Olinda Allessandrini, a pianista que torna a música erudita mais popular
“A inteligência artificial está tentando chegar na música clássica, mas ainda não consegue.”
Nascida em uma família de classe média em Caxias do Sul e estimulada desde tenra idade a tocar piano, Olinda Allessandrini tornou-se referência em música no Rio Grande do Sul. Não apenas pelo talento, mas pela capacidade de transitar entre diferentes gêneros – apesar dos laços profundos com a música clássica – e por ser uma mulher de vigor e carisma inigualáveis. Se existe o estereótipo do instrumentista erudito sisudo e distante, Olinda, cativante e eloquente na comunicação, desfaz essa imagem.
Nesta entrevista ao Instituto Ling, a pianista fala sobre o início da trajetória, os anos em que se afastou do piano para ser professora de matemática, a admiração por Chiquinha Gonzaga, o avanço da inteligência artificial na música e a alegria e o vigor que preserva com o passar dos anos.
Você tinha quase 20 anos quando veio de Caxias do Sul, onde nasceu, para tocar com a Ospa pela primeira vez. Você lembra em detalhes desse momento? O que sentiu?
Quando fui convidada para fazer a abertura dos Concertos para a Juventude, na época televisionados pela TV Piratini, eu conhecia muito bem o concerto de Tchaikovsky, tinha tocado junto com a gravação – a única que eu tinha, um disco que era o que todo mundo tinha –, e a sensação que tive era que eu estava em casa. Me senti muito feliz. Não fiquei com medo. Era a primeira vez que eu tocava com uma orquestra e se tratava de uma orquestra grande, num concerto considerado difícil. Foi maravilhosa a sensação.
Você começou a tocar piano com quatro anos. Qual é a importância desse estímulo ainda na infância?
O estímulo deve vir do nosso entorno. Tem muitos pais que colocam as crianças no piano, no violino, no futebol. Acho que, quanto mais experiências a gente tem na infância, mais vamos desenvolver nossas habilidades maiores. Desde adolescente, eu encaro desafios e provoco desafios para mim mesma. Faço isso até hoje. Por exemplo, ter aceitado o convite do Mathias Sete Cordas (violinista de Porto Alegre) para integrar um grupo de chorinho. Foi um desafio para mim, porque o chorinho é descontraído, é outra forma de estar no palco. Também estou escrevendo um livro sobre a história musical de Novo Hamburgo, em que vou traçando as influências que vieram da Alemanha e foram preservadas. Ninguém acredita que uma cidadezinha como Novo Hamburgo possa ter tido uma cena cultural e musical tão grande.
Você é uma grande fã da Chiquinha Gonzaga e inclusive já apresentou um espetáculo cênico e musical inspirado em sua vida e obra. Por que ela te encanta tanto?
Em primeiro lugar, porque ela foi uma pioneira como mulher. Em 1877, com 29 anos, ela já tinha dois ex-maridos. Isso, naquela época, era uma coisa totalmente escandalosa. Ela foi professora de piano, compositora, batalhou pelos direitos autorais dos compositores, escreveu operetas, fazia parte de grupos de choro, foi abolicionista, republicana... Ela estava envolvida em todos os acontecimentos do final do século 19 e início do século 20. No momento em que a pessoa se engaja em tantos movimentos, ela acaba fazendo sua vida acontecer em paralelo com a história do Brasil. A presença da Chiquinha na minha vida começou muito devagar, quase como se ela estivesse pedindo licença. Eu recebi um convite do Francisco Marshall (professor do departamento de História da UFRGS, pianista e ex-proprietário do StudioClio) para fazer uma apresentação sobre a Chiquinha. Dividi o espetáculo em três etapas: a Chiquinha jovem, a da meia-idade e, por fim, a Chiquinha mais velha, que relembra sua trajetória. Para cada fase eu escolhi uma roupa. Fiz muitas apresentações em Porto Alegre e até fora daqui. Trabalhar com a história da Chiquinha torna o ambiente muito leve e alegre, ao mesmo tempo em que nos dá muitas informações sobre a história do Brasil. Tenho um grande respeito pela figura dela, porque ela lançou desafios para si própria e foi respeitadíssima como compositora e pianista, e não pela vida particular. Além do fato de ser batalhadora, uma mulher que vendia partituras para comprar a alforria de músicos. Ela foi uma musicista que abriu caminhos, que se posicionava politicamente, que ajudava os colegas.
Sobre as Audições Comentadas, do Instituto Ling, em que você e o Tiago Halewicz explicam de forma didática a música erudita, qual tem sido o retorno do público?
