ERICA BUTOW, UMA GUERREIRA PELA EDUCAÇÃO

A paulista Erica Butow, 38 anos, tem como missão de vida transformar a educação no Brasil.  Mestre em Administração de Empresas (MBA) pela Universidade de Berkeley, lidera desde 2017 a Ensina Brasil, entidade sem fins lucrativos que promove a igualdade de oportunidades a estudantes brasileiros.

ERICA BUTOW, UMA GUERREIRA PELA EDUCAÇÃO

Para entender sua forte motivação, é necessário olhar para o passado: sua mãe nasceu em uma região muito pobre do sertão de Pernambuco, passou fome, começou a trabalhar muito cedo e cresceu analfabeta. Mudou-se para São Paulo aos 15 anos em busca de emprego.  E foi trabalhando como empregada doméstica que conheceu o pai de Érica. Ele era um juiz alemão que perdeu o emprego por ser judeu e que veio para o Brasil em 1936, fugindo da perseguição nazista – toda sua família morreu em campos de concentração.

Erica nasceu quando seu pai já tinha 74 anos de idade. Ela hoje vê que sua família representa dois Brasis: de um lado, a mãe analfabeta e que não teve oportunidades. De outro, o pai letrado, com quem aprendeu a falar inglês e que lhe ensinou outras inúmeras lições de vida e a estimulou a ler e estudar. Sempre que lhe fazia uma pergunta, o pai respondia com outra. Sabendo que não lhe restava muito tempo, queria prepará-la para o mundo. Erica agradece ele ter vivido para vê-la ingressar no curso de Administração da USP, uma das melhores universidades do Brasil. Ele veio a falecer três meses depois.

 

Educação transformadora

A essa altura, Erica já sabia da importância de uma boa educação – e foi por isso que se empenhou para entrar numa universidade pública de qualidade. Estar na USP lhe abriu muitas portas, pois conviveu com a elite intelectual e econômica do país. Quando começou a trabalhar, voltou-se para a área de marketing e queria estar numa das melhores empresas do setor. Foi trabalhar então na Procter & Gamble como estagiária, onde ficou por mais de três anos e aprendeu muito sobre gestão. Depois foi para a área de consultoria externa, com foco em planejamento estratégico, onde o seu conhecimento se aprimorou. Apesar de amar seu emprego, chegou num ponto em que precisava de algo que lhe trouxesse mais satisfação.

 

Mudança sem volta

Foi aí que começou a atuar como voluntária na ONG chamada Cidadão Pró Mundo, dando aulas de inglês em comunidades vulneráveis de São Paulo.  Quando percebeu, o trabalho na ONG havia tomado uma proporção grande em sua vida, estava já envolvida também na gestão da instituição. Esta atividade a conectou com seu passado, pois não era incomum aparecerem por lá mães de alunos que tinham vergonha de dizer que eram analfabetas – mas mesmo sem saber ler e escrever, levavam os seus filhos para que, através da educação, tivessem melhores chances na vida. A experiência foi o turning point na carreira de Erica, que a partir de então decidiu trabalhar com educação em tempo integral.

Mas ela ainda não sabia exatamente como colocar essa vontade em prática e passou um tempo refletindo sobre como colocar todo seu conhecimento em prol da educação.  Foi quando se deu conta que, para evoluir em seu propósito, precisava aprender mais: decidiu fazer MBA fora do país.

 

Bolsa do Instituto Ling

Aplicada, em 2012 Erica tentou entrar em cinco universidades americanas, sendo aprovada em quatro delas. Decidiu ingressar na Universidade de Berkeley, na Califórnia, onde estudou com a ajuda da bolsa concedida pelo Instituto Ling. Durante cursou em paralelo, como visiting scholar, a Faculdade de Educação de Stanford, através de uma outra bolsa, da Fundação Lemann.

Erica diz que sem a ajuda das bolsas conquistadas não teria como realizar o sonho de estudar fora. O Instituto Ling foi fundamental para cursar o MBA em Berkeley, pois ela não tinha como viabilizar este sonho financeiramente.  Através de uma parceria do Instituto, ela também ganhou a bolsa especial “Person of The Year”, da Brazilian-American Chamber of Commerce de Nova Iorque (Câmara Brasileira-Americana do Comércio).

