Franz Liszt, o primeiro superstar Foto: Divulgação

Franz Liszt, o primeiro superstar

VIDA E OBRA

Génie oblige – algo como “gênio por obrigação” – foi o lema escolhido pelo próprio Franz Liszt, o único músico húngaro no século XIX a ser reconhecido como um dos maiores que já existiram. Ele certamente desfrutou de toda a sua fama e glória como um dos pianistas mais importantes de sua época, como um compositor ousado e inventivo, como regente e respeitado professor de música. Além de ser conhecido como Don Juan e queridinho de Ludwig van Beethoven, Liszt revolucionou o mundo da música, estabelecendo ideias que ainda seguem atuais!

Franz Liszt nasceu em 22 de outubro de 1811, na cidade de Raiding, que hoje faz parte do território austríaco. Ele recebeu as primeiras aulas de piano de seu pai, Adam Liszt, que trabalhava para a família do Príncipe Esterházy e fez de tudo para facilitar o talento do pequeno Franz. Foi aclamado como prodígio desde cedo e, em 1820, um grupo de magnatas húngaros ofereceu-se para bancar seus estudos. Os Liszt foram, então, morar em Viena, onde Franz foi aluno de Carl Czerny, ex-aluno de Beethoven, e Antonio Salieri, o renomado rival de Mozart. Lá o pequeno chamou a atenção do público local e até mesmo do próprio Beethoven!

Aos 12 anos, seu pai resolveu levá-lo a Paris, arriscando suas finanças para garantir que o menino continuasse sua instrução musical. Ele estudou brevemente com Ferdinand Paër e Anton Reicha. Começou a se apresentar na França e na Inglaterra e logo alcançou o sucesso: em 1830, já tinha publicado várias peças para piano e tinha até o rascunho de um concerto! Em Paris, fez amizade com artistas ilustres: Frédéric Chopin, Victor Hugo, Alexandre Dumas, Honoré de Balzac e até Eugène Delacroix. Em 1832, sua carreira mudaria para sempre: ao ver uma performance virtuosa do violinista Paganini, Franz Liszt decidiu dominar cada aspecto da técnica ao piano.

Inovou com suas partituras para piano das sinfonias de Beethoven e Berlioz e ficou famoso por sua frase “le concert, c'est moi”, dita quando, em 1839, fez uma apresentação solo em que representou todos os sons de uma orquestra tocando apenas um instrumento, o piano. Vale lembrar que é nessa época – chamada de Romantismo – que o intérprete ganha tanta notoriedade quanto o compositor, e Liszt foi um dos responsáveis por elevar a condição social da sua profissão, assim como Beethoven o fez. Dotado de uma técnica excepcional ao piano, Liszt ganhou o público com suas apresentações envolventes e cheias de personalidade. Estava sempre disposto a atender aos pedidos de seus ouvintes com improvisações de obras eruditas e até mesmo músicas folclóricas. Sua popularidade pode ser comparada à dos Beatles nos anos 1960, pois onde passava conquistava muitos admiradores e causava um certo êxtase no público feminino.

 

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Em 1833, Liszt conheceu e se apaixonou pela condessa Marie d'Agoult, com quem teve três filhos. No período em viveram juntos, moraram na Suíça e em Roma, e Franz concentrou-se na composição e em escrever memórias de suas viagens, que foram publicadas nos jornais de Paris. A relação do casal terminou em 1844; e alguns anos depois ele se apaixona pela princesa Carolyne von Sayn-Wittgenstein, com quem viveu em Weimar, na Alemanha.

O desejo de Liszt era tornar a cidade de Weimar um polo artístico e cultural novamente. Lá, ele dedicou-se à composição, regência de orquestras e o ensino musical. Sempre acreditando no poder de renovação da música e de que não pertence apenas a um período. Por isso, incentivou e aconselhou a carreira de músicos e compositores mais jovens, tendo destaque seu apoio a Richard Wagner, que se tornou um dos grandes nomes de sua época.

