A Morte em Veneza e seu tratado sobre o fazer artístico Imagem: divulgação

A Morte em Veneza e seu tratado sobre o fazer artístico

“Não há nada mais estranho e melindroso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista — que se encontram e se observam diariamente, ou mesmo a toda hora, sem um cumprimento, sem uma palavra, forçadas a manter uma aparente indiferença de desconhecidos, por uma imposição de costumes ou por capricho pessoal. Há entre elas inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria de uma necessidade insatisfeita, artificialmente reprimida, de travar conhecimento e comunicar-se, e também, sobretudo, uma espécie de respeito carregado de tensão. Pois o ser humano ama e respeita seu semelhante enquanto não tem condições de julgá-lo, e o desejo é produto de um conhecimento imperfeito." (MANN, Thomas. Morte em Veneza, n.p.)

 

A OBRA

A novela A Morte em Veneza, escrita por Thomas Mann, foi publicada em 1913. Conta a história de Gustav von Aschenbach, um prestigiado escritor alemão de meia idade que passa por um período de bloqueio criativo e, tomado por um impulso, decide viajar para Veneza em busca de descanso. Lá ele fica hospedado em Lido – uma ilha situada na entrada da laguna de Veneza – e no hotel, encanta-se com o jovem polonês Tadzio, de apenas 14 anos, que passava o verão com a família (mãe, governanta e suas irmãs). Além da beleza, o que chama atenção de Gustav é o ar de liberdade emanado por Tadzio, que se destaca no meio de suas irmãs que assumem uma postura mais séria e contida, comportamento esperado das mulheres na época.

É importante compreender que o livro tem forte intertexto filosófico e podemos enxergar a narrativa como um tratado sobre o fazer artístico. Neste tratado, é possível perceber um diálogo com o conceito nietzschiano de apolíneo e dionisíaco: a tensão entre a razão (Apolo) e a desmedida (Dionísio). Enquanto Aschenbach é apolíneo, adepto da beleza comedida e harmoniosa, da organização; Veneza é dionisíaca, pois é bela, mas cheira mal, está afundando e é tomada por uma doença. Aschenbach sente ojeriza pela velhice e fica extasiado na frente do menino, pois é como se contemplasse a Beleza. Respondendo aos ideais platônicos, contemplar o Belo é como elevar o espírito ao estado mais puro do ser. Desde o momento em que o conhece, Aschenbach passa os dias a admirar tudo que diz respeito a Tadzio, assumindo um comportamento obcecado, inclusive perseguindo o menino pelas ruelas de Veneza. Atribui a ele o motivo de sua permanência na cidade.

A aparência de Gustav, criada por Mann, foi inspirada no compositor Gustav Mahler, que faleceu aos 50 anos, em 1911, na mesma época que o escritor estava em Veneza, onde a história nasceu. No filme de Luchino Visconti, de 1971, o diretor transforma o protagonista em compositor, trazendo para a tela o universo das músicas de Mahler. O filme é preciso na interpretação visual que faz da camada filosófica da obra. Outro diferencial no longa metragem é que a história começa quando Gustav já está no navio a caminho de Veneza, o que só acontece no terceiro capítulo do livro.

 

Foto: divulgação

 

Não podemos esquecer o que significa essa Morte anunciada no título da obra, que é representada em vários momentos ao longo da trajetória do protagonista. Desde o velho no navio até a figura do gondoleiro que leva Gustav para  Lido – representação de Caronte, o barqueiro de Hades, responsável pela travessia das almas – e, mais tarde, o cólera. Veneza vivia uma epidemia da doença, que era amenizada pelas autoridades, devido à preocupação com a perda dos turistas, principal fonte de renda da cidade.

Desde o início do livro, já sabemos o seu fim. Afinal, em algum momento deve acontecer a tal morte em Veneza. Gustav é cercado por ela o tempo inteiro, mas sucumbe apenas quando se entrega ao prazer do seu lado dionisíaco.

 

O AUTOR

Paul Thomas Mann nasceu em 6 de junho de 1875, em Lübeck, Alemanha. Foi escritor, romancista, cronista, ensaísta e crítico social. Recebeu o Nobel de Literatura, em 1929, pelo seu primeiro livro, Os Buddenbrooks (1901), e é considerado um dos maiores romancistas do século XX.

Filho de uma escritora brasileira, Júlia da Silva Bruhns, e irmão mais novo de um renomado romancista, Heinrich Mann, Thomas Mann já havia conquistado notoriedade literária antes dos 30 anos. Seu aclamado romance A Montanha Mágica (1924) lhe rendeu reconhecimento mundial.

Em 1905, ele se casou com Katia Pringsheim e tiveram seis filhos: o escritor Klaus, a atriz Erika, o historiador Golo, a ensaísta Monika, o violinista e literato Michael Thomas e a cientista Elisabeth.

Aos 36 anos, escreveu a novela A Morte em Veneza, que alia o seu já conhecido estilo rebuscado, prolixo e repleto de ironia romântica ao que é chamado de fase nietzschiana do autor. Nesta fase, ele explora o conceito de apolíneo e dionisíaco, forças opostas da criação artística. Para Nietzsche, nenhuma obra pode ser inteiramente uma ou outra força. Deve haver um equilíbrio entre a beleza harmoniosa e comedida representada por Apolo e o caos, a embriaguez e a paixão que são símbolos de Dionísio.

Thomas Mann foi um forte opositor do regime nazista, por isso teve sua cidadania subtraída e foi expatriado da Alemanha. Em 1938, ele e sua família partiram para o exílio nos Estados Unidos e só retornariam à Europa em 1952. Em Zurique, viveu até o fim de seus dias, em 12 de agosto de 1955.

 

CURIOSIDADES

Inspirado no livro de Thomas Mann, o espetáculo brasileiro Tadzio, escrito por Zen Salles, fala sobre um assunto delicado: a pedofilia. Para saber mais, clique aqui.

O filme Morte em Veneza, de Visconti foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1971 e ao Oscar na categoria Melhor Figurino em 1972.

Quando Hitler tomou o poder, Thomas Mann já era um escritor consagrado e virou porta-voz da resistência ao ditador alemão. Seus discursos transmitidos pela Rádio BBC eram um verdadeiro bombardeio ao Terceiro Reich.

 

DICAS DO LING

 

REFERÊNCIAS

MANN, Thomas. Morte em Veneza. Tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva. Edição Especial. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2011 (Saraiva de Bolso). Epub disponível aqui. Acesso em 06/07/2020.

Entrevista com Cláudia Dornbusch. Disponível aqui. Acesso em: 08/07/2020.

Artigo do Estado da Arte. Disponível aqui. Acesso em: 08/07/2020.

Revista Cinética. Disponível aqui. Acesso em: 08/07/2020.

Site CineSet. Disponível aqui. Acesso em: 10/07/2020.