Ela destaca que, além do aprendizado formal e acadêmico, o que mais a marcou foi a oportunidade de conviver e aprender com uma rede de pessoas muito motivadas e influentes. Estudar nos Estados Unidos foi definitivo para lhe abrir portas e fazer com que ela acreditasse que seus sonhos eram possíveis. Um dos exemplos disso é que, durante o curso na Califórnia, um de seus colegas a conectou com um amigo em comum: Salman Khan, fundador da Khan Academy, uma instituição sem fins lucrativos fundada em 2008 e que promove a educação através de aulas gratuitas pela internet, já tendo impactado dezenas de milhões de estudantes em todo o mundo.

Salman Kahn foi um dos que Erica teve oportunidade de conversar enquanto estudou na Califórnia. Através do networking possibilitado por essa experiência, fez contato com várias iniciativas incríveis, conversou com muitos professores, gestores e investidores em educação. E foi através destes contatos que descobriu a “Teach for America”, uma organização que inspirou o que é hoje o Ensina Brasil. Hoje as duas ONGS fazem parte da Teach for All, rede mundial que conecta instituições presentes em mais 60 países. São instituições independentes entre si, tendo em comum a promoção e o trabalho em prol da educação.

 

Planejando o futuro

Aos poucos, Erica foi juntando as peças de como aplicar tudo que o que aprendia nos Estados Unidos para colocar em prática no Brasil, país com imensa desigualdade de oportunidades, principalmente na área da educação. Avessa a riscos, não se via como empreendedora. Neste momento, o destino fez com que conhecesse um executivo de Gana que havia largado uma carreira de sucesso na área de TI para abrir uma universidade seu país de origem. Ele mostrou a ela que era possível superar o medo e encarar a dura missão de promover a educação em um país como o Brasil.

Voltando para São Paulo, Erica não empreendeu de imediato. Ainda atuou por dois anos em uma startup em educação, experiência que foi fundamental para ela entender a complexidade de promover um ensino equalitário no Brasil.  Conversando com diretores de escolas públicas, descobriu que inúmeros fatores externos afetavam o desempenho de crianças e professores:  tiroteios ao redor da escola, salas de aulas sem condições mínimas de trabalho, alunos que passam fome e que vivem em ambientes tóxicos dentro de casa. Como fazer para quebrar o ciclo da pobreza e desigualdade?

 

Ensina Brasil

Em 2017 nasceu a startup social Ensina Brasil, entidade que reúne e prepara pessoas que, assim como Erica, estão totalmente dedicadas a melhorar a questão educacional de nosso país. A iniciativa tem a missão de desenvolver líderes engajados na vontade de melhorar a educação.

O programa da Ensina Brasil se difere de outras iniciativas por ter como objetivo principal o desenvolvimento de lideranças. E como faz isso? Atraindo talentos de diversos cursos de várias faculdades. Erica compara a estrutura do programa ao de um trainee, chamando e selecionando pessoas com propósito e motivação para promover educação com qualidade.  Com apenas cinco anos de atuação, os números da ONG nesse período impressionam: foram mais de 80 mil inscritos e 630 pessoas selecionadas para atuarem como professores, impactando mais de 90 mil alunos de 120 escolas em 16 municípios de cinco estados brasileiros. E a procura de interessados segue imensa: em 2021, foram 15 mil inscritos para ocupar 200 vagas.

Quem é selecionado, trabalha por pelo menos dois anos como professor em comunidades vulneráveis. Os profissionais são contratados por governos parceiros e contam com o apoio e formação específica – para que sejam bons mestres e excelentes lideranças. Esses professores, ao mesmo tempo que se desenvolvem pessoal e profissionalmente, impactam positivamente na vida dos alunos, servindo de exemplo.

 

Multiplicando a paixão

A Ensina Brasil é uma multiplicadora de talentos. Erica conta que, ao final dos dois anos previstos para atuação no programa, uma boa parte dos professores saem da vivência de sala de aula, mas ficam obcecados em ajudar na questão da desigualdade. Decidem trabalhar em secretarias de Educação, empreender na área ou ser gestores de escolas.

 

Um sonho possível

Erica encontra dentro da própria casa a motivação para continuar batalhando. Foi através da educação que ela conheceu seu marido, um australiano que dava aulas de inglês na ONG Cidadão Pró Mundo. Hoje ela é mãe de duas meninas, de 3 e 1 anos. Graças a elas, tem uma visão de potencialidade: quer para todas as crianças do Brasil aquilo que proporciona para as filhas: família presente e acesso à educação de qualidade. Ela sabe que quebrar o ciclo de desigualdade é difícil, mas com tanta gente sonhando junto, tudo é possível.

01.11.2022