Pepe Rivero, o pianista de todos os ritmos: “Para mim, a música é uma só”
A música cubana tem grandes nomes, como a cantora Célia Cruz e o saxofonista Paquito D’Rivera, dois ícones com quem o pianista Pepe Rivero teve o privilégio de trabalhar. Atração do Instituto Ling em setembro, o músico, natural de Manzanillo e estabelecido em Madri há quase 30 anos, é um dos mais destacados músicos da nova geração musical de Cuba. Formado no Instituto Superior de Arte de Havana, ele herdou o gosto pela música ainda na infância, graças ao pai, que o estimulou. É um fã declarado da música brasileira, mas também de outros ritmos.
Nesta entrevista ao Instituto Ling, Pepe fala de sua vida em Cuba, das referências musicais e de música em geral:
Pepe, você vem de uma família de músicos e entrou muito cedo num conservatório de música. Como foi crescer nesse ambiente?
Desde que me entendo por gente, o primeiro músico que escutei em casa foi meu pai tocando saxofone. Somos de uma família de músicos. E esse foi o primeiro instrumento que escutei, o saxofone. Inclusive, era o instrumento que eu queria tocar. Aprendi a tocar um pouco depois que já era adulto. E, claro, minha formação é clássica. Eu sou de Manzanillo, e lá se diz “donde se baila el son en calzoncillo y en camisión" (onde se dança em cueca e camisola). Não sei se entenderá, mas é uma frase conhecida. Manzanillo é uma cidade pequena de pescadores e grandes poetas, de grandes músicos, grandes criadores em geral. E lá eu fiquei até meus quatorze anos e foi em Manzanillo que fiz minha formação. Depois me mudei para Camagüey, no centro da ilha de Cuba, e aí continuei meus estudos de música clássica. E depois fui à Universidade de Las Artes, em Havana, onde passei cinco anos estudando piano clássico, que foi o foco principal dos meus estudos. Mas toda a minha infância eu passei escutando música popular. Eu lembro quando criança, que meu pai sempre dizia aos pianistas do seu grupo: para as crianças, ensinem a tocar um “tumbao” (padrão rítmico típico da música cubana).Eu naveguei nas duas águas. Para mim, a música é uma só. Não gosto de falar de música clássica, música popular, porque o que foi popular em seu tempo depois foi convertido em clássico. Assim foi minha formação. Meu pai é multi-instrumentista, mas, quando era pequeno, lembro dele tocando o saxofone, escutando o Paquito D’Rivera. Ele transcrevia os solos do Paquito D’Rivera e Chucho Valdés. Ele me dizia: “Escuta esse pianista”. E, atualmente, para mim é um sonho, eu sigo me beliscando. Já faz quase 20 anos trabalhando com o Paquito d’Rivera, ídolo do meu pai e, acredito, de muitos músicos do mundo inteiro.
Você saiu de Cuba em 1998, aos 26 anos, para viver em Madri. O que motivou essa mudança e como essa experiência transformou a sua carreira?
Para ser sincero, na época em que eu vivia em Cuba, eu estava bem. Me formei na universidade, virei professor e trabalhava com grandes artistas, principalmente da salsa. Isaac Delgado, que é um grande cantor de Cuba, foi com quem comecei a fazer várias turnês. Até que houve uma proposta para ir para Madri. Era muito mais fácil ficar em Madri para fazer turnês pela Europa, no caso. Mas também é verdade que, claro, gostei da Espanha. E, no fim, decidi ficar por lá. Também um pouco fugindo... Bom, não quero entrar muito em questões políticas, mas eu também queria me sentir livre, livre de muitas coisas. E minha carreira, de fato, aconteceu ali, na Espanha. Espanha me abriu as portas, e vou agradecer por isso sempre. Foi onde gravei meu primeiro disco e desenvolvi muitos projetos. Tive a sorte de começar a trabalhar com flamenco e me desenvolver. Foi um lugar que me agradou desde o início.
Você ouviu Paquito D’Rivera e Célia Cruz, dois ícones da música cubana, ainda na infância. Que lembranças guarda desses primeiros encontros com a obra deles?
