CHICO FELITTI, UM EXÍMIO CONTADOR DE HISTÓRIAS

O repórter e escritor Chico Felitti, bolsista do Programa Jornalista de Visão aprovado em 2011, é um contador de histórias nato. Tem o dom de se apaixonar e dar luz e importância a pessoas e causas usualmente esquecidas pela sociedade. Com empatia e curiosidade – e uma pitada de obsessão – mergulha em projetos que exigem dele muito foco e longos processos investigativos. Seu olhar apurado sobre o mundo e o comportamento humano lhe renderam pautas e livros premiados e o reconhecimento do público e da crítica.

CHICO FELITTI, UM EXÍMIO CONTADOR DE HISTÓRIAS

Nascido há 36 anos em Jundiaí, no interior de São Paulo, Felitti passou uma parte da infância em Angola, na África, onde seu pai trabalhou por três anos. De volta ao Brasil, saiu de novo do interior. Mudou-se para a capital paulista e cursou Jornalismo e, mais tarde, Ciências Sociais.

Enquanto estudava, atuou como assessor de imprensa e certa vez ciceroneou Naomi Campbell durante a estadia da modelo inglesa no Brasil.  Também produziu conteúdo para veículos dos mais diversos segmentos, do mundo do luxo à música eletrônica.  Em 2007, foi selecionado entre 3 mil candidatos e entrou como trainee na Folha de S. Paulo e passou por todas as editorias. Naquela época, relembra, tinha muita liberdade – os gestores não julgavam o seu tempo em redação e sim a sua produtividade e a relevância das matérias. “Contanto que produzisse textos de qualidade, estava tudo bem”. Foi neste período que aprendeu a autogerir seu tempo – ferramentas que lhe são muito importantes hoje ao trabalhar de maneira autônoma.

 

Vivendo e estudando em Nova Iorque 

Além de Angola, Felitti viveu em países como Finlândia, França e Turquia. Mas foi durante os meses em que morou em Nova York, em 2015, estudando como bolsista do Instituto Ling na Columbia University, que a sua vida profissional começou a mudar.

Ele participou do BRICLab, imersão com duração de quatro meses em que destacados profissionais do jornalismo são convidados a estudar questões relacionadas aos países que formam o BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.  O curso promove um grande debate sobre política, negócios e outros temas relacionados a este importante bloco socioeconômico.

Além da experiência de morar em Nova Iorque e dos aprendizados e conexões adquiridos no decorrer do curso, Felitti descobriu que poderia participar como ouvinte em outros cursos daquela universidade, gratuitamente. Então dividiu o seu tempo entre o BRICLab e as aulas com importantes professores nas disciplinas ligadas à escrita. Aprendeu com vencedores de prêmios internacionais de literatura e autores de best-sellers. Naquele momento decidiu: queria ser escritor.

 

Ricardo e Vânia

Quando voltou ao Brasil, não demorou para sair da Folha de S. Paulo. Sentindo-se cansado física e mentalmente, vislumbrou deixar o jornalismo e partir para a ficção. Mais especificamente, queria produzir roteiros de comédia.  Foi então que, ao lado de nomes como Fernanda Young, escreveu roteiros para programas de TV e filmes. Nem tudo saiu do papel e chegou às telas, mas para ele foi um período de redescobertas.

Em meio a tudo isso, surgiu a história de Ricardo, uma figura icônica que circulava pela Rua Augusta, área nobre de São Paulo. Conhecido como Fofão, em referência ao personagem do programa infantil de TV Balão Mágico, sucesso da década de 1980, ele tinha grandes bochechas esculpidas com inúmeras injeções caseiras de silicone.

Felitti ficou intrigado e queria descobrir mais sobre aquele homem marcante. Começou um processo investigativo, sem saber onde a história ia terminar e nem onde iria publicar. Durante quatro meses acompanhou Ricardo, conversou com ele e com pessoas de seu círculo. Dessa experiência, nasceu um emocionante e sensível texto que foi oferecido ao portal BuzzFeed Brasil e publicado em outubro de 2017.

Ninguém poderia imaginar que, após apenas 12 horas no ar, a história teria mais de um milhão de acessos. Ricardo virou uma celebridade, o celular de Felitti não parou de tocar e a pauta lhe rendeu, no ano seguinte, os prêmios Petrobras e Comunique-se de Jornalismo. Felitti seguiu mergulhando na vida de Ricardo, dessa vez conversando com o amor da vida dele, Vânia, que mora em Paris. O resultado dessa investigação se transformou em seu livro de estreia, Ricardo e Vânia, sucesso de público e crítica e finalista do Prêmio Jabuti de literatura.

