Pedro Burgos: como um jornalista virou especialista em IA

Dos primeiros passos na programação ao mestrado nos Estados Unidos, o jornalista Pedro Burgos construiu uma carreira na intersecção entre os dados e a comunicação. Acompanhando de perto as transformações tecnológicas que impactaram o jornalismo – e o mundo – nos últimos anos, ele se tornou especialista e consultor em Inteligência Artificial. Hoje, Pedro atua como professor de jornalismo de dados e consultor. Em 2024, fundou a Co.Inteligência, uma consultoria dedicada ao desenvolvimento de ferramentas com IA e à aplicação prática da tecnologia no cotidiano de empresas.

Pedro Burgos: como um jornalista virou especialista em IA

Formado em jornalismo pela Universidade de Brasília, Pedro Burgos passou por várias transformações em sua carreira. Enxergar o potencial da tecnologia não só para as redações, mas para a comunicação (e outras áreas), o levou a criar uma fusão entre jornalismo, dados e inteligência artificial.

Em 2015, ao ingressar em seu mestrado nos Estados Unidos, Pedro desencadeou sua transição técnica ao aprender a programar e desenvolver um interesse profundo pela área de dados. Esse interesse foi aprofundado em 2017, quando atuou como pesquisador visitante na Columbia University, com o apoio do programa Jornalista de Visão, do Instituto Ling.

Depois, encontrou mais um espaço para multiplicar o conhecimento adquirido na fronteira entre a comunicação e a ciência de dados: a academia. Pedro se tornou professor de pós-graduação no Insper em 2019.

Hoje, Pedro concilia o papel de professor com o de fundador da Co.Inteligência, um projeto de consultoria em Inteligência Artificial (IA) para empresas.

 

Do texto aos algoritmos

Aos 35 anos, o jornalista Pedro Burgos já acumulava uma boa experiência em redação, com passagens pelas páginas de revistas do grupo Abril e cargos de editoria em portais como Gizmodo. Em 2015, ele passou a atuar como editor de engajamento no The Marshall Project, uma ONG com sede em Nova York focada em jornalismo investigativo, cargo que ocupou simultaneamente à finalização do mestrado em jornalismo social. Ali, ele pôde aplicar na prática sua pesquisa acadêmica sobre o papel dos comentários e das reações do público nas plataformas digitais, integrando seus estudos ao dia a dia da redação.

Em 2016, a pergunta de pesquisa se transformou em uma dissertação de mestrado na City University of New York (CUNY). A ideia era investigar como os comentários feitos fora dos sites de grande mídia eram (ou não) indicativos do que a população pensava sobre política, em um cenário de primeira candidatura – e posterior eleição – de Donald Trump nos Estados Unidos.

“Elaboramos diferentes sistemas para monitorar comentários. Foi ali o primeiro momento, que seguiu durante o mestrado, em que me envolvi com programação e comecei a programar”, conta Pedro. “Meu projeto era o mais complexo que tinha na disciplina, e a professora me disse que, para fazer aquilo, eu precisaria aprender a programar de fato. Então comecei a fazer cursos online – para a alegria do meu pai, que é engenheiro de software”, lembra.

O que começou como ferramenta para sua pesquisa se tornaria – mais de um – trabalho. Na sequência do mestrado na CUNY, passou seis meses como pesquisador visitante no BricLab, centro de pesquisa na Universidade de Columbia focado em economias emergentes.

Por lá, aproveitou o ambiente acadêmico para além das aulas de jornalismo e se tornou expert em aprender. Explorou outros departamentos e não perdia uma palestra interessante. “Quando você tira um tempo para estudar – que é algo que jornalistas não costumam fazer – e para tudo, eu inclusive estava fisicamente longe de onde morava, você vira a chave e se torna uma esponja para absorver um monte de conhecimento”, diz Pedro.

“Aprendi muito sobre China com meus colegas; em uma disciplina sobre liderança, fui colega de Eduardo Leite, que recém havia saído do cargo de prefeito em Pelotas, e de um ex-ministro da economia na Nigéria; fui em palestras sobre redes de desinformação russas”, exemplifica o jornalista.

 

 

Um jornalismo propositivo a partir da tecnologia

Ainda durante o período em Columbia, Pedro começou a refletir mais sobre o papel do jornalismo. Em meio a professores e colegas da escola de políticas públicas, passou a pensar a imprensa de perspectivas novas.

“Normalmente, os jornalistas têm uma postura meio antagônica a esses grupos. A maioria dos meus colegas trabalhava no governo ou em ONGS. Foi interessante estar junto deles para ver o outro lado, ver esse trabalho complexo e aprender sobre coisas muito diversas”, conta.

Para ele, o principal impacto da experiência nos Estados Unidos foi uma nova visão do jornalismo. “Comecei a ver o jornalismo como pedaço de uma engrenagem maior”, resume. “O jornalismo não trabalha só como watchdog, monitorando o poder público, mas também para incentivar melhorias.”

A perspectiva mais madura e o contato com estudantes e professores de setores diversos criaram uma facilidade para lidar com outros públicos.