O meu primeiro encontro com Paquito D’Rivera nós não tocamos. Eu estava em turnê pelos Estados Unidos e fui morar em Nova York. E um amigo me perguntou: “Quer conhecer, ver onde vive Paquito D’Rivera?”. Sim, eu disse: "Quero ver a casa de Paquito D'Rivera". E, justo quando estávamos passando pela casa, Paquito estava na porta. E esse amigo era amigo de Paquito, toca o calipso. Ele o cumprimentou, e Paquito disse: “Venham, entrem!”. Justamente naquele momento, estavam comemorando o aniversário de outro grande músico. E estavam indo embora, por isso estavam na porta. E assim foi o meu primeiro encontro com Paquito. Lembro que ele dedicou um disco ao meu pai e me deu um manuscrito de “Mi vida saxual”, seu primeiro livro. Lembro que ele dedicou um disco ao meu pai e me deu um manuscrito de "Mi vida sexual", seu primeiro livro. Depois se passaram talvez quatro ou cinco anos, e acontece que ele foi para Madri. Quase tudo ocorreu ao mesmo tempo. Quando cheguei a Madri, pediram que a orquestra em que eu tocava acompanhasse a Celia Cruz em um programa de televisão ao vivo. Há uma história muito engraçada sobre isso. Como o programa era ao vivo, não houve ensaio. As partituras e a música foram enviadas previamente, mas a Celia chegou sem ensaiar. Fizemos apenas a passagem de som no estúdio de televisão. Eu me lembro de quando ela chegou e começou a olhar em volta. Antes, ela tinha outra banda que a acompanhava, e então começou a perguntar ao Miguel Bosé, que era o apresentador do programa, onde estavam os músicos. E o Miguel respondeu: “Não, Celia, esse grupo é a orquestra residente”. Acontece que nós éramos todos muito jovens, éramos meninos. Então ela disse: “De onde tiraram essa turma de jardim de infância?”. Depois ela chegou, cumprimentou todo mundo, começou o primeiro tema e, assim que a música terminou, virou-se para nós e começou a nos aplaudir. A partir dali trabalhei com ela durante cinco anos. Gravei discos e participei de diversos projetos. Mais tarde, foi organizada uma turnê com Celia Cruz, Paquito D'Rivera, Lucrécia e Albita, grandes artistas cubanos. Foi nesse momento que passei a ter um contato mais próximo com o Paquito. Fizemos a turnê juntos, e essa foi a primeira vez que toquei com ele. Bem, a vida segue e, infelizmente, a Celia falece. Depois disso, surgiu a oportunidade de realizar um festival de jazz latino. Foi o primeiro festival de jazz latino realizado na Europa, e eu era o diretor musical. O diretor do festival me disse: “Pepe, para esta primeira edição, você acha que poderia falar com o Paquito D'Rivera? Sei que vocês já têm uma boa relação”. E o Paquito aceitou participar. Justamente naquele mesmo ano eu gravei um disco chamado "Los boleros de Chopin", para o qual Paquito D'Rivera escreveu as letras. E foi assim que tudo começou. E já faz quase vinte anos! Sem dúvida, é o maior músico cubano que vive fora da ilha.
Qual foi o sentimento que você teve quando se deu conta que estava tocando ao lado de ícones da música cubana e mundial?
A primeira coisa que fiz foi me beliscar. “Isso é real?. Estou te contando isso agora e ainda assim não acredito. Para mim foi uma benção, uma sorte, uma honra poder trabalhar com este grande artista que é o Paquito e fazer parte da família musical. Recentemente, o último disco de Paquito, “La Fleur de Cayenne”, com a banda Madrid-New York Connection, foi indicado ao Melhor Disco de Jazz Latino no Grammy deste ano, e tive a oportunidade de trabalhar com Paquito na produção musical deste álbum. Para mim parece que é um sonho. Sonhos se realizam.
Tanto a Célia Cruz quanto o Paquito D’Rivera foram proibidos de serem ouvidos em Cuba. Quando você vivia lá, como chegavam até você essas referências musicais que despertavam sua curiosidade na juventude?
