O olhar jornalístico em transformação
Viver e estudar fora do país é uma experiência que transforma hábitos, referências e perspectivas. Em meio a rotinas exigentes, pesquisas complexas, cidades vibrantes e novos contextos culturais, os bolsistas do Programa Jornalista de Visão Bárbara Blum, Emanuelle Bordallo, João Paulo Saconi, Juliana Causin e Mayara Paixão compartilham trajetórias de intenso aprendizado e expansão de horizontes. Em seus relatos, mostram como o mestrado no exterior redefine a maneira de compreenderem o mundo, trazendo à tona reflexões sobre a prática profissional, o papel do jornalista e a própria identidade.
Bárbara Blum | JV 2023
Morar em Nova York é viver imersa em cultura. Festivais de cinema, música, aberturas de galerias e exposições são recorrentes. Nos últimos nove meses, dividi meu tempo entre minhas atividades na Columbia University e essa vida cultural efervescente. Para quem escreve sobre cultura, a sensação é de estar no centro do mundo. A arte permeia a rotina da cidade e todos que vivem nela.
A Columbia University é um universo à parte. Na Graduate School of Journalism, meus textos são criticados em detalhe – desde a concepção até a forma final. Os professores, que atuam como editores generosos, debatem cada vírgula das produções dos alunos. Nos últimos nove meses, mergulhei na apuração e escrita da minha tese, uma reportagem narrativa sobre comunidades que questionam o uso de serviços de streaming e procuram alternativas para o consumo de música. O projeto foi uma formação por si só, com sessões de edição longas e caprichadas, em que passei horas lendo o trabalho em voz alta e ajustando cada palavra.
Além do cuidado com o trabalho individual de cada estudante, a faculdade promove debates atuais e nos coloca em contato com nomes essenciais da indústria. Conheci editores de publicações como The New Yorker, Harper’s e Bloomberg. É uma oportunidade única de entender os desafios e soluções que esses veículos propõem para questões como inteligência artificial e financiamento.
Retorno ao Brasil no fim de maio uma nova jornalista, com habilidades, olhares e horizontes expandidos e frescos. Estou energizada e empolgada para compartilhar e aplicar tudo que aprendi neste ano no jornalismo cultural brasileiro.
Emanuelle Bordallo | JV 2024
O outro lado do sonho pode ser muito mais do que a gente imagina. Nesses sete meses morando em Londres, parece que vivi três vidas. O primeiro semestre, no outono, foi aquele momento em que o peixe fora d’água tenta se adaptar à nova realidade. Um dos meus primeiros choques foi perceber que eu, que sempre fui uma das mais novas nos meus ciclos sociais, aos 28 anos me tornei a mais velha do grupo, já que a maioria aqui emenda o mestrado logo após a graduação. Estudar Relações Internacionais no King’s College, no maior departamento de estudos de guerra do mundo, tem sido particularmente estimulante no atual momento geopolítico. Por um lado, discutir em aula os impactos do que está acontecendo no noticiário me lembra muito o jornalismo. Por outro, é também muito satisfatório ter tempo para mergulhar na teoria e entender a origem das dinâmicas que cobri como repórter.
De lá para cá, estudei as diferentes escolas das Relações Internacionais, me aprofundei nos debates sobre colonialismo e suas influências em conflitos e também nos processos que levam indivíduos à radicalização em movimentos extremistas na Europa e na América do Norte. Explorei cursos em outros departamentos, incluindo um sobre imigração e deslocamento na era contemporânea e outro totalmente voltado para o desenvolvimento político-econômico da América Latina. Depois de sobreviver ao inverno, me despedi da rotina de aulas e começo a primavera com foco total na dissertação. Entre referências bibliográficas e metodologias, aproveito os últimos meses dessa experiência para descobrir novos parques, completar minha lista de museus, assistir às principais peças de teatro em West End e caçar os melhores beer gardens de Londres – que fica ainda mais charmosa com sol.
