas acaba sendo trocada por Glória. Vivendo uma vida que não parece lá muito empolgante, Macabéa decide ir a uma cartomante — que, no cinema, é vivido pela magistral Fernanda Montenegro — e é nas cartas de Madame Carlota que sua vida muda completamente.

Este livro pode ser visto como uma espécie de resposta às críticas que chamavam Clarice de alienada por não adentrar a temática social que estava em voga entre seus colegas contemporâneos. De maneira alguma, a autora sai do psicológico, do romance introspectivo que é sua marca literária, mas ela expõe a problemática social do Brasil e fala sobre a migração do nordestino, representado por Macabéa, e sua adaptação ao centro urbano do país. Ao falar da personagem, ela diz que Macabéa é “tão pobre que só comia cachorro quente”, mas que este não era o ponto do livro e sim a miséria anônima, a inocência pisada. “A história de Macabéa é a história de um fracasso coletivo, de um fracasso de cidadãos e de sociedade” (SIMON, 2009, p.72). E um fracasso que não tem fim, mesmo que o narrador insista em ter esperança no futuro.

A ausência do narrador no longa é a grande mudança entre o livro e o filme. O livro começa com a apresentação do narrador-personagem, Rodrigo S.M, que é quem vai conduzindo nosso sentimento ao longo da narrativa. Como se sua indiferença garantisse alguma neutralidade, ele é apático com relação a Macabéa e deixa a cargo do leitor ter ou não empatia por essa “moça anônima da história”. É curioso que Clarice tenha escolhido um homem para narrar essa história, principalmente em um livro que fala tanto sobre a questão da autoria. Ela problematiza a situação da narração e da escrita numa sociedade que marca tão bem papéis masculinos e femininos e que, geralmente, delega ao homem a tarefa de narrar (afinal, quem melhor para narrar a história de um vencido do que um vencedor?).  A diretora do filme, Suzana Amaral, escolheu focar sua narrativa em Macabéa, esta moça que parece, o tempo todo, estar sendo agredida por uma cidade que a engole.

 

“No caso de adaptações, acho que quando você faz a adaptação de um livro, você pode mudar os fatos, porém não pode mudar o espírito da obra - vamos dizer, a alma, a espinha dorsal da coisa. No meu caso, a minha preocupação era ser fiel a essa alma da obra. A Clarice diz assim: “o que me importa não são as palavras, é o sussurro por trás das palavras”. Isso está no livro, essa foi a minha preocupação básica na hora de filmar, na hora de encenar.”

Suzana Amaral em entrevista a Luiz Adelmo Fernandes Manzano

 

Suzana Amaral, em sua adaptação, teve o delicado trabalho de imaginar e criar aquilo que não está posto no livro, como o aprofundamento da personagem Glória, colega de trabalho de Macabéa. No filme, a presença da personagem ganha mais destaque do que no livro, para entendermos o que ela representa na vida de Macabéa, porque, apesar de trabalharem no mesmo local, elas são seres de universos distintos. Glória é a figura da mulher que Macabéa nunca será: desenvolta, curvilínea, cheia de pretendentes, mora no subúrbio e come carne todos os dias; enquanto ela, Macabéa, é magra, amarelada, sem expressão nem vaidade, não sabe o gosto que tem a carne e tem sua felicidade num gole de Coca-Cola ou num pedaço de queijo com goiaba. Leva a vida sem pretensão de futuro e sem exigir nada do presente, afinal, nem sabe do que tem direito e pouco se entende enquanto “gente”.

Além de ter conquistado o maior prêmio literário do país, o Jabuti, A Hora da Estrela arrecadou uma série de premiações em festivais de cinema. Entre eles, destacamos o Festival de Brasília de 1985, em que o filme ganhou 11 prêmios: Melhor filme, Melhor direção, Melhor roteiro, Melhor montagem, Melhor fotografia, Melhor cenografia, Melhor trilha sonora, Melhor filme do júri popular, Prêmio especial da crítica e ainda Melhor ator para José Dumont (Olímpico) e Melhor atriz para Marcélia Cartaxo (Macabéa).

 

 

AUTORA

Em 10 de dezembro de 1920, na pequena aldeia de Tchetchelnik (Ucrânia), nascia Haia Pinkhasovna Lispector que viria a ser Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira do século 20. Na época, a Ucrânia pertencia à Rússia e sua família partiu rumo à América três anos após a Revolução Russa, em 1917, devido aos conflitos, à miséria e à perseguição antissemita sofrida no país.

 

Foto: Acervo IMS/Reprodução.

