Carlos Branco, o “cara” da música no RS

Carlos Branco, o “cara” da música no RS

“O mundo inteiro reverencia a nossa cultura e isso tem que ser valorizado”

 

Além de ser um dos principais produtores musicais do Rio Grande do Sul, Carlos Branco marcou a arte e a cultura do Estado. Trouxe grandes shows nacionais e internacionais a Porto Alegre, criou festivais de música em cidades do interior e deu o pontapé para que a prefeitura municipal cobrisse o Auditório Araújo Vianna, na década de 1990. 

Dono da Branco Produções e responsável pela programação musical do Instituto Ling desde que o centro cultural foi fundado, em 2014, Branco segue fazendo girar a roda e garantindo não apenas acesso à arte e à cultura, mas trabalho para os artistas e a cadeia profissional envolvida nos espetáculos. 

Nesta entrevista concedida ao Instituto Ling, ele recupera um pouco da própria história, dos shows que já produziu e da importância das leis de incentivo para garantir acesso à arte.  

 

Você começou a estudar violão clássico aos nove anos e virou professor de música aos 14 anos. O que te levou a se envolver tão cedo com a música?

Meu pai era português, veio para o Brasil nos anos 1930, e minha mãe era alemã do interior do Rio Grande do Sul. Eles não tinham grande interesse em música. Minha mãe tinha alguns discos, entre eles um do Benito de Paula, mas nunca a vi ouvindo esses álbuns. Quanto ao meu pai, nunca o vi ouvindo música. Quando eu tinha uns oito anos, meu irmão e eu nos interessamos muito pelo rock dos anos 1960, como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Canned Heat. A mãe dava um valor para a gente comprar merenda e usávamos para comprar discos. Se um enxergava o outro comendo, dizia: “Ah, tu não vai comprar disco?!”. Um amigo mais velho viajava para a Argentina para comprar os discos para a gente. Assim nasceu o nosso interesse pela música. Fui estudar violão clássico aos nove anos na Faculdade de Música Palestrina, no Centro de Porto Alegre, e terminei os estudos aos 14 anos. Comecei a dar aulas lá. Tinha aulas no colégio e dava aulas de violão. Dei aulas para um monte de gente, como o Duca Leindecker e o João Maldonado (Ex-TNT). Vários professores de Música da UFRGS foram meus alunos. Depois, fiz faculdade de Música e comecei a dar aulas na faculdade também. Também tive uma banda chamada Quem Tem QI Vai, que foi até famosa entre 1981 e 1982. Dei aula até os 25 anos. 

 

Você montou a produtora em 1984. Como era a cena musical em Porto Alegre naquele tempo? Artistas internacionais de jazz e blues já vinham para cá?

Quando o Olívio Dutra se tornou prefeito de Porto Alegre (1989 a 1993), ele me convidou para ser coordenador de Música da Secretaria Municipal de Cultura e diretor do Auditório Araújo Vianna. E foi aí que comecei o trabalho de produção. Comecei a trazer shows importantes, como Hermeto Pascoal, Luís Melodia, Jimmy Cliff, Ian Gillan, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, entre outros. A gente também fazia muitos shows em parceria com outras produtoras. Produzimos muitos discos pela prefeitura, como uma série que apresentava diferentes gêneros musicais, e convidávamos sempre um jornalista para escrever o fascículo. Lançamos discos do Giba-Giba, da Banda Municipal de Porto Alegre, que nunca teve um registro em disco, além de muitos trabalhos em comunidades periféricas. Fiquei cinco anos e meio na Secretaria Municipal de Cultura. Também cuidei de todo o projeto de cobertura do Araújo Vianna. Quem levou a proposta para o prefeito fui eu, mas a ideia era da cidade, era uma coisa que se falava há muitos anos, desde que o Araújo foi construído (1964). Falei com o Tarso Genro (prefeito de Porto Alegre de 1993 a 2002), começamos o projeto com os arquitetos e quando o plano estava pronto eu saí da Secretaria Municipal de Cultura e abri a produtora. O primeiro show que fiz com a produtora foi o Paco de Lucía. Depois trouxemos BB King, Buddy Guy. Começamos com shows grandes. Eu sempre norteei a atuação da produtora para uma linha cultural, não de entretenimento. 

 

Nesses mais de 30 anos de atuação, no que a produtora conseguiu se distinguir?