A obra causou tanto impacto que os direitos de adaptação foram vendidos para virar filme – que seria produzido e estrelado pelo ator Paulo Gustavo (tragicamente morto pela Covid-19 em 2021). O futuro dessa produção é incerto.

 

João de Deus, Elke Maravilha e Damas da Noite

Após o êxito do primeiro livro, Felitti foi convidado a escrever sobre João de Deus. Era um projeto completamente diferente dos a que estava acostumado, não somente por ter sido uma obra encomendada pela editora, mas principalmente pela história do personagem principal, um suposto médium condenado em 2019 a 19 anos de prisão por abusar sexualmente de centenas de mulheres. Mas ele abraçou o projeto e deu andamento à tão desejada carreira de escritor.

A partir daí, não parou mais.  Seus projetos seguintes nasceram como audiobooks, encomendados pela empresa sueca Storytel: a biografia de Elke Maravilha e o livro Damas da Noite, que conta a história verídica de travestis mafiosas que atuavam em São Paulo na década de 1970.  Ambos projetos foram adaptados e transformados em livros impressos – o primeiro já disponível no mercado; o segundo com lançamento previsto para novembro de 2022. Além do ponto que conecta todas as principais narrativas de Felitti – jogar luz sobre quem é invisível ou marginalizado –, estes projetos também tiveram seus direitos vendidos para a indústria audiovisual.

 

Vida de podcaster: Além do Meme e A Mulher da Casa Abandonada

Além de escrever lindamente, sempre colocando seu coração nas histórias e com total empatia e respeito a seus personagens, Felitti encontrou uma nova forma de desenvolver suas narrativas: os podcasts. Com o campeão de audiência Além do Meme, exclusivo da ferramenta de streaming Spotify, ele viaja pelo Brasil para apresentar pessoas que ficaram famosas na internet. O projeto já tem mais de 20 episódios e mistura jornalismo e entretenimento, incluindo entrevistas e comentários feitos por Felitti. O que poderia facilmente cair no clichê, entre o sentimentalismo ou até mesmo o deboche, ganha o patamar de história interessante e bem contada, devido à sensibilidade e ao cuidado que imprime em todos os seus trabalhos.

Seu podcast de maior sucesso, entretanto, é a série A Mulher da Casa Abandonada, que estreou no Spotify em junho de 2022 e já ultrapassou a marca de 4 milhões de ouvintes. Lançada pela Folha de S. Paulo, a produção nasceu da curiosidade do jornalista, que mora a poucas quadras de uma mansão do bairro Higienópolis, na capital paulista. Em seus passeios diários com sua cachorra, notou que a casa era habitada por uma mulher estranha, que aparecia na janela ou no jardim com o rosto coberto por uma pomada branca. Acreditou ser uma das muitas pessoas que vivem solitárias, esquecidas pela família. Decidiu investigar.

A narrativa tomou um rumo totalmente inesperado quando Felitti descobriu que a mulher em questão era Margarida Bonetti, uma fugitiva do FBI, polícia federal norte-americana. Brasileira, ela havia sido condenada nos Estados Unidos por manter sua empregada doméstica em condições análogas à escravidão. Seu marido foi preso, mas Margarida fugiu e se refugiou na mansão da família.

A repercussão do podcast foi diferente do que ele havia imaginado. O objetivo era dar luz ao terrível crime cometido por Margarida e ao fato dela nunca ter sido punida. Tanto que ele conta histórias de outras muitas mulheres que, em pleno século 21, são submetidas a desumanas condições de trabalho.

Mas a mansão virou ponto turístico e um verdadeiro circo midiático foi formado em torno de Margarida, quase ao ponto de transformar a criminosa em vítima, já que ela vivia em um imóvel sem luz, esgoto e sem as mínimas condições de higiene — posteriormente ela saiu da casa e sua localização hoje é incerta. Polêmicas à parte, o sucesso deste podcast só evidencia o poder e a competência do autor em investigar e contar histórias, envolvendo os espectadores e os aproximando dos personagens.

 

Influencer e empresário

Chico Felitti é também um empresário. Embora desenvolva projetos – livros, roteiros, podcasts – em parceria com empresas e veículos de comunicação, ele cria suas pautas e tem aquilo que sempre almejou, liberdade criativa. Workaholic assumido, conta que já está envolvido em um novo e interessantíssimo processo de investigação. Não deixe de ouvir seus podcasts e de acompanhar a sua vida de influencer digital. Sim, pois com seus mais de 200 mil seguidores, ele também ganha dinheiro em seu divertido perfil de Instagram: @chicofelitti.

28.09.2022