As pessoas elogiam muito, primeiro porque os encontros são bastante variados. As músicas que a gente escolhe têm uma espinha dorsal. A gente não analisa só um compositor, só um estilo. Saímos do barroco, passamos pelo contemporâneo, vamos para um compositor russo, depois espanhol... Então o público sempre fica estimulado.
Você é bastante analógica e voltada ao manual, ao artesanal, à pesquisa dedicada. O que acha dessa onda de música feita com inteligência artificial?
Acho que vão existir dois mundos: a música erudita continuará como é, porque as pessoas gostam de voltar às raízes, de saber que foi uma mente humana que criou determinada obra musical. A inteligência artificial está tentando chegar na música clássica, mas ainda não consegue. A inteligência artificial copiou todas as características de ritmo, harmonia e instrumentação. Mas, na música popular, a inteligência artificial está se colocando mais. Muitos concursos e premiações já estão avisando que não aceitam obras com inteligência artificial. Acho mais fácil que a inteligência artificial se situe na música popular porque a exigência é menor, as harmonias são mais simples e as melodias mais banais. A sofisticação de uma obra erudita ainda não é alcançada pela inteligência artificial. Mas a briga é feia, porque há casos de concursos de composições populares em que há uso de inteligência artificial nas músicas e ninguém consegue notar.
Você estava despontando como um prodígio e, de repente, decidiu largar a música e se tornar professora de Matemática. Foram sete anos longe do piano. Como foi esse período?
Comecei a pensar que, por ser filha única, deveria ficar mais perto dos meus pais. E, nesse período afastada do piano, quando eu tentava tocar, o piano não soava como eu queria que soasse. Na verdade, eu gostava muito de matemática. Era realmente apaixonada e passava os finais de semana decifrando problemas difíceis. E sempre gostei muito de dar aula. Fui abandonando o piano, mas corrigia provas ouvindo música clássica. E a matemática foi tomando conta: trabalhei em escola de segundo grau, em universidade. Dava aula de cálculo diferencial integral nas universidades, uma disciplina muito difícil. Lembro de ter passado um verão inteiro estudando as aplicações de todas essas teorias na engenharia, arquitetura, física, e montei um sistema de aula em que eu dava o teorema, mas todas as aplicações práticas. Os alunos adoravam. Quando estava quase pensando em fazer um mestrado em matemática, voltei com um antigo namorado (atual marido de Olinda) e ele me disse: “Tu era tão talentosa ao piano, por que não volta a tocar?”. Aí voltei com toda a dedicação. Foi muito difícil. Quem iria acreditar em mim? Só eu. E tive muita sorte de morar em Novo Hamburgo, pois vinham muitos músicos da Alemanha, e me inseri muito bem. Fui ampliando repertório, me engajando em programações culturais, recitais, fui construindo uma vida dedicada ao piano. A matemática foi outra vida. A do piano é a que vale. Quando tomamos uma decisão, é porque acreditamos nela. Não tem como avaliar o que poderia ter sido diferente. Tudo o que acontece na minha vida acontece por minha decisão.
Além de uma exímia instrumentista, você é muito elogiada pela capacidade singular de comunicação com o público, algo raro na música erudita. De onde vem esse talento?
Quando eu era pequena, minha mãe me levava a concertos em Caxias do Sul. E eu sempre perguntava para ela: “Mãe, por que os músicos não dão nem boa noite?”. Eles entravam, tocavam e saíam. Eu achava estranho. Quando retornei para a música, comecei fazendo recitais didáticos em Novo Hamburgo para escolas estaduais. Comecei a movimentar toda a cidade, havia esquema de ônibus para os alunos. Tinha turmas muito interessadas e outras de alunos que só conversavam. Então eu sabia que precisava conquistá-los no primeiro minuto. Comecei a procurar uma história divertida, fazer perguntas para eles e, principalmente, chocar, eu gostava de dar um choque, apresentava músicas com dissonâncias, perguntava a eles o que achavam. Eles iam se atraindo por esse ineditismo. E eu sempre fui de falar pelos cotovelos.
Você teve uma professora de piano, a Dona Julinha, que sempre lhe incentivou a tocar o que você quisesse tocar e tornou-se fundamental na construção de sua autoconfiança como instrumentista. Ao mesmo tempo, você teve outra mulher na sua vida, a Dona Ignez, sua mãe, que era muito controladora e não queria que você voasse para longe. Como essas duas forças, essas duas influências femininas, pesaram sobre você e determinaram os seus passos?
