Ella Fitzgerald: A grande dama do Jazz Foto: Divulgação

Ella Fitzgerald: A grande dama do Jazz

Dia 21 de Janeiro, a partir das 19h30, te esperamos para a primeira edição do Audições Comentadas de Jazz de 2021. A atividade acontece ao vivo e on-line. O jornalista Paulo Moreira apresenta a trajetória da grande dama do jazz Ella Fitzgerald! A noite fica completa com a canja musical da cantora Luana Pacheco e do pianista Luciano Leães, interpretando alguns clássicos da homenageada. Este é um material de apoio para que você possa dar os primeiros mergulhos na música e na vida de nossa homenageada. Se você ainda não se inscreveu, clique aqui!

 

Conhecida como a Primeira Dama da Canção e a Grande Dama do Jazz, Ella Fitzgerald foi a cantora mais popular do gênero nos Estados Unidos, por mais de meio século. Com uma extensão vocal que atingia três oitavas, Lady Ella encantava com sua voz flexível, suave e precisa, cantando desde baladas sensuais, até o jazz mais doce, além do improviso e domínio da técnica do scat. Ella ganhou 13 prêmios Grammys e vendeu mais de 40 milhões de álbuns.

 

BIOGRAFIA E OBRA

Nascida em 1917, em Newport, Virginia, seus pais se separaram logo depois de seu nascimento e ela cresceu em Yonkers, Nova York. Criada pela mãe, Temperance Fitzgerald, e pelo padrasto, Ella teve uma meia-irmã mais nova, Frances. Aos 14 anos ficou órfã de mãe, passando a morar com uma tia. Pouco tempo depois, também perderia o padrasto e a irmã.

Foi um período muito difícil e complicado para Ella, que sentia o peso da perda. Isso acabou afetando sua vida: com baixo desempenho escolar e frequência nas aulas, Ella abandonou a escola, chegando a trabalhar como vigia de bordel. Depois de se envolver em problemas com a polícia – também trabalhou com apostas vinculadas à máfia, foi encaminhada para um reformatório, de onde acabou fugindo. Morou nas ruas de Nova York, totalmente sozinha e sem dinheiro, em pleno período da Grande Depressão.

Ella Fitzgerald herdou da mãe o gosto pela música. Sua trajetória como cantora começa quase por acaso: sorteada entre a plateia do icônico Apollo Theater, que mantinha em sua programação a “Noite Amadora”, Ella sobe ao palco para sua performance. Apesar de ter planejado dançar, ela muda de ideia no último minuto, interpretando a canção “Judy”, uma das músicas preferidas de sua mãe. A partir daí, a história de Ella como cantora tem início. Seu talento natural chama a atenção do público e também de músicos profissionais.

Na foto, da esquerda para a direita: Ray Brown, Ella Fitzgerald e Dizzy Gillespie. (Fotografia: William Gottlieb/Redferns).

Sua situação de maneira geral começa a mudar a partir de 1935, quando o baterista Chick Webb busca uma cantora para sua big band, a Chick Webb Orchestra. Com o acréscimo luxuoso da voz de Ella, a banda de Webb ganha mais destaque e conhece o sabor de um grande hit, a música A Tisket-A-Tasket. Com a morte precoce de Webb em 1939, Ella se torna a líder da banda com apenas 22 anos, passando a se chamar Ella Fitzgerald and Her Famous Band.

Fitzgerald liderou o grupo até 1941, quando decidiu seguir carreira solo. A cantora passou a integrar o time da gravadora inglesa Decca Records, com quem gravou grandes sucessos, junto de grupos como The Ink Spots, The Delta Rhythm Boys e o saxofonista Louis Jordan. Em meados dos anos 1940, Ella participa da turnê Jazz at the Philharmonic, produzida pelo empresário Norman Granz, e cantando com a banda de Dizzy Gillespie. Na turnê com o grupo, aprimorou sua técnica de bebop e scat, sendo capaz de grandes improvisações, assemelhando sua voz ao som de instrumentos musicais. Durante a turnê com Gillespie, conhece e se apaixona pelo baixista Ray Brown, com quem casa e juntos adotam um filho, Ray Brown Jr. Mais tarde Ray seguiria os passos da mãe, se tornando cantor de jazz e blues. O casamento foi breve, mas mantiveram uma longa relação profissional e de amizade, que ajudou a impulsionar a carreira da cantora.