João Paulo Saconi | JV 2022
Cursar o mestrado em Jornalismo Político na Universidade de Columbia, de setembro até aqui, tem sido uma experiência definidora após dez anos trabalhando como jornalista no Brasil. É claro que a última década também foi bem orientada, graças à formação que a universidade pública brasileira me ofereceu (sou cria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, na graduação e no primeiro mestrado). Bagagem similar eu já carregava dos oito anos em que me dediquei à redação do Jornal O Globo.
Agora, no entanto, Columbia — graças ao Instituto Ling e à BrazilCham — me transformou num jornalista global que eu não havia necessariamente planejado me tornar. Vim para cá com o objetivo de me tornar um jornalista com olhar ainda mais acurado para pensar o Brasil. Esse progresso aconteceu, de fato, agora que adicionei novas camadas ao meu modo de pensar e fazer reportagens. A camada histórica, por exemplo, é a mais importante delas. No jornalismo brasileiro, o contexto histórico é relevante. Aqui nos Estados Unidos, ele se impõe como indispensável. A perspectiva ficou mais ampla: minhas histórias, agora, são contadas impreterivelmente em 360º, de olho no presente, no passado e no futuro. Não parou por aí. Além do meu objetivo, Columbia preencheu o que eu ainda não almejava: além do Brasil, mergulhei na política de dezenas de países diferentes. Observei similaridades, conexões e até tensões com o percurso brasileiro e também com a América Latina. Foi muito engrandecedor.
Além de conquistar meu segundo mestrado, também criei raízes na comunidade brasileira no exterior. Desde que cheguei, em setembro, me juntei à organização da Brazil Conference em Harvard e MIT, projeto ao qual me dediquei por seis meses. Contribuí como jornalista curador do time de Política & Governo, selecionando figuras nacionais a serem convidadas para discutir o futuro do Brasil daqui do exterior. Também treinei, em conjunto com colegas, os moderadores da conferência estudantil. Foi um momento-chave deste período, totalmente fora da curva que eu esperava cumprir. Gratíssima surpresa e absolutamente produtiva para a formação de network nos Estados Unidos.
Também tive as expectativas superadas em relação à minha relação comigo mesmo. Construir a minha personalidade enquanto estudante fora do meu país foi extremamente desafiador. Me tornei mais preparado, resiliente e criativo. Reflexo dos desafios que enfrentei de peito aberto nos últimos nove meses.
Minhas expectativas para o restante do curso, neste momento em que faltam duas semanas para o fim das aulas e um mês para a formatura, são de me dedicar aos trabalhos finais e à consolidação dos aprendizados por meio da revisão de anotações e de contatos profissionais com as pessoas que encontrei pelo caminho. Também recebo minha família (minha mãe, Roseli, principalmente) para celebrar a formatura e o meu aniversário, em 22 de maio. Assim, chego aos 30 anos graduado, mestre duas vezes, bolsista e autor de um livro ('Vocês da Imprensa', 2025). Nesse processo, percebi que minha maior surpresa durante esse período de aprendizado foi a disciplina americana nos estudos e o preparo das universidades (as da Ivy League, sobretudo) para inserir seus alunos no mercado de trabalho.
Juliana Causin | JV 2024
Morar em Londres me surpreendeu por alguns motivos. A cidade tem mais áreas verdes do que eu imaginava, muitos equipamentos culturais gratuitos e várias bibliotecas lindas. Apesar de ser uma grande metrópole, também existem algumas opções de “refúgio” — parques realmente extensos, por exemplo, que lembram florestas urbanas. Voltar a pedalar aqui foi também uma surpresa positiva. É uma boa opção de transporte que ajuda a economizar, ver a cidade e movimentar o corpo.
A maior parte do meu tempo aqui eu passo na LSE, a London School of Economics and Political Science, no mestrado em História Econômica e Desenvolvimento Internacional. Eu já esperava que seria bastante demandante, e isso se confirmou. Mas foi muito legal perceber que, semana a semana, a rotina de aulas, leituras, seminários e apresentações fica mais fluida e possível. Algo interessante que gostei de aprender sobre a LSE foi a sua origem. Os fundadores Beatrice e Sidney Webb foram figuras centrais em pesquisas sobre pobreza, trabalho e condições de vida na Inglaterra, e fizeram parte do longo processo que levou à estruturação do estado de bem-estar social no país. Eles entendiam que, para enfrentar um problema social, era preciso antes entendê-lo e torná-lo visível. Isso aparece no trabalho da Beatrice, por exemplo, de sistematização de dados sobre a pobreza em Londres. Também está refletido no lema da faculdade, o mesmo há mais de 100 anos: “conhecer as causas das coisas”. De certa forma, sinto que o mestrado tem me aproximado disso.