Ao chegarem no Brasil, em 1922, os Lispector adotaram novos nomes e viveram por algum tempo em Maceió, no Alagoas, e depois, em 1925, fixaram residência em Pernambuco, no Recife. É no bairro da Boa Vista que Clarice viveu a infância, estudou e escreveu seus primeiros contos, que já tinham a característica de tratar das sensações humanas. Sua relação com Pernambuco era tão forte que, mais tarde, Clarice naturalizou-se brasileira e considerava-se pernambucana. A próxima parada da escritora foi o Rio de Janeiro, onde cursou a graduação em Direito e, no começo da juventude, trabalhou como professora particular e tradutora até assumir uma vaga de redatora e repórter na Agência Nacional, que marca o começo da carreira de Clarice no jornalismo. 

Em 1943, Lispector se casa com o diplomata Maury Gurgel Valente e, no ano seguinte, lança seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que logo chama atenção da crítica literária e conquista o prêmio de melhor romance da Fundação Graça Aranha. Junto a Maury, Clarice leva uma vida itinerante, morando em diferentes países, refletindo seus sentimentos e experiências na sua escrita, que é marcada pela presença do inconsciente.

Quando retorna ao Brasil, em 1959, após o término de seu casamento, a escritora passa a trabalhar como colunista do Correio Feminino no jornal carioca Correio da Manhã. Destaca-se, em 1967, pela publicação de suas crônicas no Jornal do Brasil. A obra literária de Clarice Lispector é formada por contos, crônicas, romances, cartas, literatura infantil e traduções de grandes clássicos, como obras de Agatha Christie, Anne Rice, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Algumas de suas obras mais aclamadas são os romances A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977), e os livros de contos Laços de Família (1960) e A Legião Estrangeira (1964).

Clarice Lispector faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário. Pouco tempo depois, foi ao ar pela TV Cultura a famosa e última entrevista concedida pela escritora ao programa Panorama. A pedido de Lispector, só deveria ser transmitida após sua morte. No ano seguinte, A Hora da Estrela recebeu o Prêmio Jabuti na categoria melhor romance; e foi publicado – com a ajuda de Olga Borelli, secretária de Clarice – o último romance em que a escritora estava trabalhando, Um Sopro de Vida – Pulsações, escrito entre 1974 e 1977.

 

CURIOSIDADES

O livro de Clarice também recebeu várias adaptações para o teatro! Em 2020, ganhou sua versão musical no espetáculo A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa, estrelado por Laila Garin, com direção e adaptação de André Paes Lemes, direção musical de Marcelo Caldi e trilha sonora original de Chico César! Confira aqui a música Vermelho Esperança, na voz de Laila Garin, composta especialmente para o espetáculo.

Você sabia que A Hora da Estrela foi o primeiro longa-metragem de Suzana Amaral? Em sua estreia no Festival de Cinema de Brasília (1985), o filme recebeu todos os prêmios da noite!

Marcélia Cartaxo, intérprete de Macabéa, recebeu o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim (1986) por sua atuação! A Hora da Estrela foi o primeiro filme da atriz.

 

DICAS DO LING

Assista a última entrevista dada pela escritora, pouco tempo antes de morrer, ao programa Panorama, da TV Cultura. A única exigência de Clarice é que a entrevista, única em TV, só fosse ao ar depois que ela partisse.

Conheça mais sobre a vida e obra de Suzana Amaral no Projeto Memória do Cinema, realizado, em  2012, pela Heco Filmes em parceria com o MIS (Museu da Imagem e do Som). Na entrevista, Suzana fala sobre o seu processo de direção e adaptação/transmutação de A Hora da Estrela. Assista aqui.

Confira o capítulo do podcast Cineclub Abismo dedicado à discussão do filme A hora da Estrela, de Suzana Amaral. Disponível no Spotify.

Ficou com vontade de ler e ver A Hora da Estrela? Compre o livro na Editora Rocco e veja o filme no YouTube.

Você sabia que existe uma versão do filme com audiodescrição para deficientes visuais? Ele pode ser assistido aqui.

 

REFERÊNCIAS

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998.

Tese de Doutorado de Cátia Castilhos Simon sobre Clarice Lispector e Machado de Assis. Disponível aqui.

Dissertação de Mestrado de Washington Luís Andrade de Araújo sobre a adaptação cinematográfica de A Hora da Estrela. Disponível aqui.

Cronologia de Clarice Lispector, escrita por Nádia Battella Gotlib. Disponível aqui.

Biblioteca Nacional Digital, biografia Clarice Lispector. Disponível aqui.

Decifre Clarice Lispector: vida e obra da escritora, escrito por Letícia Albuquerque. Disponível aqui.

Ficha técnica de A Hora da Estrela, pela Cinemateca Brasileira. Disponível aqui.