Franz foi um visionário, sendo o responsável por grandes inovações no fazer musical e no pensar a arte. Em 1830, Liszt publicou nos jornais de Paris um manifesto em defesa da educação musical, com pautas que permanecem relevantes até hoje:

 

“Em nome de todos os músicos, da arte e do progresso social, exigimos:

 A – A realização de uma assembleia dedicada à música sinfônica, dramática e religiosa a cada cinco anos. As melhores obras em cada uma dessas três categorias serão executadas diariamente durante um mês no Louvre e serão, posteriormente, compradas pelo governo e publicadas à custa deste. Em outras palavras, exigimos a fundação de um museu musical.

B – A adoção de ensino de música nas escolas primárias, sua extensão a outros tipos de escolas e um movimento para a implantação de uma nova música de igreja.

C – A reorganização do canto coral e a reforma do cantochão em todas as igrejas de Paris e das províncias.

D – Encontros gerais das sociedades filarmônicas, inspirados nos grandes festivais de música da Inglaterra e da Alemanha [a Alemanha ainda não existia juridicamente; Liszt refere­-se ao conjunto das pequenas cortes e principados espalhados pelo que hoje é o território alemão]. E – Montagens de óperas, concertos sinfônicos e de música de câmara, organizados de acordo com planejamento traçado segundo nosso artigo prévio sobre os conservatórios [Liszt refere-­se a um artigo anterior enfocando apenas os conservatórios]

F – Uma escola de estudos musicais avançados, que atue separadamente dos conservatórios, dirigida pelos mais eminentes artistas – uma escola cujos tentáculos estendam­-se a todas as cidades do interior do país por meio das disciplinas história e filosofia da música.

G – Uma edição de baixo custo, para venda a preços acessíveis, das mais importantes obras dos novos e dos antigos compositores, desde a Renascença até a atualidade. Estas partituras abarcarão o desenvolvimento da arte em sua totalidade, da canção folclórica até a Sinfonia coral de Beethoven. Esta série de publicações como um todo será chamada O panteão da música. As biografias, os tratados, os comentários e os glossários que acompanharão estas partituras formarão uma verdadeira “enciclopédia da música”.

 

Incrível, não é mesmo? Apesar de todo o alvoroço dos anos iniciais de sua carreira, Liszt preferiu uma vida mais calma quando mais velho, dedicando-se à música sacra e ao ensino musical. Faleceu em 31 de julho de 1886, na Alemanha. As inovações de Liszt serviram de inspiração para muitos compositores das gerações seguintes.

 

CURIOSIDADES

Você sabia que existe uma palavra para designar a histeria dos fãs de Liszt? O frenesi era tamanho que chamaram de lisztomania! A banda de indie rock francesa Phoenix tem uma canção de mesmo nome e o clipe da música foi gravado no museu dedicado ao compositor. Confira aqui.

Lisztomania também é o nome do filme de Ópera Rock, de 1975, do diretor Ken Russell. A história de fantasia inspirada em Franz Liszt começa mostrando uma das paixões do pianista e vai até o XX, em que o compositor Richard Wagner reencarna como Hitler. Uma loucura total, não é mesmo? Além disso, o filme conta com a participação de Ringo Starr. Confira o trailer.

A música de Liszt é mais conhecida do que você imagina! Suas composições aparecem em dois dos desenhos animados mais populares da história: Pernalonga e Tom & Jerry!

Nos anos 60, a vida de Liszt foi representada no cinema no premiado musical Sonho de Amor (Song Without End, EUA), de Charles Vidor e George Cukor. A história conta a paixão do pianista e compositor pela princesa Caroline da Rússia. Recebeu, em 1961, o Oscar de Melhor Musical Original e o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Cômico ou Musical. Assista ao trailer.

 

DICAS DO LING

 

REFERÊNCIAS

Artigo Franz Liszt, o mago do piano, para além do piano, escrito por João Marcos Coelho para a Revista Concerto (Ed. de maio de 2011, pg.30-34). Disponível aqui.

Biografia de Franz Liszt no site do Liszt Museum. Disponível aqui.