Um dos grandes marcos da carreira de Ella foram as gravações de songbooks realizadas entre 1956 e 1964 para a gravadora Verve, de Norman Granz. Convidada pelo produtor, a Primeira Dama do Jazz interpretou grandes compositores norte-americanos como Cole Porter, Duke Ellington, Billy Strayhorn, Johnny Mercer, Irving Berlin, entre outros. Sobre a coletânea, o compositor Ira Gershwin chegou a dizer "Eu nunca soube como nossas canções eram boas até ouvir Ella Fitzgerald cantá-las".

Mundialmente aclamada por sua voz, Ella Fitzgerald foi uma diva admirada pelo jeito simples e a amabilidade com que tratava a todos, na contramão do comportamento habitual de grandes celebridades. Era comum ver Ella na televisão, frequentemente convidada para participar de programas como The Bing Crosby Show, The Dinah Shore Show, The Frank Sinatra Show, The Ed Sullivan Show, The Tonight Show, The Nat King Cole Show, The Andy Williams Show e The Dean Martin Show. Nos palcos, realizou turnês mundiais e cantou com Frank Sinatra e Count Basie. Uma das parcerias mais brilhantes da cantora foi com Louis Armstrong, com quem gravou diversas vezes.

O ritmo intenso da carreira precisou ser reduzido devido a problemas de saúde. Em 1986, foi submetida a uma cirurgia vascular e recebeu o diagnóstico de diabetes. Seguiu cantando até 1991, quando realizou seu último show, no Carnegie Hall, em Nova York. Na época, Fitzgerald já havia gravado mais de 200 álbuns e recebido uma série de prêmios e honrarias por sua contribuição para a música. Ella faleceu alguns anos depois, em 1996 aos 79 anos.

 

 

CURIOSIDADES

Você sabia que Ella Fitzgerald pensava em se tornar dançarina? Ao saber que a dupla de dançarinas Edwards Sisters ia fechar a Noite dos Amadores, no Teatro Apollo, a moça mudou de ideia sobre a sua apresentação e resolveu cantar, levando a plateia ao delírio. Que sorte a nossa!

Fitzgerald também brilhou no cinema em um musical policial! Em 1955, ela viveu a personagem Maggie no filme Pete Kelly 's Blues, de Jack Webb. Confira o trailer!

Em 1967, Ella Fitzgerald foi a primeira mulher a receber o Prêmio pelo Conjunto da Obra da Recording Academy, organização responsável pelo Grammy. Por falar nisso: a Ella Fitzgerald Charitable Foundation, fundada em 1993, é uma das apoiadoras do programa de educação musical da Recording Academy, o Grammy nas Escolas.

Você sabia que a super estrela Marilyn Monroe ajudou a alavancar a carreira de Ella Fitzgerald? A atriz contatou o dono do Mocambo, um clube muito popular nos anos 1950, e disse que ela estaria na mesa da primeira fileira do clube se ele chamasse Fitzgerald para cantar. E assim ela fez: assistiu a cantora todas as noites, atraindo a imprensa ao local. Depois disso, Ella nunca mais precisou se apresentar em clubes pequenos. Grande Marilyn!

Na foto, da esquerda para a direita: Ella Fitzgerald e Marilyn Monroe. Foto: Reprodução.

Já pensou em ir parar na delegacia por nenhum motivo e ainda ter que dar autógrafo para quem te prendeu? Pois foi o que aconteceu com Ella Fitzgerald e sua banda! Mesmo antes da Lei dos Direitos Civis ser aprovada nos EUA, o empresário de Ella, Norman Granz, não aceitava nenhum tipo de discriminação racial e exigia tratamento igual a todos os músicos. Por causa disso, em uma turnê em Dallas, um esquadrão de polícia irritado com os princípios de Norman invadiu o camarim de Ella e levou todos para a delegacia. Chegando lá, os policiais ainda tiveram coragem de pedir um autógrafo da cantora!

