Onde os fracos não têm vez: uma história sobre o tempo e a violência na sociedade Foto: Divulgação

Onde os fracos não têm vez: uma história sobre o tempo e a violência na sociedade

 

Na primeira edição do Adaptação de 2021, o filme escolhido é o premiadíssimo e implacável Onde os fracos não têm vez (2007), adaptado e dirigido pelos consagrados irmãos Joel e Ethan Coen a partir da obra Onde os velhos não têm vez (2005), do escritor norte-americano Cormac McCarthy.

 

“Dizem que os olhos são a janela da alma. Não sei para onde aquelas janelas davam e acho que preferia nem saber.”

(MCCARTHY, Cormac. Onde os velhos não têm vez, pág. 7)

 

 

A OBRA

O romance de Cormac McCarthy e sua adaptação para o cinema nos leva a refletir sobre o envelhecimento e a brutalidade humana a partir do olhar do velho Xerife Ed Tom Bell, interpretado por Tommy Lee Jones.  A história começa com a narrativa de Ed sobre acontecimentos vividos em sua trajetória como homem da lei no Texas e relembra o tempo em que a lei era respeitada pelos homens – naquela época, os enfrentamentos e brigas eram menos brutais, não havendo necessidade de pegar em armas de fogo. O Xerife lamenta a mudança da sociedade e se sente envelhecido demais para continuar exercendo sua função em meio a tanta violência. Nesse contexto somos levados a conhecer o psicopata e matador de aluguel, Anton Chigurh (vivido por Javier Bardem), que representa tanto no filme quanto no livro a personificação do mal, pois por onde passa deixa sua marca de destruição e dificilmente é contido. Suas decisões são tomadas de forma sádica, como quando joga cara ou coroa para decidir o destino da vida de suas vítimas.   

O enredo deste western, que se passa no começo dos anos 80, é movido pela caça de Llewelyn Moss (Josh Brolin), um homem comum que encontra em uma de suas caçadas uma bolsa com 2 milhões de dólares, próximo a um local no meio do nada, onde aconteceu um conflito entre traficantes de heroína e quase todos foram mortos. Moss vê na bolsa uma oportunidade de mudar de vida e decide pegá-la e fugir sem pensar nas consequências. Chigurh é contratado para recuperar a quantia e acabar com a vida de Moss, levando muito a sério sua missão - para ele não importava encontrar o dinheiro, mas sim, caçar Llewellyn como uma presa. Moss representa na história uma espécie de “mocinho”, que acaba tendo sua trajetória alterada pelas más escolhas, afetando todos ao seu redor. Ele, que apenas buscava uma oportunidade melhor, passa a ter Chigurh, os líderes do cartel e o Xerife Bell na sua cola, o último sabia da boa índole de Moss e tenta salvá-lo.

Podemos perceber na adaptação uma escolha por centrar a história na perseguição de Chigurh, o que no livro é apenas um pano de fundo para as reflexões do Xerife Bell sobre a ganância e essência do bem e do mal. Tal escolha se dá pelo estilo de fazer cinema dos irmãos Coen, trabalhando a agressividade das cenas e dando mais movimento ao filme, mas sem perder a essência da obra de McCarthy.

A caracterização e personalidade de Chigurh é um dos pontos altos do filme, sendo um psicopata extremamente sério, que não esboça emoções, mantendo uma tranquilidade desesperadora nos momentos mais tensos da trama, causando uma sensação de angústia tanto em suas vítimas quanto nos espectadores. Seu cabelo é caricato e contrasta com sua imagem dura, assim como seus diálogos, que apesar do conteúdo agressivo das cenas, conferem um tom cômico ao trágico da carnificina apresentada na tela. A adaptação primorosa dos Coen tornou o filme umas das obras mais elogiadas da dupla, conquistando entre muitos prêmios, a estatueta do Oscar de Melhor Filme em 2008.

 

Foto: Personagem Anton Chigurh, interpretado por Javier Bardem.

 

O AUTOR

O premiado escritor norte-americano Cormac McCarthy é conhecido por seus romances ambientados no sul e sudoeste dos Estados Unidos, repletos de diálogos densos e centrados em personagens masculinos cheios de rebeldia, trazendo consigo a marca da violência.

Cormac nasceu em 20 de julho de 1933, na cidade de Providence, em Rhode Island, região nordeste dos EUA. Criado pela família dentro do catolicismo romano, ele frequentou a Catholic High School em Knoxville, depois foi para a Universidade do Tennessee, onde estudou Artes de 1951 a 1952. No ano seguinte, ingressou na Força Aérea dos Estados Unidos, em que serviu por 4 anos, passando dois deles no Alasca.