Acho que a presença do meu pai foi a diferença. Ele era como eu, de enfrentar desafios e tocar as coisas para frente. Ele nunca deu qualquer palpite sobre minhas decisões, ao mesmo tempo que me dava muito apoio. Então meu pai compensou esse lado mais conservador da minha mãe. E a dona Julinha... Eu me admiro da maneira como ela agiu comigo, porque eu tocava coisas muito difíceis para a minha idade e para o ambiente de Caxias do Sul, que era um ambiente muito restrito. E a minha mãe, apesar de conservadora, tinha um entusiasmo que eu herdei. Eu tenho que cuidar com isso, de achar que tudo o que eu faço é muito bom. Eu sou bem perfeccionista, mas tenho que ter cuidado com o fato de achar que tudo o que eu faço está muito bom.
Essa autoestima é rara entre mulheres, não concorda?
Não sei, acho que as mulheres de hoje estão assumindo as suas personalidades, enfrentando muitas coisas e sendo bem corajosas. As mulheres de hoje em dia são muito mais presentes em suas próprias vidas do que as mulheres de cinquenta anos atrás.
Você foi a primeira mulher a se divorciar na sua família. Como foi a reação?
Para os meus pais foi um momento muito triste. Na verdade, para toda a família, principalmente para a família da minha mãe. Era aquele tipo de família bem conservadora de Caxias do Sul. Mas o meu pai foi um apoio muito grande nessa hora. Mas, depois de mim, aconteceram muitas separações na minha família. E, aos poucos, na cidade de Caxias do Sul aconteceram outras tantas separações.
Como você enxerga o circuito da música erudita no Rio Grande do Sul? Acha que tem espaços suficientes para esse gênero musical?
Acho que sim. Tem muitos movimentos que estão florescendo e outros já bem estabelecidos. Tem surgido muitas orquestras jovens, muita programação interessante. Há projetos sociais levando a música erudita para dentro de várias camadas da sociedade. Tem orquestra em Santa Maria, Vale Vêneto, em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Lajeado, Dois Irmãos. Tem gente que trabalha com canto e leva recitais para vários lugares onde não há nada, nem piano. Temos bons núcleos de música erudita que estão em expansão. E a iniciativa de falar durante os concertos tem se tornado frequente; não sou só eu que estou fazendo isso.
Enquanto a sociedade ainda tem uma visão melancólica e pessimista da velhice, você é elogiada pelo vigor físico e pela capacidade de acompanhar a Ospa em um concerto difícil como o 1º Concerto de Tchaikovsky. Além de tudo, você é uma pessoa muito alegre. Como você encara a própria velhice?
Envelhecer não é fácil para ninguém. Sempre digo que faço tanta coisa que não tenho tempo para ficar doente. A minha mãe tinha quase 80 anos e fazia muitas atividades. Então tenho que agradecer à genética. E descobri que a vida é mais fácil se a gente souber rir de si própria. Eu sempre estou contente. Encaro tudo com muita alegria. Sou tão privilegiada de fazer tanta música e ter tantos amigos... Para mim, a velhice é algo que ainda não consegui sentir. Meus colegas de 30, 40 anos me convidam para tocar. Às vezes penso: “Eles poderiam convidar alguém bem mais jovem”, mas convidam a mim. E nos divertimos nos ensaios. Realmente, eu sempre tenho uma coisa divertida para dizer e todo mundo ri. Encarar a vida com leveza ainda é importante. Se quiser botar a minha idade, eu deixo: tenho 77 anos.
Olinda, que transformação! Tu escondeste a tua idade durante quanto tempo?
Setenta e sete anos (risos). Com quase oitenta anos, não conheci ninguém como eu. Como eu trabalho com muitos jovens, não queria dizer a minha idade. Tem gente que vai me olhar de outro jeito quando souber a minha idade. Vão pensar: “O que essa velha está querendo fazer aí?”
E o que você está querendo fazer aí?
Ué, estou querendo viver, me divertir, fazer música. A convivência com os jovens deixa a gente mais jovial.
Olinda, o que você diria para as mulheres que estão investindo em algum sonho e se sentem inseguras?
Fazer o que se acredita já nos dá segurança. Tem que ter persistência e, principalmente, coragem para enfrentar. Tem que ter coragem para passar o teu recado, porque hoje em dia existe muita comparação. Mas temos que acreditar que cada um de nós é único e tem uma mensagem para passar – pode ser na arte, em trabalhos beneficentes, administrando empresas. Acreditar em si é o mais importante.