O anti-herói que não conseguimos odiar em "O talentoso Ripley" Foto: Divulgação

O anti-herói que não conseguimos odiar em "O talentoso Ripley"

No próximo dia 04, a partir das 19h, te esperamos para o Adaptação – Entre a Literatura e o Cinema, com o professor de literatura e escritor Pedro Gonzaga e o jornalista e crítico de cinema Roger Lerina. Este é um material de apoio para que você possa dar os primeiros mergulhos na obra literária e cinematográfica desta edição.

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No ano do centenário da escritora Patricia Highsmith, a obra escolhida para o segundo encontro do Adaptação é o sofisticado thriller policial O Talentoso Ripley (1955), primeiro livro da série que acompanha a vida do golpista Tom Ripley e sua segunda adaptação para o cinema realizada em 1999, com direção do premiado Anthony Minghella.

 

“Dickie estava um pouco mais animado, mas Tom não conseguia afastar a sensação de que era a última viagem que fariam juntos a qualquer lugar. Para Tom, a delicadeza bem-humorada de Dickie durante a viagem de trem era como a de um anfitrião que procura a última hora disfarçar o ódio que sente por seu convidado. Nunca em sua vida Tom se sentira como um hóspede indesejado e aborrecido.”

 

(HIGHSMITH, Patricia. O talentoso Ripley, n.p.)

 

A OBRA

O romance acompanha a trajetória de Tom Ripley (interpretado por Matt Damon), um jovem sociopata de 25 anos que mora em Nova York e ganha a vida aplicando pequenos golpes. Sua sorte muda quando ele encontra o milionário Herbert Greenleaf, que reconhece Ripley como sendo um dos amigos de seu filho Richard Greenleaf (vivido por Jude Law), mais conhecido como Dickie, um jovem burguês que trocou a vida agitada de Nova York para viver em Mongibello, cidade ao sul de Nápoles, Itália. O pai de Dickie deseja que o filho desista da vida boêmia para retornar aos Estados Unidos e assumir os negócios da família. Movido por esta vontade e acreditando que Ripley, como amigo, tinha alguma influência sobre as decisões de seu filho, ele propõe a Tom viajar para Itália com a missão de convencer Dickie a voltar.  Ripley conhecia o filho do milionário apenas de vista, mas finge a amizade e parte rumo à Itália com todas as despesas pagas pelo pai do jovem.

A autora Patricia Highsmith não determina em sua obra a temporalidade em que se passa a história, mas no filme somos levados ao contexto da efervescência do jazz e uma Itália pós-guerra do final dos anos 1950. Quando chega a Itália, Tom busca de todas as formas se aproximar de Dickie, acompanhando sua rotina e conhecendo todos seus gostos para criar uma persona que desperte o interesse do filho do milionário. Os dois desenvolvem uma amizade com toques de obsessão por parte de Ripley, pois o personagem deseja seu afeto e, mais do que isso, ele quer ser Dickie! Apesar de nosso protagonista ser uma espécie de anti-herói, é impossível torcer para que ele fracasse em seus golpes, mesmo quando suas ações afetam a vida de terceiros. Na adaptação realizada pelo diretor Anthony Minghella, ele opta pela humanização do personagem de Tom, deixando seu jeito mais simpático em comparação ao personagem criado por Highsmith, que no livro aprofunda-se muito mais nas camadas da personalidade, trazendo elementos do passado do personagem que não são explorados no filme.

O espectador cria uma simpatia pelo personagem de Ripley, que tenta de todo modo se encaixar naquele mundo extremamente burguês e superficial de Dickie, pois o jovem tem todos a sua disposição e trata a companhia de seus afetos como coisas substituíveis, sendo uma figura tóxica em todas as suas relações de amizade e amores. Uma das escolhas interessantes do diretor é a mudança dos acontecimentos que culminam na morte de Richard: no filme é tratado como um momento de explosão inevitável de Ripley. Mas na obra original o plano é friamente calculado para matar Richard e assumir sua vida. No filme isso parece acontecer de forma impensada, mostrando um Ripley muito mais emotivo e abalado pela rejeição de Richard.

A morte do filho do milionário é a jogada de mestre de Ripley para ter a vida de seus sonhos e ele utiliza todos os seus talentos como imitador e falsificador para sustentar suas mentiras e assumir completamente a vida de Dickie.