Seu retorno ao mundo acadêmico aconteceu em 1957, quando voltou para a universidade e publicou suas histórias A Drowning Incident e Wake for Susan na revista literária estudantil The Phoenix. Seu desempenho como escritor lhe rendeu o Prêmio Ingram-Merrill de escrita criativa duas vezes consecutivas, em 1959 e 1960. No início dos anos 60, mudou-se para a cidade de Chicago e começou a escrever seu primeiro romance, The Orchard Keeper, lançado em 1965, mesmo ano em que recebeu uma bolsa de estudos da American Academy of Arts and Letters, e com o dinheiro recebido viajou para fora da América do Norte rumo a Europa.

Em 1967, voltou para os Estados Unidos e no ano seguinte lançou seu segundo romance, Outer Dark, sendo bem recebido pela crítica. O promissor escritor recebeu mais uma bolsa de incentivo, desta vez, a Guggenheim para escrita criativa. Nos anos 70, além de lançar seu terceiro livro Child of God (1973), McCarthy trabalhou como roteirista no filme The Gardener's Son (lançado em 1977) e publicou um de seus livros mais elogiados pelos críticos literários, e considerado até hoje um de seus melhores romances, o Suttree (1979), que foi escrito ao longo de 20 anos e teve como inspiração muitos dos amigos do autor para criação dos personagens.

O escritor, ainda em atividade, é pouco conhecido pelos leitores brasileiros, mas suas obras mais relevantes e títulos mais recentes já foram traduzidos para o português, como Meridiano de Sangue (1985) e a trilogia da fronteira, composta pelas obras Todos os Belos Cavalos (1992), A Travessia (1994) e Cidades da Planície (1998), além de Onde os velhos não têm vez (2005) e A Estrada (2006), livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção em 2007.

 

CURIOSIDADES

Se você já assistiu ao filme ou ainda vai assistir, perceba que a trilha sonora é composta por quase silêncios absolutos, tendo foco para sons como: o trem que passa na ferrovia, o barulho das algemas tilintando, os passos tranquilos e firmes das botas de Chigurh. Essa ausência musical intensifica a sensação de tensão e suspense! Onde os Fracos Não Têm Vez possui apenas 16 min de música composta, incluindo os créditos finais. No artigo de Paulo de Tarso para o Cine em Cena, você pode conferir mais sobre como funcionam os silêncios no cinema! Disponível aqui!

O número de prêmios e indicações recebidos pelo filme é de tirar o chapéu! Segundo o IMDb, o filme ganhou 163 prêmios e recebeu 140 indicações. No Oscar de 2008, levou as estatuetas de Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante (para Javier Bardem, nosso temido Anton Chigurh) e Melhor Direção.

Você sabia que Javier Bardem hesitou em aceitar o papel de Chigurh? Quando foi procurado pelos Coen, apesar da vontade de trabalhar num projeto com eles, o ator disse que não era a pessoa certa para o papel, pois seu inglês era péssimo, dirigia mal e odiava violência. Você consegue imaginar outro ator vivendo Chigurh? Obrigado, irmãos Coen, pela insistência! Saiba mais curiosidades sobre o elenco aqui.

Você sabia que McCarthy já teve outras obras adaptadas para as telas? Algumas delas são: Child of God (publicado em 1974, filme adaptado em 2013), A estrada (publicado em 2006, filme adaptado em 2009) e The Sunset Limited (publicado em 2006, filme adaptado em 2012).

 

 

DICAS DO LING

Ficou com vontade de ler o livro? Conheça essa e outras obras de Cormac McCarthy disponíveis para venda no site da Companhia das Letras. Acesse aqui

O filme Onde Os Fracos Não Têm Vez (2007), está disponível para assistir nas plataformas: Telecine Play, Prime Video, Google PlayYouTube.

Conheça outros filmes dos Irmãos Coen, no estilo faroeste, disponíveis no Netflix:

Bravura Indômita (2010) e The Ballad of Buster Scruggs (2018).

 

 

REFERÊNCIAS

McCarthy, Cormac, Onde os velhos não têm vez [recurso eletrônico]; tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro : Objetiva, 2010. Disponível aqui.

Site Cormac McCarthy Society. Biography. Disponível aqui.

Site Cormac McCarthy Society. No Country for old men. Disponível aqui.

Cinema em Cena. O som do silêncio, escrito por Paulo de Tarso. Disponível aqui.

Crítica do The New York Times, escrita por AO Scott. Disponível aqui.