Nos próximos meses, começa a temporada de provas e trabalhos finais na LSE. É uma oportunidade de consolidar tudo o que aprendemos ao longo do programa, e de voltar ao conteúdo das aulas, agora com um novo olhar. Depois, começam os meses de dedicação à dissertação. Tudo isso acontece durante o verão em Londres, em que a universidade fica aberta para reunião com professores, workshops de pesquisa e plantão de aconselhamento. Minha expectativa é equilibrar essa fase de muito estudo e pesquisa com momentos de pausa para ver a cidade, que fica linda nessa época.
Mayara Paixão | JV 2023
A experiência em Columbia, em Nova York, tem me transformado profundamente. Diferente de muitos colegas, nunca almejei fazer um mestrado nos Estados Unidos, já que essa parecia uma perspectiva inviável em termos financeiros. A bolsa do Ling abriu para mim uma janela de oportunidade inimaginável. O mestrado em Columbia me ensinou desde o princípio a importância da autonomia nas escolhas acadêmicas: saber o que queria estudar e ir atrás das melhores aulas na área, testando diferentes cursos, professores, e montando uma grade que fizesse sentido para mim. Nova York, por outro lado, me deu aquilo que mais prezo: convívio com diversidade. Sou de São Paulo e, antes de me mudar para o mestrado, morava em Buenos Aires. Achei que estava com os olhos e o espírito acostumados para a pluralidade.
Até chegar aqui e me maravilhar com a possibilidade de ir de Litte Italy a Little Egypt, passando por enclaves latinos, asiáticos, muçulmanos, e muito mais, na mesma cidade.
O programa (e a cidade) me presentearam com uma nova perspectiva e área de estudo que nunca imaginei. Entendi que, a despeito de compreender bem a política latino-americana, eu falhava em compreender outro lado fundamental da moeda: a maneira como os EUA enxergam a América Latina e a maneira como a América Latina moldou os Estados Unidos. É a isso, principalmente, que tenho me dedicado. Se vim com a expectativa de aprofundar minhas reflexões sobre a política nas Américas, aqui entendi que preciso afiar minha visão sobre a visão dos EUA para o restante do nosso continente. Também achei excelente o fato de que meu curso em Columbia me possibilitou ter aulas na NYU, que foram e são muito valiosas para a minha formação.
Quanto as minhas expectativas para o restante do curso, no momento em que escrevo esse relato estou finalizando minhas tese. Minha investigação se debruça sobre as realidades de crianças imigrantes na cidade de Nova York. Essa tese me permitiu entrevistar irmãos venezuelanos que conheci há dois anos no estreito de Darién, uma perigosa selva na América Central que eles cruzaram com sua família para chegar aos EUA. Nos reencontramos aqui, e eles foram meus primeiros entrevistados. Com base nos testemunhos das crianças, reflito sobre suas dificuldades e sobre como melhorar suas vidas. Porque elas são o futuro, afinal. E o futuro (assim como o passado e o presente) também é dos imigrantes. Finalizando o curso, assumirei como correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York, o que me deixa extremamente honrada e só foi possível porque tive a experiência do mestrado.
Minha maior surpresa durante essa experiencia foi velocidade com que aprendemos no mestrado. Como estudantes brasileiros, nos deparamos com tantos desafios que, por vezes, esquecemos de medir o aprendizado para nos orgulharmos de nós mesmos. Estamos estudando em outra língua. Em outro país. Em outra cultura. Com colegas de todo o mundo. No meu caso, em uma área de conhecimento que não é a nossa originalmente (formei-me jornalista na faculdade). Estamos produzindo trabalhos acadêmicos com ampla frequência em um modelo no qual não estamos acostumados. E isso nos leva a um aprendizado colossal.
30.04.2026