De volta ao Brasil, Pedro desembarcou em Curitiba para auxiliar o jornal Gazeta do Povo a fazer uma transição do papel para o digital, com o fim das edições impressas. Em paralelo, gerou novo fôlego para seu projeto de mensuração de impacto no jornalismo, o que resultou em uma grant da Google News Initiative.

“Nós medimos o sucesso do jornalismo por likes, page views, repercussões. Quando, na verdade, deveríamos medir por indicadores mais qualitativos: essa investigação gerou alguma mudança política, alguma melhoria foi feita na cidade?”, explica Pedro.

Com o financiamento do Google, o jornalista criou metodologias para basear esse tipo de monitoramento aprofundado. Viajou o Brasil ajudando redações a olhar para o impacto de suas reportagens de diferentes lentes: esteve em Goiânia, Salvador, Vitória, São Paulo, trabalhando com veículos como Nexo, Veja, Folha de São Paulo, Correio da Bahia e Gazeta do Espírito Santo.

No final de 2017, o trabalho resultou no convite para uma palestra na sede do Google, na Califórnia. Os frutos desse trabalho renderam visibilidade pela Knight Foundation, a maior fundação de fomento de jornalismo dos Estados Unidos. Ainda em 2017, Pedro se tornou um Knight Fellow. “Normalmente, oito pessoas no mundo são selecionadas por ano para serem fellows”, diz Pedro. “Recebi uma grana para seguir desenvolvendo esse trabalho e aí fui além das redações brasileiras, fui para o Peru, para algumas redações dos Estados Unidos, conversei com gente da Espanha.”

 

Dos primeiros passos da IA à atuação como consultor

Pedro retornou ao ambiente acadêmico no final de 2018, quando foi convidado para atuar como professor de disciplinas de jornalismo e dados no Insper, em São Paulo. De 2023 a 2024, ele foi também coordenador da área de inteligência de dados da instituição – gerindo demandas acadêmicas e administrativas.

Pedro acompanhou com atenção o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022. “Na semana seguinte estava na mesa do então presidente do Insper falando que isso mudaria tudo”, recorda. Logo, ele estava em um grupo de trabalho da instituição junto de professores da engenharia da computação. Entre especialistas em tecnologia da informação, estava um jornalista que se tornou programador e professor.

“Eu sempre advogo por uma educação menos focada. A formação jornalística foca muito nas ferramentas do jornalismo, mas se você tiver noções boas de outros temas, tem muito mais chance de se dar bem”, diz Pedro. Segundo ele, o cenário com o crescimento da IA é de um mundo de generalistas, não só de especialistas – onde a tecnologia entra como ferramenta para auxiliar todas as áreas.

Criar a consultoria Co.Inteligência foi uma ideia resultante do trabalho de anos aliando jornalismo, dados e tecnologia. Foi também uma oportunidade para voltar a escrever. “Passei anos escrevendo mais código do que texto. Saí do cargo de coordenador para criar a consultoria e para ter mais tempo para escrever colunas, artigos”, explica.

Hoje, Pedro mantém a coluna em vídeo “IA, modos de usar” no Invest News e colabora com a Folha de São Paulo e o Globo.

O trabalho de consultoria, que teve seus primeiros passos durante o fellowship do Knight Center, se tornou sua atividade principal. “Dou palestras, consultoria e cursos para empresas de comunicação, mas hoje em dia também sou consultor de empresas do agronegócio, da farmácia”, exemplifica Pedro. “Uma vantagem que tenho é que os especialistas que apareceram primeiro no campo da IA não são tão bons em comunicar ou treinar pessoas de outras áreas. E com a IA, ao contrário de outros tecnologias, você não precisa ser super técnico para tirar o melhor proveito.”

Além de apresentar projetos de consultoria, Pedro desenvolve seus próprios agentes de inteligência artificial. “Em alguns lugares, vou fazer consultoria e acaba virando um serviço de produto”, diz. Ele já criou uma base de dados autorizada para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por exemplo, reunindo milhares de regulações e portarias para servir como chatbot para funcionários da instituição.

“Posso entregar uma consultoria mais clássica, no sentido de diagnóstico e recomendações, ou isso pode gerar treinamentos e produtos”, conta. Hoje, ele lidera sozinho a Co.Inteligência – ao lado, é claro, dos diversos agentes de IA que desenvolveu.

Antes mesmo da revolução causada pela IA, Pedro já acompanhava com cautela os movimentos de transformação digital. Em 2013, seu livro “Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável” já alertava para os impactos danosos do uso de redes sociais à saúde. “A tese do livro não era banir o digital, mas pensar formas de usar para minimizar problemas e maximizar coisas boas”, resume.

Hoje, ele mantém o olhar cauteloso – mas sempre curioso – frente aos novos avanços da tecnologia. “Estamos vendo uma revolução sem precedentes e não estamos minimamente preparados. Quero cumprir essa missão de comunicar, dar mais palestras, trabalhar com outros jornalistas, talvez escrever outro livro”, adianta Pedro.

30.04.2026

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