Sem falsa modéstia, eu tenho muito conhecimento na área musical, sempre ouvi muita música, tenho 14 mil discos no meu escritório, e acho que isso distingue o nosso trabalho. Temos um conhecimento acumulado muito grande. Eventualmente até outras produtoras nos procuram pedindo conselhos. Às vezes as pessoas dizem “Ai, eu não gosto de jazz”, mas será que ela ouviu jazz realmente? Diz que não gosta de música erudita, mas ouviu mesmo música erudita? Na época em que eu estava na prefeitura, nós fazíamos muitos shows a céu aberto, trazíamos grupos para se apresentarem ao vivo na frente do Mercado Público. Certa vez – acho que era o Hermeto Pascoal que estava fazendo um show -, um rapaz em situação de rua chegou em mim e disse o seguinte: “Nunca tinha ouvido uma música em que as pessoas não cantavam e achei muito legal”. Aquilo me marcou muito. Isso norteou (?) o que eu queria fazer. Trazer para cá shows de jazz, blues, MPB, instrumental. Acho que a Branco Produções tem essa marca. Já fui convidado para ser jurado em festivais na França, Alemanha, México e Equador por causa da marca da empresa. Também fizemos muita curadoria de shows para centros culturais, aos moldes do que fazemos aqui no Instituto Ling. Durante 17 anos, fizemos a curadoria do Santander Cultural, oferecendo shows todos os domingos. Fiz isso no Santander Cultural em Recife, no Itaú Cultural, SESI Nacional, enfim, em vários centros culturais. 

 

Você é responsável pela programação musical do Ling e traz artistas de diferentes países, todos com um trabalho autoral e versátil. Como você descobre esses nomes?

Eu participo de muitos festivais de jazz direcionados para contratação de artistas. O Jazz Ahead, na Alemanha, por exemplo, onde eu já fui jurado, seleciona jurados no mundo inteiro que escolhem os artistas que vão tocar no evento. Esses artistas tocam para todos os festivais de jazz importantes e fazem shows de 30 a 40 minutos. Quando terminam o show, já se inicia a negociação com os agentes. Às vezes eu vejo os artistas nesses festivais, às vezes são os agentes que me enviam sugestões. Quando eu vou para esses festivais, faço em torno de 40 reuniões com donos de festivais, agentes e artistas. Esses eventos são lugares para fazer negócio. O Marco Mezquida, que esteve há pouco tempo no Instituto Ling (o show foi em setembro), eu o conheci num festival. Os festivais são importantes porque você vê os artistas tocando ao vivo, conversa com os agentes, cria-se amizade. 

 

A Branco Produções organiza vários festivais de música, como o Poa Jazz, o Festival de Choro da Serra Gaúcha e o Pianístico de Joinville. Como surgiu a ideia de criar festivais?

O Poa Jazz não é um festival que fazemos desde o início. Ele foi fundado pelo Carlos Badia (músico e produtor musical) e nós compramos uma parte. Entramos apenas na quarta edição do Poa Jazz. E o Pianístico de Joinville nasceu assim: eu era empresário do Miguel Proença, um dos pianistas mais importantes da história da música erudita brasileira, que viveu no Rio por muito tempo, e nós resolvemos juntar todos os discos dele em uma caixa. A partir disso montamos um projeto chamado Piano Brasil que viajava por todo o país, cidades grandes e pequenas, e o Miguel fazia um recital para adultos, outro para crianças e uma masterclass. Quando chegamos em Joinville tinha 500 pessoas para assistir ao recital. Tivemos a ideia de criar um festival de jazz na cidade. Chamamos a Albertina Tuma, que foi criadora do Festival de Dança de Joinville, para ser nossa sócia. O Miguel ficou um ano e se tornou presidente da Funarte. Ficamos apenas eu e a Albertina. Trazemos pianistas do mundo inteiro para Joinville. São vários shows com entrada franca, e todos com piano acústico, nada de elétrico, além de peças teatrais em escolas e workshops. É um festival muito bonito e hoje é o maior festival de piano da América Latina. Tenho outros festivais em Joinville: o Harmonia Jazz Festival e o Lyra no Choro, que eu organizo com o Mathias Sete Cordas. Ele e eu também produzimos o Festival de Choro da Serra Gaúcha, em São Francisco de Paula, que já está na quinta edição. Em São Francisco de Paula eu também realizo o Paralelo, que acontece na rua e reúne todos os gêneros musicais. O Mathias e eu também fizemos, neste ano, a primeira edição do Cambará Jazz Festival, em Cambará do Sul. A prefeitura esperava 800 pessoas e na verdade reunimos cerca de 3 mil pessoas! Veio gente de todo o Estado. Também temos o Santa Cruz Jazz and Blues Festival, que vai acontecer novamente no próximo ano. Estamos desenvolvendo um projeto em Campo Alegre, município próximo a Joinville, e um festival de jazz-latino em Balneário Camboriú. 