 

 

PREMIAÇÕES

1934 - Ganhou a competição da Noite Amadora no Teatro Apollo

1935 - Ganhou uma semana de apresentação na Harlem Opera House

1937 -  Foi eleita, pela revista Down Beat, A Primeira Dama do Jazz

1938 - Primeira música nº 1: A-Tisket, A-Tasket

1954 - Melhor Vocalista Feminina, pela revista Metronome, e Melhor Vocalista Feminina, pela revista Down Beat (pesquisa dos leitores e da crítica)

1956 - Eleita All Star Female, pela revista Metronome

1958 - Prêmios Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina por The Irving Berlin Songbook (álbum) e Melhor Performance Individual de Jazz por The Duke Ellington Songbook (álbum)

1959 - Prêmios Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina por But Not For Me e Melhor Performance Individual de Jazz por Ella Swings Lightly

1960 - Membro honorária da Alpha Kappa Alpha, a maior e mais antiga irmandade afro-americana dos Estados Unidos.

1960 - Prêmios Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina (single) para Mack the Knife e Melhor Performance Vocal Feminina (álbum) para Ella in Berlin

1962 - Prêmio Grammy de Melhor Performance Vocal Solo Feminina por Ella Swings Brightly With Nelson Riddle

1965 - Recebeu o primeiro prêmio ASCAP em reconhecimento a uma artista

1967 - Prêmio Grammy, Prêmio Bing Crosby pelo Conjunto de Sua Obra e Presidência honorária da recém-formada Fundação Martin Luther King

1974 - Universidade de Maryland nomeia seu novo teatro e sala de concertos com US $ 1,6 milhão e 1.200 lugares como Ella Fitzgerald Center for the Performing Arts

1976 - Doutora Honoris Causa em Música do Dartmouth College e o Prêmio Grammy de Melhor Performance Vocal de Jazz por Ella Fitzgerald Day 

1979 - Prêmio Grammy de Melhor Performance Vocal de Jazz por Fine and Mellow (álbum)

1980 - Prêmio Will Rogers da Câmara de Comércio de Beverly Hills, Doutora Honoris Causa em Música da Associação Cívica da Howard University; Lord & Taylor Rose por sua excelente contribuição para a música; Doctor of Humane Letters da Talladega College of Alabama; e Prêmio Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina de Jazz para A Perfect Match; Ella and Basie (álbum)

1981 - Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina de Jazz por Digital III at Montreux (album)

1982 - Mulher do Ano no Hasty Pudding Club

1983 - Prêmio Peabody por Contribuições de Destaque para a Música na América e o Prêmio Grammy de Melhor Performance Vocal de Jazz Feminina por The Best Is Yet to Come (álbum)

1987 - A-Tisket, A-Tasket entrou no Grammy Hall of Fame. Ella recebeu os prêmios UCLA Medal for Musical Achievements e National Medal of Arts

1988 - Prêmio NAACP pelo Conjunto de Sua Obra

1990 - Prêmio Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina de Jazz para All That Jazz (álbum); recebeu do governo francês a honraria Commander of Arts and Letters; e foi nomeada Doutora Honoris Causa em Música pela Universidade de Princeton

1992 - Recebeu dos Estados Unidos a Medalha Presidencial da Liberdade

 

DICAS DO LING

Assista a série documental Jazz (2001), de Ken Burns. Dividida em 12 capítulos, conta a história do movimento musical, suas variações estilísticas e a afirmação da cultura negra no jazz.   Disponível no Youtube.

O programa Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, fez uma seleção imperdível das canções cantadas por Ella na coletânea de songbooks gravados para a Verve. Você pode conferir aqui!  

Conheça o songbook Ella Abraça Jobim, gravado em 1980, em homenagem ao nosso querido Tom. Escute no Spotify, Youtube Music e Deezer.

Ficou com vontade de ouvir a obra dela? Escute nas plataformas: Youtube Music, Spotify e Deezer.

Já conhece o Spotify do Instituto Ling? Criamos uma playlist especial com todos os homenageados que passaram pelas nossas queridas Audições Comentadas de Jazz. Escute aqui.

 

REFERÊNCIAS

Artigo O Negro e O Jazz nos EUA escrito por Wallace dos Santos Cardoso para o site Geledes. Disponível aqui.

Site Fundação Ella Fitzgerald. Disponível aqui.