Ainda são proibidos. No caso de Célia, ela teve que sair de Cuba não porque fosse contra a revolução nem Fidel Castro, mas simplesmente porque não estava de acordo com o que estava ocorrendo. E, naquela época, ela foi considerada traidora da pátria. Sua mãe morreu e Célia queria voltar a Cuba para enterrá-la, mas Fidel Castro não permitiu. E com Paquito acontece o mesmo. Quando ele decide se estabelecer nos Estados Unidos, disseram que seu filho não poderia sair de Cuba. Mas a música é tão grande que, mesmo que Célia e Paquito tenham sido proibidos, as pessoas seguiram os escutando. Mas na rádio e na televisão eles eram proibidos.
Como teu pai reagiu quando você começou a tocar com Paquito D’Rivera?
Meu pai ainda vive e ele tem uma relação estreita com Paquito. Meu pai ganhou um clarinete dele. Cada vez que meu pai vai a Madrid, ele aproveita para contar a Paquito como ele o inspirou. Ele começou cantando, depois foi tocar conga e, por causa do Paquito, começou a tocar saxofone, pois ele é seu ídolo.
Sua formação passa pela música clássica, mas você também dialoga com o jazz, a bossa nova e o flamenco. Como essas linguagens convivem no seu processo de criação?
Eu adoro todo tipo de música. Acredito que só existem dois tipos de músicas: a boa e a ruim. A má música eu também respeito. Eu sou muito curioso com relação aos gêneros, sempre busco aprender. No caso da música brasileira, nós compartilhamos religiões, culturas, parecidas por causa dos nossos ancestrais. E acredito que não existe um cubano que não diga que ama o Brasil. Amamos a música brasileira. Faz parte da nossa música também. A bossa nova... todos os gêneros, não só a bossa nova, todos os grandes compositores... Agora eu estou maluco por Ernesto Nazareth (1863-1934), por exemplo. Ele faz loucuras na minha cabeça. Foi Paquito D’Rivera quem me apresentou Nazareth. Ele me disse: “Pepe, ouve este compositor”. Mas eu também sou fã número um de Cesar Camargo Mariano (pianista brasileiro contemporâneo, ex-marido de Elis Regina), para mim ele é o piano brasileiro. Em paralelo, em Cuba há compositores do século XIX, da mesma época, e é incrível ver que há uma parte que coincide. E estamos falando de uma época que não é como agora, que você pega um avião e logo chega. Nos perguntamos como acabamos coincidindo na síncopa. Cuba e Brasil têm uma clave musical parecida. Isso me encanta, como me encanta o flamenco. Na Espanha trabalho com grandes artistas, nomes muito importantes do flamenco. E, naturalmente, acabam aparecendo nas minhas composições. De alguma maneira, eu tenho composto bossa nova, bolero, jazz, música clássica. Meu último álbum, “Yoruba Suite”, é uma homenagem às deidades africanas iorubás. Aqui no Brasil, principalmente na Bahia e no Rio, é onde está mais assentado esse culto às divindades africanas, como Xangô e Iemanjá. Foi um ano inteiro de gravação, tudo muito complexo. É um disco clássico, com jazz, folclore, improvisação. Pude contar com um cantor genuinamente nigeriano.
Além das raízes africanas que marcam profundamente Brasil e Cuba, que outras aproximações você percebe entre os dois países?
Tenho muitos amigos brasileiros que vivem na Espanha, e somos muito parecidos na maneira de ser. Acredito que se deve à parte africana. E, bom, Portugal e Espanha estão aí ao lado. Há muitas coisas em comum, a religião católica.. Estamos integrados musicalmente. Como dizia um grande musicólogo cubano: “Quando um negro tocou um instrumento clássico, o violino ou o piano, a música mudou”.
Você toca em diferentes países de diferentes continentes. Como o público costuma recepcionar a música latino-americana?
Esta é a minha primeira vez no Brasil. Meu primeiro show foi no festival Pianístico de Joinville, um festival maravilhoso que reúne pianistas de todo o mundo. Aqui te recebem como uma família. O público da América Latina é diferente. Pelo que percebi nesta minha primeira experiência, o acolhimento é muito caloroso. As pessoas se aproximam, me contam que choraram; presenciei esse tipo de emoção. A plateia querendo tirar foto. Foram essas as vivências que tive aqui. Até hoje, nunca tinha sentido tanta emoção como senti aqui. Estou muito feliz.