 

Existe uma ideia de que alguns gêneros musicais, como jazz e a música instrumental, sejam direcionados para a elite da sociedade. Como democratizar o acesso a esse tipo de música?

Os festivais em Cambará do Sul, Santa Cruz do Sul e São Francisco de Paula têm entrada franca e são realizados na rua. A melhor forma de democratizar é permitir que as pessoas tenham acesso. O próprio Instituto Ling, ao cobrar R$ 60 reais pelo ingresso de um show de jazz, está permitindo um show barato. Isso democratiza o acesso, mesmo com cobrança de ingresso. Presenciei um caso muito legal no Pianístico de Joinville. A gente sempre oferece um show em algum shopping da cidade, e um cara bem do interior de Santa Catarina chegou para mim perguntando o que ia acontecer ali. Expliquei que era um festival de piano e ele perguntou se podia assistir. Mostrei a ele a programação do festival, expliquei que era gratuito e o cara apareceu em todos os concertos. Esse ano ele apareceu em todos os shows novamente. Esse cara estava passeando no shopping, viu o piano, começou a curtir jazz e despertou para essa música. O grande objetivo dos nossos festivais é esse, que as pessoas tenham acesso a outros gêneros musicais, não só aquilo que está na moda. 

 

Imagino que esses festivais são realizados graças a leis de incentivo. Gostaria que você falasse um pouco da importância de leis como a Rouanet para a democratização da cultura no Brasil.

Em todos os meus discursos de abertura nos festivais eu falo da Lei Rouanet. Sempre enfatizo que essas leis são importantíssimas. Nenhum desses projetos existiria sem a Lei Rouanet. O trabalho mais forte do Ministério da Cultura hoje é a Lei Rouanet. Ela possibilita o acesso às mais diferentes formas de cultura. Se uma lei como essa acabar, será um grande problema para o país. 

 

Existem leis parecidas com a Rouanet em outros países?

Existe muito patrocínio de governos. Muitos artistas internacionais que vêm para cá têm patrocínio dos países deles, principalmente para passagens aéreas. Mas uma lei parecida com a Rouanet não tem. E muita gente aqui não conhece o funcionamento da lei. As pessoas distorceram e dizem que grandes artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso usam a Lei Rouanet. Não é verdade, eles não precisam de Lei Rouanet. Quem precisa são artistas menores. A nossa Oficina de Choro, que acontece aqui no Instituto Ling, existe graças à Lei Rouanet. Sabe quantos artistas já foram criados nessa oficina? Se as leis não existirem, projetos como esse não existem. E sem falar que a cultura gera impacto econômico. Quando temos Festival de Dança em Joinville, aproximadamente 14 mil dançarinos de todo o Brasil e de outras partes do mundo vão para lá, se hospedam, se alimentam. Existem dados de que a cultura gera mais retorno e tem menos subsídio do que o refrigerante e a indústria automobilística. A cultura responde por mais de 4% do PIB nacional. Qualquer lugar do mundo gostaria de ter a cultura do Brasil. Lá fora eles ficam deslumbrados com o que a gente tem aqui. O mundo inteiro reverencia a nossa cultura e isso tem que ser valorizado. 

 

Cite um artista que você se orgulha de ter trazido para cá:

O BB King (apresentou-se três vezes em Porto Alegre: 1986, 1995 e 1998) era um cara que eu ouvia desde guri, com meu irmão, assim como o Johnny Winter (apresentou-se em 2010 em Porto Alegre). Entre os brasileiros, me orgulho de ter trazido João Gilberto, Maria Bethânia e Hermeto Pascoal.

 

Um artista com quem você nunca trabalhou e gostaria de ter trazido para cá:

O Chico Buarque. Nunca fiz show dele. 

 

Seu músico preferido.

Muitos, mas o Miles Davis é o cara que sempre deu as notas certas, não exagera. Sempre admirei isso nele. É um cara importantíssimo no jazz, que depois foi para o jazz fusion, e sempre mantendo a qualidade. Ele sintetiza muito o que eu gostaria de ter sido como músico. 

 

Um artista contemporâneo que está surgindo e você recomenda ouvir:

O Marco Mezquida, que esteve aqui no Instituto Ling, é muito interessante. É um artista em quem as pessoas têm que ficar de olho, porque ele está crescendo muito. Agora, aqui no Brasil um artista que já está bem conhecido é o Amaro Freitas. Ele está nos grandes festivais do mundo. Outra coisa que está acontecendo no Brasil é o aumento de músicos de jazz que saíram das periferias, assim como o Amaro Freitas, o Josiel Konrad, o Jonathan Ferr, que também esteve aqui no Ling. Eles unem a música de onde saíram com o jazz, fazendo fusões muito interessantes.