 

 

A AUTORA

Patricia Highsmith foi uma romancista e contista, famosa por seus thrillers psicológicos intensos e originais. A escritora nasceu em 19 de janeiro de 1921, na cidade de Forth Worth, Texas. Na juventude estudou inglês, latim e grego na Barnard College, em Nova York. Teve seu primeiro conto publicado pela revista Harper 's Bazaar e lhe rendeu o Prêmio O. Henry de 1946, por The Heroine.

  Seu primeiro romance, Strangers on a Train, publicado em 1950, mostrou-se um sucesso de vendas e logo foi adaptado para o cinema. Em 1952, a escritora publicou o livro O preço do sal, mais conhecido atualmente como Carol, a obra havia sido rejeitada por sua editora americana por abordar abertamente um romance lésbico. Considerado um dos livros mais leves de Highsmith, eternamente lembrada por suas tramas intensas de perseguição protagonizadas por personagens masculinos, com Carol ela fugiu do esperado e se aproximou de sua vida pessoal, sendo um dos poucos momentos em que valorizou personagens femininos. Na época a escritora assinou o livro utilizando o pseudônimo Clare Morgan, pois não queria ser vista como uma escritora homossexual. Seu personagem de maior sucesso é com certeza Tom Ripley, que apareceu pela primeira vez no universo literário da autora em 1955, com o lançamento de O talentoso Ripley, que lhe rendeu os prêmios Edgar Allan Poe e o Le Grand Prix de Litterature Policiere e logo foi considerado um best-seller. Devido ao grande sucesso de Ripley, a obra foi adaptada para o cinema pela primeira vez, em 1960, sob o nome O Sol por Testemunha, do diretor francês René Clement, depois em 1999, pelo diretor Anthony Minghella. As obras de Patricia que continuam a sequência de Ripley também renderam várias adaptações para televisão e cinema.

Autora de mais de vinte livros, entre contos e romances, Highsmith sentia seu trabalho muito mais apreciado pelo público de leitores europeus e morou quase toda a vida adulta fora dos Estados Unidos. Em sua terra natal o reconhecimento por suas obras foi tardio, tendo a adaptação de Ripley, em 1999, como um retorno póstumo do nome da autora entre os leitores norte-americanos. Patricia Highsmith faleceu em 4 de fevereiro de 1995, na Suíça, onde vivia há muitos anos. Seus arquivos literários são mantidos na cidade de Berna.

 

CURIOSIDADES

Você sabia que o primeiro livro de Patricia Highsmith, Pacto sinistro (Strangers on a Train), foi livremente adaptado para o cinema, em 1951, por ninguém menos que Alfred Hitchcock!? O cineasta foi malandro e comprou os direitos autorais da obra de forma anônima para baratear os custos, pagando apenas US $7.500! Disponível para locação online na Looke.

As obras de Highsmith são fonte de grande inspiração entre os cineastas! A escritora já teve diversas obras adaptadas para o cinema, entre as mais famosas estão: O Amigo Americano (1977), de Wim Wenders, (disponível para assistir no Belas Artes a la Carte e Mubi) e Carol (2015) de Todd Haynes, disponível para locação no Google Play e YouTube Filmes.

 

 

DICAS DO LING

Um dos pontos altos do filme é sua trilha sonora embalada pelo ritmo do jazz! Disponível para ouvir no Spotify e YouTube Music!

Confira a entrevista realizada em 2000, para a coluna de Walter Salles na Folha de S. Paulo, com o diretor Anthony Minghella falando sobre o filme O Talentoso Ripley. Disponível aqui.

 

 

REFERÊNCIAS

HIGHSMITH, Patricia. O talentoso Ripley. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S.A, 1984. Disponível aqui.

Site Britannica. Biografia de Patricia Highsmith. Disponível aqui.

Site Choose Your Highsmith. About Patricia Highsmith. Disponível aqui.

Site À Pala de Walsh. Artigo Ser ou não ser: The Talent Mr. Ripley, escrito por José Bertolo. Disponível aqui.

New York Times. Artigo: In ‘The Talented Mr. Ripley,’ a Shape-Shifting Protagonist Who’s Up to No Good, escrito por Edmund White.  Disponível aqui.

Blog Bonas Histórias. Livro: O talentoso Ripley O maior sucesso de Patricia Highsmith, escrito por  Ricardo Bonacorci. Disponível aqui.