Da prática no Brasil ao mestrado na LSE: o relato de Francisco Pasqual, primeiro bolsista do Programa UP

Como o planejamento urbano pode transformar a realidade social e melhorar a qualidade de vida nas cidades brasileiras? Francisco Pasqual, primeiro bolsista do Programa UP – Mestrado em Planejamento Urbano, relata sua experiência no MSc in Regional and Urban Planning Studies da London School of Economics. Entre a teoria britânica e a prática das ruas de São Paulo, ele analisa os desafios da habitação, o impacto dos novos empreendimentos e a importância de programas de incentivo para a formação de lideranças no setor.

Da prática no Brasil ao mestrado na LSE: o relato de Francisco Pasqual, primeiro bolsista do Programa UP

O meu interesse por cidades enquanto objeto de estudo surgiu em algum momento da adolescência, ao realizar viagens para outros lugares e perceber o quanto o ambiente que nos cerca molda a forma com que vivemos, agimos e entendemos o mundo. Não posso dizer que desde então eu tinha a ambição de tornar isso a minha carreira (afinal, nem imaginava quais profissões atuavam diretamente com os temas da cidade), porém essa curiosidade permaneceu comigo.

Nos primeiros semestres da minha graduação em Engenharia Civil na UFRGS, entrei em contato com a área de Transportes, que tem em seu escopo o estudo do planejamento e operação dos diferentes modos de transporte nas cidades, com forte viés técnico. Foi um match imediato. Enquanto eu perdia o interesse nas áreas “tradicionais” da engenharia, a possibilidade de estudar mobilidade urbana em um contexto de discussões crescentes sobre sustentabilidade parecia fazer muito mais sentido.

Durante a graduação tive a oportunidade de fazer iniciação científica no LASTRAN (Laboratório de Sistemas de Transporte), onde tive meu primeiro contato com a pesquisa acadêmica, investigando como características do ambiente construído impactam a caminhabilidade. Mais tarde, ingressei no mestrado em Planejamento Urbano e Regional no PROPUR visando ampliar o escopo dos meus estudos para além dos transportes.

Paralelamente à trajetória acadêmica, desde 2017 trabalho na equipe de Mobilidade Urbana do WRI Brasil, organização internacional que atua na promoção de cidades mais sustentáveis. Lá eu atuo para implementar melhorias nos sistemas de transporte de diversas cidades brasileiras e também trabalho com pesquisas aplicadas que visam mudar a realidade dos municípios, e essa experiência complementa muito bem o meu interesse acadêmico.

No início de 2024 fiquei sabendo da primeira edição do Programa UP do Instituto Ling. A iniciativa chamou imediatamente a minha atenção ao perceber que reunia universidades que estão entre as mais reconhecidas do mundo na área de planejamento urbano. Naquele momento eu já considerava voltar aos estudos, seja para um doutorado ou um segundo mestrado no exterior. Como acontece com muitos brasileiros, porém, esse plano sempre esbarrava na questão financeira: estudar fora sem uma bolsa de estudos é, na prática, inviável para a grande maioria das pessoas.

Com a possibilidade da bolsa UP, decidi me inscrever para o MSc em Regional and Urban Planning Studies na London School of Economics and Political Science (LSE), um programa extremamente reconhecido e avaliado, sendo parte de um dos melhores departamentos de Geografia do mundo. A abordagem interdisciplinar do Programa, que combina geografia, economia, políticas públicas, entre outros, me atraiu bastante, assim como a possibilidade de estudar em uma cidade icônica tanto por sua história quanto por seu planejamento.

Após ser aprovado na LSE e passar pelo processo seletivo do Instituto Ling, recebi a notícia de que havia sido escolhido como o primeiro bolsista do Programa UP. Além do apoio financeiro, essa oportunidade representou a possibilidade concreta de acessar uma formação de alto nível e de aprofundar o estudo de temas que considero fundamentais para o futuro das cidades.

O mestrado foi uma experiência extremamente intensa e enriquecedora. Como é comum no Reino Unido, o curso dura apenas um ano e é dividido em três termos bastante concentrados, o que exige dedicação constante. Ao mesmo tempo, a diversidade da turma - com estudantes de vários países e diferentes backgrounds - tornava as discussões em sala de aula particularmente interessantes, além de um ótimo clima para fazer networking e amizades.

O conteúdo do curso equilibrava bem teoria e prática, abordando desde clássicos da literatura de planejamento urbano até debates contemporâneos sobre habitação, governança urbana e desenvolvimento imobiliário. Um aspecto que me chamou atenção foi a forma como o planejamento urbano é institucionalmente mais consolidado no Reino Unido. No sistema britânico, conhecido como “sistema performativo”, há menos regras rígidas de zoneamento e maior ênfase na análise e negociação de propostas de desenvolvimento. Isso cria uma grande demanda por planejadores urbanos, tanto no setor público quanto no privado, e faz com que a profissão seja bastante reconhecida.

Além das aulas, estudar planejamento urbano em Londres significa também aprender com a própria cidade. Questões como a crise habitacional, o alto custo da moradia e os debates sobre adensamento e regeneração urbana estão constantemente presentes no debate público e acadêmico. Foi justamente o contato com esses debates que me levou a explorar uma nova agenda de pesquisa: instigado pelo lançamento dos dados do Censo de 2022, que mostraram um aumento expressivo no número de imóveis vazios nas áreas centrais de cidades brasileiras, decidi investigar o caso de São Paulo.

Desde o Plano Diretor de 2014 a cidade vem incentivando novos empreendimentos em áreas centrais e bem servidas por transporte coletivo, com o objetivo de aumentar a densidade urbana e estimular a ocupação dessas regiões. No entanto, bairros como Sé e República tiveram crescimento populacional muito pequeno desde 2010, apesar de um aumento significativo na oferta habitacional.

Minha dissertação investigou as causas por trás disso por meio de entrevistas com representantes do poder público, do mercado imobiliário, pesquisadores e movimentos sociais. Os resultados indicam que muitos dos novos empreendimentos têm sido construídos com foco em investidores, o que se reflete nas tipologias oferecidas: muitos “studios” e unidades voltadas ao aluguel de curta duração, enquanto há pouca oferta voltada para famílias ou com valores mais acessíveis. A pesquisa também dialogou com discussões recentes sobre fraudes na produção de Habitação de Interesse Social na região central de São Paulo, revelando a complexidade envolvida na implementação de políticas urbanas e a importância de mecanismos de fiscalização e regulação mais robustos. Ao final, minha dissertação recebeu “distinction”, a nota máxima da LSE.

Após o término das aulas, tive a oportunidade de atuar como assistente de pesquisa no departamento de Geography and Environment da LSE, em um projeto sobre políticas de “zoneamento inclusivo” em cidades da América do Norte, experiência que ampliou ainda mais minha formação como pesquisador.

Hoje estou de volta no WRI Brasil, de onde me ausentei por um ano para realizar o mestrado, e sigo trabalhando para que as cidades do Brasil e do mundo atinjam políticas urbanas mais sustentáveis, inclusivas e que possibilitem mais oportunidades e qualidade de vida para todas as pessoas.

Formar profissionais capazes de compreender as dinâmicas urbanas e pensar em melhores políticas é cada vez mais importante, e tanto a academia quanto o mercado já perceberam isso. O Programa UP torna possível acessar oportunidades que, de outra forma, estariam fora do alcance da maioria dos brasileiros, e pode ser um próximo passo essencial na carreira de qualquer profissional do planejamento urbano.

2.4.2026